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Música Eletrônica Gospel – Será que isso pode dar certo?

Tenho vivido dias muito intensos ultimamente, a ponto de inúmeros (na verdade não mais do que uns 3 ou 4!) leitores do Observatório Cristão reclamarem abertamente da falta de novos textos no blog. Confesso que nestes dias tenho me dedicado a muitas outras atividades e tem se tornado um martírio reservar um tempo para escrever alguma coisa que realmente valha a pena. Esse é um problema e tanto! Reconheço quealguns textos (sem nenhuma modéstia!) deste blog são realmente especiais e bastante densos, pertinentes, inteligentes, perspicazes, instigantes, críticos … o que somente aumenta minha necessidade de sempre apresentar realmente algo de valor e que faça valer cada minuto dos meus 45 leitores assíduos na leitura deste blog.

Atualmente devo ter uns 4 a 6 textos em compasso de espera. Às vezes escrevo alucinadamente vários textos no mesmo dia. Em certos momentos, o tempo entre o insight e a execução do texto não demora mais do que alguns poucos e intensos minutos. Já em outras épocas (como nesta em que me encontro) atétenho bons temas a comentar, mas falta-me aquele fechamento especial e quando isso acontece, geralmente esses textos acabam ficando guardados em meu computador até que num novo surto de criatividade surja e eu ponha um pontofinal à altura.

Neste momento estou no portão J7 no aeroporto de Miami com destino ao Rio de Janeiro. Terei longashoras de vôo até pousarmos na Cidade Maravilhosa então é bem provável que alguma coisa possa surgir a seguir. Os dias que antecederam este momento foram mais uma vez de intenso aprendizado para mim. Tive oportunidade de participar mais uma vez da convenção da Sony Music Latin America e Iberia. Foram 5 dias em Nassau, Bahamas, de muitas apresentações, reuniões, informações e principalmente de intensa aprendizagem Oportunidades como esta são excelentes para qualquer profissional e procuro aproveitar ao máximo cada momento, atéporque em nosso meio, é praticamente inexistente eventos como este. Mas este ano tem sido especial para mim, pois além desta convenção, em julho estareiparticipando da convenção da Provident, a maior gravadora gospel do mundo. Estarei já no mês de julho, por 5 dias ao lado dos principais profissionais do mercado gospel nos EUA, além de poder assistir alguns pocket shows bem interessantes. Mais uma oportunidade de crescimento pessoal e profissional!Thanks God!

Nos próximos textos certamente farei observações mais detalhadas sobre tudo o que vi e ouvi naqueles dias. Em minhas anotações, além de destacar temas e idéias para usar no meu dia a dia na gravadora, também pude anotar muita coisa interessante para depois virar texto no blog. Então sem perder muito tempo, gostaria de comentar sobre algo que me chamou muito a atenção. Nas apresentações, em especial doMéxico, Espanha e Reino Unido – que participa como país convidado – a força da música eletrônica é notória. Isso fica ainda mais evidenciado em processos de “repaginação” de um artista romântico, por exemplo. O remix tornou-se ferramenta corriqueira nos trabalhos de grandes artistas. O clima é de festa total e absoluta! O pop é eletrônico. A balada é eletrônica. A música romântica é eletrônica. Ou seja, se há um estilo do momento na música mundial, ela atende pelos bate estacas, loops, efeitos e ritmos frenéticos da música eletrônica.

O cenário é de pista de dança. As músicas passaram a se destacar mais pelo ritmo intenso do som e pelos refrões de facílima repetição. A música também passa a ser visual calcada em clipes psicodélicos com carrões, mansões, mulheres em profusão e roupas em escassez. Muita luz. Cortes rápidos. Grafismos. Clima de modernidade total.

É este tipo de música que vem cada vez mais tocando nas FMs em todo o mundo. Isso já é notório no Brasil, nas praias de Ibiza, nos EUA, México, Argentina, Reino Unido, Austrália, Angola, Índia e quem sabe até nas Ilhas Seychelles. Mas se pararmos atentamente para analisar, não há ainda no Brasil nenhum artista consolidado neste estilo com sucesso à altura da demanda. O que percebemos por essas plagas é, no máximo, a existência de DJs que atuam na divulgação deste estilo, mas que não possuem um repertório próprio e inédito. Não me pergunte o porquê dessa realidade poisefetivamente acho muito estranho a inexistência de representantes neste segmento no Brasil. E isto, não é um fenômeno decorrente da falta de empenho ou visão das gravadoras porque não é! Na verdade, simplesmente não há artistasenveredando para este estilo musical!

