Manual de atendimento para uma carreira saudável

one-man_showNeste espaço já abordamos assuntos diversos como montagem de repertório, foco na carreira, a importância da web e das mídias sociais na divulgação do artista e muitos outros temas relacionados ao dia a dia de artistas e postulantes à carreira musical. Seguindo essa mesma linha de postagens, buscando contribuir para uma melhor formação do profissional relacionado ao mercado de música cristã, nosso texto de hoje abordará uma questão fundamental no dia a dia e principalmente na longevidade de uma carreira artística, o agenciamento. No meio popular, a figura do manager, empresário, procurador ou mesmo assessor é extremamente usual. Vemos que celebridades instantâneas como participantes de reality shows do dia para a noite contam com uma equipe de assessoria de imprensa, empresário, personal stylist, entre outros.

Já no meio da música gospel, geralmente os assessores são pinçados entre familiares, sendo mais freqüentes, as figuras de esposos e esposas. Inclusive já postamos anteriormente um texto sobre este caso aqui no Observatório Cristão que merece uma leitura complementar. Além dos maridos-empresários e seus similares femininos, no mundinho gospel music brazuca, nos deparamos com pastores-auxiliares, irmãos, amigos e cunhados “que-já-tentaram-de-tudo-na-vida”. Geralmente estas assessorias são de pessoas que não têm qualquer experiência profissional neste mercado e, nem por isso, buscam ampliar seus conhecimentos para aprimorar suas ações. A figura usual do assessor de artista gospel é daquele “resolvedor de coisas” auto-didata que vai adquirindo experiência entre acertos e erros (às vezes mais erros e nem assim aprendendo) no dia a dia da labuta.

Muitos dos artistas que hoje são reconhecidos como grande astros no show business, foram investimentos de empresários que acreditaram no potencial daquele novo talento à época. São vários os exemplos de “olheiros”, “descobridores”, de profissionais com faro apurado que ao identificarem um artista prodígio, reinventaram-no num novo projeto ou simplesmente investiram maciçamente tempo, atenção e principalmente dinheiro para que aquele determinado cantor ou cantora “estourasse” no mercado, até ser contratado por uma grande gravadora e a partir dali ter sua carreira consolidada.

No ambiente, que podemos considerar muito recente ainda em se tratando de fenômeno de mercado de consumo, da música gospel no país, a figura deste investidor é praticamente inexistente. O que vemos hoje é a figura do “secretário de luxo”, do “agente de negociação de cachês e de ofertas de amor” e ainda, aquele que atende telefones, pega recados, anota os convites e depois despacha com o artista para ter a resposta da agenda.

E toda esta introdução é para simplesmente alertar aos artistas atuais e prováveis postulantes, de que esse “profissional da agenda” tem a capacidade de alavancar ou simplesmente sepultar uma carreira. Quando um “assessor de artista” atende um telefonema e no primeiro contato já responde de forma dura, áspera ou mesmo sem a devida atenção, este simples ato mecânico, que pode durar não mais do que 2 minutos, tem uma capacidade de gerar enormes problemas no melhor estilo “rastilho de pólvora”, aquela imagem tão comum em desenhos animados onde a pólvora é espalhada num caminho e alguém na ponta oposta acende um fósforo e aquele fogo vai seguindo, seguindo, seguindo … até explodir de forma espetacular o barril ou uma carga de dinamite.

Outro dia, estava eu almoçando com uma determinada artista quando seu esposo-assessor-faz-tudo atendeu o telefone ao meu lado. Depois das apresentações habituais, o esposo-manager-agenda simplesmente detonou com o período de apresentações no telefonema passando para o momento “inquisição” que é formado pelas seguintes perguntas: Qual o nome da igreja? Qual a cidade? Qual a data? Passados alguns segundos desta entrevista tensa, o esposo-de-artista-starlet decretou com uma impáfia digna dos Césares nos Coliseus romanos: “Não! Não temos (observe a colocação do verbo na 1ª pessoa do plural) data para este evento! Só teremos dias livres em 2011. Se quiser, me ligue em novembro!” Com esta sutileza de tropa de choque em jogo de futebol, a conversa acabou naquele instante. Pra reforçar ainda mais este episódio inesquecível, vale ressaltar que em cerca de 3 horas de conversas junto à dupla, o telefone do esposo-escritório-ambulante-24horas tocou por diversas vezes insistentemente sem que o digníssimo parasse a conversa para atender aos apelos insistentes. E como se fosse uma piada em velório, ainda tive que ouvir a seguinte pérola: “Não agüento mais tanta gente ligando! São uns chatos! Não tenho paz nem por um minuto! Que coisa!”

Não preciso me estender nos comentários desta famigerada experiência de networking às avessas. Vocês devem imaginar minha reação! Vale acrescentar que a palavra networking é muito usada no meio corporativo. Em rápida explicação, esse termo significa “rede de relacionamentos”. Um profissional que almeja estar bem situado no mercado de trabalho, precisa exercitar diariamente o networking buscando ampliar suas possibilidades de parcerias, negócios ou mesmo de contatos para futuras recolocações. Não diferente no meio artístico gospel, o networking é de suma importância.

Uma das características marcantes e que diferem o artista popular do gospel é a possibilidade deste último, ter uma carreira longeva sem muitos altos e baixos. Não é raro observarmos artistas cristãos comemorando 20, 25 anos de carreira ainda com pleno sucesso! E essa longevidade também é fruto de uma postura profissional no atendimento dos convites de agenda.

Já que ainda estamos distantes da figura do manager-empresário no meio gospel, precisamos dar maior qualidade e profissionalismo aos “assessores de artistas gospel”. E esta melhora de qualidade passa por uma busca da melhor organização na logística e agendamento do artista. No relacionamento próximo aos promotores de shows regionais, pastores, lideranças estratégicas e profissionais de mídias, entre outros. Também na forma educada, firme e transparente no trato com as pessoas. No suporte integral às necessidades dos artistas. Na firmeza em relacionar-se com o patrão-artista deixando claro a importância do comprometimento deste para uma política saudável de networking, porque também não adianta o assessor prometer uma série de coisas, e o artista num arroubo de estrelismo (artista gospel também tem acessos de estrelismo? Sim! Definitivamente tem!) não cumprir com o que estava previamente negociado junto aos contratantes.

Se você é um artista gospel ou está em vias de se tornar um, observe atentamente como anda o atendimento de quem o representa. Lembre-se de que do outro lado da linha, o pastor ou promotor de evento visualiza aquele assessor como sendo a extensão de sua pessoa, portanto não cabe a desculpa “Lula” do “Eu não estava sabendo de nada! Que absurdo!”. Você tem sim, uma enorme responsabilidade sobre sua equipe de profissionais que o cerca e representa. Pra terminar, uma dica simples e que eu julgo bastante eficiente no trato com “clientes” – sempre aja com terceiros da forma como você gosta de que ajam contigo – em rápidas palavras, se você gosta de ser bem tratado ao telefone quando solicita algum serviço, então dispense a mesma atenção quando ligarem para você. Se você gosta que as coisas fluam com serenidade e organização quando é cliente, faça de igual forma quando você for a prestadora de serviços. Agindo assim, todos ficam felizes e as portas das igrejas, dos eventos, dos congressos, permanecerão sempre abertas para você!

__________________________________

Mauricio Soares é publicitário e um mordaz observador do cotidiano da música gospel, que também inclui lidar permanentemente com assessores de todos os tipos, tribos, línguas e raças, inclusive maridos-assessores e assessoras-esposas.

83 Comments

Deixe uma resposta para Mauricio Soares Cancelar resposta