Nada é de Graça: Lidando com sua estranheza

HC2003

Pouco antes de partir deste mundo, o poeta e tradutor Haroldo de Campos (1929-2003) concedeu sua última entrevista para tv.

Lembro-me muito bem: mal se via a cabeça do velho, que aparecia entrincheirado atrás de pilhas e mais pilhas de livros, fotos, anotações e dicionários.

O ponto culminante do programa foi a explicação que o poeta deu para manter não apenas uma, mas duas salas caóticas, praticamente iguais, repletas de tanta papelada: “Estou traduzindo Homero e Goethe, e eles dois não se dão. Então, pra não me prejudicar, Goethe fica nesta sala e Homero na outra.”

Sim, um cara desses tinha mulher: mas isso é pra outro post.

Reconhecer o direito de ser completamente estranho aos olhos dos seus parentes, vizinhos e acochambrados é obra para toda uma vida e tem relação direta com o seu trabalho.

A menos que você tenha a sorte de ter por perto um influente artista frustrado, a verdade é que todo o universo ao redor vai conspirar pra que você não desenhe, não pinte, não escreva, não toque nenhum instrumento — “você precisa é tomar jeito e arrumar um emprego de #EscolhaOnomeQuePreferir, que nem o #VizinhoQueComprouUmaFerrari.”

Não caia nessa: todo mundo sabe que você não leva jeito pra isso.

Se você tem talento para algo no universo das artes, das letras, essas furadas, não cometa o erro primário de querer “dar certo”: você está fadado ao “delicioso fracasso”, mesmo que, aos seus olhos, os fracassos do Darcy Ribeiro sejam mais atraentes do que as vitórias do Michael Zuckerberg.

Não tente se consertar: você não vai convencer ninguém na fila do Avatar, e nem vai entrar na pista para dançar “La Bamba” com a cueca boxer aparecendo, óculos em cima da cabeça e o copinho de vodka na mão. Portanto, empenhe-se em ser aquilo que você e todo mundo sabem que você é: “um rascunho, uma forma nebulosa feita de luz e sombras.”(1)

Parte da sua capacidade de ser quem você é, baseia-se também neste senso torto de adequação, nessa tolerância com sua excentricidade, na incapacidade de se divertir e viver como aquele sujeito sorridente de pandeiro na mão.

Não esmoreça: a qualidade da sua produção tem relação com esse seu jeitão de ornitorrinco, de se olhar e perceber que: “é isso mesmo, não vou ver o reality show e nem vou entrar no cinema 4D do shopping.” — bateu um desespero? Junte-se aos doidos como você: tem muitos por aí, é só saber procurar, eu garanto!

Acredite em mim: se você não fizer nada pra “se viabilizar”, acaba preservando sua mente distorcida, e é esta mente bizarra que diferencia você dos outros — pode até ser que te paguem por causa dela, e sua vocação inequívoca para o fraca$$o seja ameaçada, se é que me entende.

Tem mais: não, não é verdade que você precise saber sobre o que se passa em todas as salas de cinema, em todos os programas de tv, e no último capítulo da novela que todo mundo assiste.

Todas as grandes obras da humanidade foram feitas por gente esquisita, pessoas que trabalhavam duro e que se concentravam em ser o que eram, para prazer ou desprazer de seus mais próximos — ou você acha que Leonardo Da Vinci, Muhammad Ali ou João Gilberto podem ser considerados “pessoas normais”?

Tirem do estranho a capacidade de viver num mundo dele, tirem essa loucura evidente — que pode até ser controlada para fins profissionais —, tirem esse jeito próprio de ser e você mata o cabra, e leva junto o trabalho dele.

É a sua vida que está em jogo, então  não permita que façam isso com você.

Por outro lado, todo mundo tem que reconhecer os seus limites.

E sendo assim, não custa nada lembrar: “ao persistirem os sintomas, um médico deverá ser consultado.”

___________________________________________
Carlos André Gomes é designer e há 40 anos dá esses vexames.

(1) Elis Regina, no álbum Trem Azul, lançado em 1982 com a íntegra do show gravado na última apresentação da cantora, em outubro de 1981, no Palácio de Convenções do Anhembi, em São Paulo.

24 Comments

Deixe uma resposta para Carlos.Andre.Gomes Cancelar resposta