 

E a música gospel? Pode entrar nessa onda eletrônica?

 

Geralmente somos muito atrasados na questão de estilo musical. Quando surgiu o sertanejo universitário no Brasil, os artistas gospel ainda estavam no sertanejo maternal também conhecido como sertanejo anos 90. Quando os cantores gospel passaram a gravar no estilo universitário, o mercado já estava no sertanejo pós-doutorado. Ouseja, geralmente quando o mercado gospel percebe a moda, uma nova tendência, ela já entrou em profundo declínio ou transformação. E sem querer me aprofundar neste tema, minha sincera opinião desse constante atraso tem um grande motivo: grande parte dos músicos, produtores e artistas do nosso segmento simplesmente não pesquisam e não ouvem música! Isso é praticamente inadmissível em se tratando de todas as facilidades do mundo web que transformou o mundo numa grande vila.

Há uns 10 anos atrás, as gravadoras gospel descobriram os remixes. Foi um tal de lançar CD com sucessos na versão eletrônica que simplesmente banalizou e empobreceu o estilo. Músicas lentas, de adoração, de louvor num passe de mágica (ruim por sinal) transformavam-se em bate-estacas. E aí o que poderia ter sido um novo segmento para a música gospel, simplesmente esvaziou-se em si mesmo.

É importante destacar que música eletrônica não é uma simples transformação. Não dá para reciclar meramente um sucesso e transformá-lo em hit eletrônico. O ideal é que a músicaeletrônica seja pensada e criada com foco no estilo próprio e não por uma mera adaptação.

 

Mas e aí? Podemos ter uma música gospel eletrônica de qualidade no Brasil?

 

A resposta é sim. Mas também é não. Sem querer ser um autêntico político brasileiro “em cima do muro”, permita-me explicar o que disse anteriormente. Creio que podemos ter umamúsica eletrônica gospel de qualidade no Brasil. Afinal, música gospel é muito mais do que um estilo, é um emaranhado de formatos, culturas, influências esons. Tempos atrás jamais imaginaríamos ter um hip hop da qualidade do som do Pregador Luo ou um gingado pop-rock-mpb do Thalles. Então é bem provável de que muito em breve possamos ter algum artista gospel destacando-se no cenário eletrônico.

Li em alguns sites sobre a conversão e contratação imediata da ex-funkeira Perlla. Não vou opinar sobre o fato dela já ter “virado a chave” passando agora a ser uma artista gospel, mas talvez seja ela uma artista adequada a fazer a introdução da música eletrônica de qualidade no cenário gospel. Sinceramente espero que ela venha no seu trabalho de estréia com uma proposta eletrônica e que não torne-se mais umacantora pop gospel ou mesmo pentecostal. Fica a torcida!

Talvez o maior obstáculo para esse novo estilo na música gospel seja o conceito que temos da própriamúsica gospel. Ainda hoje vemos esta área artística como meramente algo panfletário no sentido de expor para todos a nossa fé. Ainda não temos uma música gospel mais lúdica, focada em temas como amizade, carinho, respeito,ecologia, cidadania, voluntariado ou coisas do tipo. É sempre muito “inimigo”, “conquista”, “vitória”, “vingança”, “perseguição”, “humilhação”… acho que podemos ampliar significativamente os assuntos em nossas canções. Nem mesmoconceitos cristãos e bíblicos são aproveitados como deveriam. Alguém já parou para pensar como são raras as músicas que falem de perdão, ceia, reconciliação?

A música além de transmitir uma mensagem ela deve servir como entretenimento. Quando os compositores, artistas, produtores e gravadoras entenderem que há um nicho a ser explorado ligando a mensagem gospel a um caráter maior de entretenimento, aí sim teremos maiores possibilidades de termos músicas eletrônicas em nosso meio. Também é importante também ressaltar que temos uma enorme massa de adolescentes e jovens nas igrejas! Esse público está completamente antenado às novas tecnologias e tendências do mercado, entre elas, a música eletrônica!Portanto, é bastante estratégico que estejamos mais abertos a esta novidade e que desde já comecemos a produzir algo neste estilo que realmente faça a diferença!

Vou ficando por aqui porque já estamos começando o embarque de volta ao Brasil. Espero que eu desmaie dentro do avião e acorde somente na Cidade Maravilhosa. Grande abraço a todos!

 

Mauricio Soares, publicitário, blogueiro, alguém que curte MPB e Bossa Nova e pai de 2 pré-adolescentes que já descobriram o som de One Direction.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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