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Mudando as posições. Assumindo as rédeas da carreira artística

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Pode parecer coincidência mas efetivamente não o é … basta eu ficar um pouco mais de tempo em terra e os textos inéditos deste blog começam a escassear como as chuvas nesta época do ano na região sudeste do Brasil ou principalmente, no sertão do Nordeste. A verdade é que não tenho muitas oportunidades de tempo ocioso para dedicar-me a escrever qualquer coisa que mereça ser publicado neste blog que já está prestes a completar 9 anos de vida. Além da falta de tempo, confesso que também venho tendo poucos insights realmente inteligentes e pertinentes que possam transformar-se em conteúdo para o Observatório Cristão. Os meus 66 leitores sabem muito bem (vocês ainda estão por aí?) que tento ser bem criterioso quando se trata de textos para este espaço, principalmente em respeito ao QI e senso crítico dos nossos diletos parceiros de jornada.

Eis que marcando presença num estúdio de gravação em São Paulo, um dos amigos presentes me sugeriu escrever sobre um tema que, se não diretamente como ele me sugeriu, de algumas outras formas talvez mais leves tenham sido assunto de nossos textos aqui publicados. Mas pela forma como ele me sugeriu a abordagem e vendo a necessidade de que a classe artística tenha um entendimento mais claro acerca do fato, resolvi acatar humildemente a sugestão e sobre este assunto iremos tratar nos próximos minutos. Espero que consiga finalizar este texto a tempo de chegar no aeroporto Santos Dumont, na Cidade Olímpica …

Meu amigo sugeriu o tema da seguinte forma: “Mauricio, porque você não escreve lá no seu blog sobre a necessidade dos artistas se adequarem à nova forma de lidar com as suas gravadoras. Os artistas precisam entender que não é mais tempo de deixar que todo o trabalho seja feito pela gravadora” – e aí, veio a declaração que me impactou e serviu de incentivo para este texto – “Eles precisam entender que o lugar de ser artista é lá no palco ou no camarim … no dia a dia eles precisam ser gestores e principalmente participativos!” Por se tratar de um profissional muito experiente e por não ter qualquer vínculo com gravadoras, este comentário me soou bastante lúcido e principalmente, isento de maiores interesses e, de verdade, ele de uma forma bastante sintética e analítica conseguiu definir perfeitamente o atual momento da relação artista e gravadora.

A indústria fonográfica depois de 20 anos de queda livre de faturamento, em 2015 viveu um crescimento de 3,2% em nível global e especificamente no Brasil, o upgrade foi de 10,75%, ou seja, 3 vezes maior do que o patamar mundial. Isto é pra aplaudir de pé igreja!!!!!! Mas engana-se quem acha que o sol vai brilhar pra todos! Não mesmo! O momento é de grandes oportunidades com o crescimento exponencial do consumo de música através das plataformas de vídeo e áudio streaming e a manutenção da relevância do mercado mobile e de download no país, mas os resultados serão automaticamente de acordo com a forma e atitude desempenhada pelos artistas, seus escritórios de apoio e pelas próprias gravadoras.

Em primeiro lugar, com o crescimento do digital outros aspectos passam a ter relevância no dia a dia do mercado da música e, entre estas novidades destaco principalmente a importância do te inspiração, sonoridade. Ou seja, o sucesso passa a ser buscado através não somente da intuição, relacionamentos ou ideias mirabolantes e tende a ser mais criterioso, baseado em tendências, números, logaritmos, estatísticas, observação, pesquisa e conhecimento. E engana-se redondamente quem vê esta mudança como um retrocesso no espírito romântico onde a arte se faz entender pelo público através da qualidade e de seus atributos. Não é nada disso! Pelo contrário! A indústria da música, em especial, passa a entender melhor o perfil, desejos e tendências do público consumidor e de forma bem mais assertiva oferece a eles conteúdo que os atenda de forma mais plena.

O crescimento do mercado da música está diretamente ligado à popularização das plataformas de áudio e vídeo streaming. A apenas um clique o consumidor tem acesso a conteúdos do mundo todo, muitas das vezes de forma gratuita e portabilidade. Literalmente a música hoje pode acompanhar o consumidor onde e quando ele estiver! Ao consumir música por uma destas plataformas digitais, o indivíduo passa a criar sua própria cultura, demonstrando seus interesses, estilos, preferências e este consumo, de verdade, deixa rastros e vestígios que formam um perfil de consumo. E é justamente estas “pegadas” e consumo digital que devem ser observados, interpretados e servir como ferramenta na tomada de decisões. Falaremos muito a respeito deste assunto em um próximo post – os insights estão surgindo! – onde iremos abordar a necessidade de se investir em informações, a inteligência artificial.

Neste novo momento do mercado da música, outra importante alteração do status quo tem a ver com a participação dos artistas e de seus escritórios (algo meio raro ainda no meio artístico gospel) no processo cotidiano de trabalho. Não há mais espaço para artistas que dediquem-se tão somente aos seus processos criativos. A necessidade de se ‘arregaçar as mangas’ e participar lado a lado dos processos junto às gravadoras é fundamental. Não adianta a gravadora estabelecer uma mega campanha junto a uma plataforma digital se o próprio artista não entender e ‘comprar a idéia’ e, ainda mais, não participar ativamente dos processos de divulgação e engajamento junto ao seu público. Não dá pra ficar refastelado na rede tomando água de coco enquanto os simples mortais vão para as ruas atrás de resultados, oportunidades e negócios!

E não necessariamente o ‘arregaçar as mangas’ significa cuidar pessoalmente das suas redes sociais. Não! É muito mais do que isso e, principalmente tem a ver com a condução de tudo que diz respeito à sua carreira, ministério, seja lá como queira definir. A verdade é que o artista que souber conduzir sua carreira de forma pró-ativa, determinando claramente os objetivos, metas e desafios. Outro dia estava almoçando com um amigo cantor (que não era do cast de minha gravadora) e ele me dizia sobre sua insatisfação com sua atual gravadora, destacando o quanto se sentia desestimulado em lidar com eles por efetivamente não entenderem as mudanças do mercado fonográfico, entre outras questões. Tentando manter a calma, agindo de forma ética e principalmente lidando com muita paciência com o querido amigo, apenas o fiz entender que nesta nova configuração do mercado, os pontos positivos daquela empresa que no passado eram algumas de suas fortalezas e diferencial perante a concorrência, simplesmente se deterioraram nos últimos tempos e hoje tornaram-se questões de menor importância. Ou seja, para o querido amigo, estar naquela estrutura atualmente era algo inócuo e que efetivamente, em minha modesta opinião, ele deveria agir e cuidar pessoalmente de sua carreira.

Em suma, o momento agora é de participação integral por parte do artista! Os tempos são outros e mais do que nunca é fundamental que o artista tome as rédeas dos processos e que aja lado a lado com suas gravadoras, ou no caso dos independentes, que esteja à frente de todas as decisões de sua carreira.

Vamos em frente!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing, observador do mercado gospel e atualmente dedicado à implantação do projeto de música cristã na América Latina.

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