SHOPPING CART

Me Engana Que Eu Gosto

De tempos em tempos me deparo com alguns ilustres desconhecidos com milhares e milhares de seguidores nas diferentes plataformas de redes sociais, às vezes até mesmo milhões. Aí me surpreendo e tenho que questionar, afinal como sendo eu uma pessoa tão ligada em tudo o que acontece neste meio, um determinado artista com tanta relevância nas redes sociais me passa desapercebido? É claro que não sou onisciente e nem tenho a petulância de imaginar que devo saber e conhecer tudo sobre o meio artístico gospel tupiniquim, afinal vivemos num país de dimensões continentais, mas efetivamente deparar-me com um ilustre desconhecido por mim com milhões de seguidores é algo que me assusta, surpreende e me impõe maior atenção às novidades.

Não são raras as vezes em que passo a observar com olhar mais criterioso o perfil deste artista tão surpreendentemente popular nas redes sociais e, então como acontece em 9,75 de cada 10 vezes, o que encontro na verdade é um artista no melhor estilo “Me Engana Que Eu Gosto!”, ou seja, os seguidores em sua esmagadora maioria são fakes ou para ser mais direto, são comprados, trocados, sequestrados, abduzidos e por aí vai! E diante deste fato tão deprimente de auto-engano a minha dúvida é que tipo de benefício o artista que se utiliza destas ferramentas imagina alcançar?

Sinceramente, de que adianta você ter 1 milhão de seguidores se tudo o que você posta na fanpage é curtido por 5 ou 6 pessoas, em sua arrebatadora maioria, amigos íntimos ou parentes? Ou então que seus posts são compartilhados por 2 ou 3 minguados seguidores? Isso demonstra claramente que o seu conteúdo não tem relevância alguma ou então que todos os seus milhões de seguidores na verdade não o seguem de verdade e preferem estudar física nuclear, viajar, ter outros hobbies e atividades que não incluem a visita cotidiana ao Facebook, Instagram e outras plataformas digitais.

Outro dia mesmo algum amigo me enviou o link de um clipe que estava com 530 mil views com cerca de 40 dias de postado no YouTube. O clipe era um vídeo bem padrão com aquelas historinhas de desgraceira total e no fim a pessoa se converte e tudo fica lindo maravilhoso! Não era uma tosqueira total o clipe, mas estava longe de ser uma mega produção. E aí ao observar na área de comentários, apenas 2 pessoas haviam postado alguma mensagem. Uma era a própria mãe do cantor dizendo que ”Deus tem promessa!” e que ele teria um grande futuro pela frente! Talvez ela indiretamente estivesse falando para o menino estudar e parar com essa história de querer ser artista … Já a outra mensagem era de um adolescente dizendo que o clipe estava fe-no-me-nau (a grafia era essa mesma, apenas a reproduzi!). ou seja, será que os outros 529.998 indivíduos que assistiram ao clipe ficaram tão petrificados pela mensagem e qualidade do clipe que sequer tiveram forças de expressar sua opinião a respeito? Para mim, mais um caso clássico de “Me Engana Que Eu Gosto”.

Uma das modalidades bem em voga neste momento é o “Gospel Ostentação” onde os artistas insistem na prática de fazer selfies e fotos com as multidões presentes em igrejas e principalmente eventos em lugares públicos. Quanto mais gente presente, mais cliques, mais poses e mais mensagens de pretensa humildade dizendo que naquela noite “Deus bradou!” e coisas do tipo. Nada contra registros fotográficos e a necessidade de se manter as redes sociais bem atualizadas com a performance do dia, mas e quando o evento “flopa” – pra utilizar uma linguagem bem atual, aprendi com meu filho adolescente! – ou a igreja é bem pequenininha onde não cabem mais do que 50 pessoas? Aí o cantor recorre a outros ângulos que disfarcem a pouca audiência ao evento. Neste caso, o recurso mais utilizado é tirar a foto com o pastor local, seus filhos, esposa ou ainda, a partir da plateia (inexistente quase!) para o palco ou púlpito como fundo. Ou seja, o artista sempre tem que passar a ideia de sucesso e eventos lotados. Na minha modesta opinião, estamos diante de mais um caso de “Me Engana Que Eu Gosto”.

