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Mudanças pelo novo mercado digital

Uma das grandes dúvidas do artista na hora de definir o repertório muitas das vezes nem é a qualidade das canções, os estilos musicais, a escolha do produtor ou coisas afins, mas decidir a quantidade de músicas que irão compor o álbum.  Já vi trabalhos com 16 canções. Também já encontrei (e até comprei!) CDs com 7 faixas. O mercado – não me perguntem o porquê – estabeleceu como norma a gravação de até 14 faixas. Particularmente gosto da idéia de se gravar um CD com até 10 canções. Só que toda esta discussão tornou-se inócua com a chegada do iTunes, pois a partir de agora, o artista pode usar e abusar da possibilidade de gravar singles.

Pra quem não está ainda ambientado a esta novidade, tentarei explicar melhor. No iTunes você tem duas opções de compra de conteúdo. Você pode optar por comprar um álbum completo ou somente o single, ou seja, uma única música. Com isso temos uma nova dinâmica no mercado fonográfico e na produção artística. Se até tempos atrás, finalizar uma produção de um álbum seria o equivalente a “fechar a tampa”, em tempos digitais, essa decisão se torna bem mais amena.

Já é prática usual no exterior e que em breve passará a ser mais comum no Brasil, os álbuns à venda nos canais digitais como o próprio iTunes costumam conter conteúdo extra. Assim, o artista que por questões estratégicas decidiu manter um álbum físico com 12 canções, pode ainda disponibilizar na versão digital mais uma ou duas faixas que porventura tenham ficado de fora da versão física.

A chegada do iTunes e a popularização do mercado digital, em especial no ambiente mobile, modificou bastante a relação do consumidor com a música. Hoje cada vez mais o singles assumem papel de destaque no mercado. É muito comum o comentário: o artista só tem um único sucesso! Acabei comprando o CD apenas por causa daquela música porque o resto do CD é sofrível! Já no ambiente digital, esse artista-de-uma-música-só fica fadado a vender-uma-música-só. Com isso, é importante alertar, aumenta em muito a responsabilidade dos artistas e principalmente dos produtores musicais em empenhar-se ao máximo em fazer um álbum coeso, equilibrado e que tenha bem mais do que uma ou duas boas músicas. Comentar sobre esse fato me fez recordar uma fatídica cena que assisti há alguns anos atrás em que um cantor, dono de um sucesso, simplesmente repetia a música 4 vezes no mesmo show, além de ministrar, chorar, pregar, sapatear, testemunhar e blá blá blá por quase 30 minutos tendo a mesma música como pano de fundo. Ao fim do show, o mega-pop-cantor-de-uma-música só cantou 5 músicas num show de pouco mais de uma hora de duração. Simplesmente patético!

O iTunes tornou-se o grande laboratório para os artistas e gravadoras. Nesta nova plataforma é possível lançar-se singles e a partir daí observar a resposta dos consumidores sem maiores investimentos de mídia ou promoção. É possível também, lançar um single muitos meses antes de disponibilizá-lo na versão física. Ou seja, a liberdade criativa em tempos digitais ficou muito mais democrática e menos arriscada, tanto para os artistas como para as gravadoras.

Hoje temos sucessos digitais muitas das vezes superiores a sucessos físicos. Temos casos, inclusive no Brasil, de uma determinada música com milhões de downloads (legais, sempre!) de um determinado artista e na venda física, o mesmo artista não contar nem com 50 mil cópias vendidas. O mercado mobile, hoje com mais de 235 milhões de aparelhos no país superando até mesmo a população brasileira, é um dos mais frenéticos do mundo. Já somos hoje o quarto maior mercado de telefonia móvel do mundo e seguramente um dos 3 maiores de negócios mobile, com enorme destaque para o Ringbacktone que vem se transformando em verdadeira coqueluche (que expressão mais antiga!).

Nota do observador: depois de quase 6 meses da chegada do iTunes no Brasil, infelizmente ainda vemos que há artistas do primeiro time da música gospel alijados deste mercado digital. É assustador ver que determinadas gravadoras ainda não têm seus catálogos de produtos à venda no Sonora, iTunes e outras plataformas digitais, incluindo as plataformas mobile.

Dia a dia estamos percebendo mudanças no mercado fonográfico em função do novo comportamento do consumidor, das mudanças sócio econômicas, através das novas tecnologias, entre outros aspectos. É muito importante estar atento a estas novidades e principalmente mudar por completo as estratégias, ações e objetivos. O mercado gospel tradicionalmente é mais lento em relação às transformações. Precisamos alterar essa característica de estarmos sempre alguns passos atrás do mercado secular e mesmo da sociedade para que não tenhamos um abismo colossal entre o mercado geral e o nosso segmento. Estejam atentos e abertos às inovações!

Mauricio Soares, observador das novidades do mercado, estudioso contumaz, torcedor do Fluminense, 31 vezes campeão carioca, publicitário, consultor de marketing e entusiasta por um novo mercado gospel, mais organizado, ético, profissional e coerente.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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