Cotidianamente recebo e-mails, mensagens pelas redes sociais e mesmo contatos pessoais de artistas que destacam a sua própria performance em determinadas regiões. Geralmente estes artistas se jactam com peito estufado pelos incríveis feitos de suas músicas entre as mais tocadas nas rádios. “Lá na minha cidade, minha música é a mais tocada na rádio local!” – só que o cantor não leva em questão de que esta emissora é uma rádio comunitária na cidade de Cabrobó (nada contra essa cidade, apenas foi a primeira que me veio a mente!). Ou seja, ser o artista mais tocado neste veículo de comunicação não chega a ser nenhum assombroso sucesso! Não mesmo! E similar a este caso, temos também aqueles fenômenos de sucesso entre as mais executadas em rádio web … aí a apelação é total porque muitas destas rádios são pessoais ou com critérios nem sempre muito lógicos! É um caso de “Me Engana Que Eu Gosto” em altíssimo nível!

Ainda nesta área de mídias, não posso deixar de incluir outro modelo de “Me Engana Que Eu Gosto”. De uns 2 anos para cá surgiu em nossos arraiais o instituto de pesquisa Crowley, que entre outros serviços, afere a veiculação de músicas em rádios de programação evangélica. Esta é uma excelente ferramenta de trabalho para lojistas, mídias e principalmente profissionais de marketing de gravadoras. Só que no meio gospel, infelizmente esta ferramenta é suscetível a erros e distorções bem grandes! Digo isso porque boa parte das rádios do segmento estão vinculadas a igrejas que estão ligadas a gravadoras, ou seja, há uma série de interesses envolvidos na escolha da playlist da emissora. Além disso, há questões comerciais que também contribuem para essa balbúrdia entre o que efetivamente é vontade do publico e que é interesse comercial ou institucional. E temos recentemente casos clássicos de artistas que estão encabeçando rankings de músicas mais executadas nas FMs pelo país que em termos de vendas de discos estão bem tímidos e o mesmo acontece em se tratando de agenda de apresentações. Para mim, estamos diante de mais um exemplo de “Me Engana Que Eu Gosto”, onde o artista – por diferentes questões, estratégias e investimentos – se destaca na programação de muitas rádios, mas na realidade é um sucesso fabricado, tão real como uma nota de 3 reais!

Assim como temos rádios ligadas a igrejas, há também gravadoras ligadas a igrejas. E nesta simbiose, vemos inúmeros casos de artistas que recebem Disco de Ouro e até Platina sem que um único disco tenha sido vendido no mercado. Neste caso estamos diante de uma venda garantida onde a igreja atua como canal de escoamento dos produtos lançados pela gravadora. Não há neste caso nenhuma crítica à esta ação, até porque em minha trajetória já tive passagem por empresas que atuavam também desta forma e posso dizer que é uma atitude aceitável do ponto de vista comercial. A questão não é essa, mas no fato do artista satisfazer-se em receber Disco de Ouro e outras premiações desta forma, sem ter efetivamente o trabalho reconhecido pelo mercado. O sintoma de “Me Engana Que Eu Gosto” fica evidente quando o artista sai divulgando aos 4 ventos sua conquista quando na verdade, aquilo nada mais é do que uma simples remessa entre empresas de um mesmo grupo. E o maior risco neste caso é quando por algum motivo o artista sai desta gravadora/igreja e percebe que efetivamente sua carreira foi baseada em números irreais e numa total dependência de um único ‘cliente’.

Outro momento em que o “Me Engana Que Eu Gosto” se faz presente é na disputa por premiações. Aí é um tal de gente se esforçando para ter um reconhecimento que não existe … impressionante! Há uns 2 ou 3 anos atrás uma destas premiações incluiu uma categoria de jovens talentos ou algo do tipo. Aquilo ali era como acompanhar o pregão da Bolsa de Valores. Num determinado dia o cantor que ontem estava na terceira posição chegava ao topo de forma meteórica e colocando milhares de votos acima do segundo lugar. Já na manhã do dia, o quinto colocado ultrapassava todo mundo como um azarão em pleno Grande Prêmio Brasil atropelando a todos na reta de chegada e essa gangorra se estendia até o último dia de disputa. Esta categoria era decidida pelo ‘público’ e portanto sujeita a manobras não tão ortodoxas. A questão é se um prêmio realmente faz tanta diferença na carreira artística. Ou então, se vale qualquer preço ou esforço para a conquista do mesmo. Nitidamente alguns indicados utilizaram-se de artifícios tecnológicos para anabolizarem seus números. E aí me pergunto: a quem eles estão enganando além de si próprios? E o mais surreal e porque não dizer, cara de pau nisso tudo, é no dia da premiação, já com lágrimas nos olhos, o vencedor dedicar o seu prêmio aos familiares que tanto o apoiaram e com ele choraram (sempre tem que ter esse momento de novela mexicana!), aos amigos, pastores e por aí vai. Na verdade, ele deveria receber o prêmio “Me Engana Que Eu Gosto”.

Quando eu penso em já partir para a conclusão do texto, me vem à mente outros momentos e fatos que podem se encaixar no tema deste texto. Então seguimos com mais exemplos e um bem comum no meio artístico em geral é utilizado em profusão por ‘publicitários’ e profissionais de marketing. Não são raras as vezes em que um produto é anunciado como ”O maior lançamento do mercado!” ou ”O CD mais esperado do ano!”. Aí cabe uma pergunta simples: esperado por quem? Pelo grande público é que não é, afinal as vendas não repercutem dessa forma. Este é o marketing “Me Engana Que Eu Gosto”, sem dúvida!

Toda vez em que estou no exterior, principalmente na região da Flórida, EUA, costumo visitar uma ou outra igreja de pastores brasileiros amigos. E praticamente em todas estas vezes nos últimos 20 anos, me deparei com artistas brasileiros em apresentações pela região. Estas viagens são divulgadas pelos artistas como sendo turnês internacionais e, em muitas das vezes, até dão uma expectativa aos desavisados de plantão de se tratar de uma viagem com muitos shows, entrevistas, flashes, deslocamentos pelo país … mas na verdade, estas viagens nada mais são do que passeios patrocinados onde o artista se cansa mesmo é de fazer compras pelos Outlets. De turnê mesmo não há nada! É o que chamamos de trabalho missionário “Me Engana Que Eu Gosto”.

Vou ficando por aqui. Talvez existam mais exemplos como estes que citei neste texto. Então caso você se lembre de algum, não deixe de comentar em nosso blog. Uma das coisas que mais me alegram é receber comentários em nosso blog. Pode ser crítica, elogios, sugestões, receitas de bolo, dicas de emagrecimento e qualquer outro assunto, o importante é você interagir!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que pela idade ou vivência resolveu não acreditar mais em estratégias “Me Engana Que Eu Gosto”.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

11 Comments

  • Tiago Terciotty

    27/10/2014 at 18:56

    O mundo gospel e a fabricação de acontecimentos. Tão cheio de surpresas quanto a cara de espanto que os cantores fazem ao receber um disco de ouro em rede nacional. rsrs

    Responder
  • Joao Guilherme Pugsley

    27/10/2014 at 22:04

    E o ego dos missionários do “me engana que eu gosto” ?? Isso sim é impressionante, eles são demais, os melhores e ainda dão “Glória a Deus” !!! é rir para não chorar. Já teve “família buscapé” na igreja que frequentei que exigiu 1k de oferta, isso mesmo, exigiu !!! esse valor era o mínimo que eles aceitavam como oferta…em uma igreja do interior com 200 pessoas, rsrsr

    Responder
    • Alex Eduardo

      16/12/2014 at 14:37

      Quanto a isso é mais que justo João. Quer levar um artista em sua igreja e não pagar pra eles, quer que eles tirem do bolso? rss Cada uma. 200 pessoas na igreja cada um dando 10 reais já cobriria os custos.

      Responder
  • Cris Mesquita

    27/10/2014 at 22:32

    Gentemm!! Amei este texto!! Rí muito!! Viva os meus 320 seguidores do twitter!! Pelo menos são verdadeiros… rsrs

    Responder
  • Sirlei Lima

    28/10/2014 at 12:45

    Parabéns Mauricio! Texto muito claro, e quando eu me deparar com esta situação vou dizer: Me engana que eu gosto!! kkk

    Responder
  • Renatto Manga

    29/10/2014 at 10:53

    Vamos lá Mauricio, separe 1 kg de trigo, 2 ovos, 1 litro de leite #kkk
    Brincadeira!

    Esse texto (tese #rs) em especial contém diversos momentos que meu pequeno cérebro se pegou raciocinando ao deparar com páginas nas redes sociais e release na caixa de entrada do e-mail do nosso site.

    Agora vou passar a chamar também de “Me Engana Que Eu Gosto”, já que eu intitulava de “Tem algum otário aqui?”.

    Forte abraço Mauricio!

    Responder
  • AndredSena

    31/10/2014 at 07:54

    Um texto melhor que o outro… sempre me orienta ao que fazer ou não fazer…obrigado!!! chega de me engana que eu gosto rsss

    Responder
  • TheKid

    12/11/2014 at 09:14

    Na minha opiniao essas tecnicas de “marketing” em nada se diferem daquelas propagandas de refrigerante porcaria que vemos na TV: Dolly Guaraná, aí vem um cara tomando o negócio no bico como se fosse o néctar dos deuses… como dizem no sul, isso é tão improdutivo quanto tosa de porco: é muito grito e pouca lã..

    Responder

Deixe uma resposta