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Não caia na armadilha do sucesso garantido!

Na semana passada um renomado produtor musical me apresentou o trabalho de uma jovem artista. Em se tratando de um projeto por aquele profissional tão conceituado e principalmente por ele ter se esforçado em me apresentar, é óbvio que a atenção com o referido disco deveria ser diferente do usual. O recebi em meu escritório, reservei boa parte de minha agenda e ainda ouvi atentamente cada uma das canções daquele CD. Em determinado momento ele começou a elencar o time de compositores e já foi adiantando que todas as músicas tinham contrato de exclusividade de interpretação por 5 anos, devidamente pagos aos seus respectivos autores.

Coincidência ou não, já na segunda canção, identifiquei-a como tendo sido gravada anteriormente por 2 artistas há alguns anos atrás. À época inclusive, as duas cantoras usaram a mesma música como single e os lançamentos de ambas foram feitos em períodos iguais. Ou seja, frustração por todos os lados.

Na tarde de hoje, antes de embarcar para São Paulo onde terei 1 noite e 1 dia intenso de trabalho, participei da audição de um novo projeto que lançaremos em breve. Depois de conferir todo o trabalho (excelente por sinal!) ouvi da cantora a decepção por ter gravado uma canção que até então julgava ser inédita e que na verdade, também havia sido gravado por outra artista independente que também estará lançando um novo disco nas próximas semanas. Inclusive esta artista não só apostava suas fichas nesta canção como colocara o título do CD sendo o mesmo desta música.

Se fizermos uma pesquisa sobre fatos como este no meio dos artistas gospel, veremos que isto acontece com relativa frequência e se repete especialmente com determinados compositores medalhões de nosso circuito. Há uma lista de compositores já bem conhecidos que “venderam” suas músicas para 4, 5, 6 artistas gravarem no melhor estilo produção em série. Há alguns anos atrás, quando artistas regionais ficavam muitas das vezes restritos a algumas cidades ou estados, e assim esta prática da “venda de músicas no atacado” se mantinha com relativa tranquilidade. Afinal, até determinado artista do norte do país ter conhecimento de que outro cantor lá de Santa Catarina também havia gravado a mesma música isso poderia demorar anos ou nem mesmo acontecer.

No entanto, hoje em dia, com o advento da web e da comunicação instantânea, ficou muito mais difícil ‘camuflar’ esta  multiplicação de artistas gravando as mesmas músicas. Ou seja, em pouco tempo artistas isolados quilômetros de distância têm conhecimento de que acabaram de cair no “conto da exclusividade” e, assim, automaticamente entram no rol de frustrados e decepcionados pela falta de palavra e comprometimento  por parte dos seus amados compositores.

Depois de muitas histórias como esta, os artistas resolveram criar alguns artifícios para sua auto-proteção. Entre as mais usuais está o contrato de uso exclusivo por tempo limitado. Ou seja, o artista firma um contrato com o compositor onde este se compromete a não ceder para outro a referida canção. Estes contratos geralmente têm cláusulas de multas e penalidades e todo tipo de regras bem claras. O problema é que há compositores assinando a torto e a direito estes contratos e mesmo assim, liberando suas canções “exclusivas” para o primeiro que assinar a folha de cheque. Absurdo dos absurdos!

Tenho orientado os artistas a agirem de duas formas nestes casos. O primeiro é fazer valer o que está em contrato. E neste caso é fundamental que o contrato seja redigido por um advogado capacitado e esteja de acordo com a nossa legislação.  Todo contrato apresenta direitos e deveres e se o artista está dentro de seus direitos que o faça valer integralmente. Confesso que não me recordo até hoje um único caso de compositor que tenha sido acionado judicialmente por algum artista que se sentiu prejudicado nesta área. Esta falta de uma ação mais incisiva apenas  estimula este tipo de compositor-mercador a continuar ludibriando sua clientela.

A outra opção, e esta sim julgo ainda mais incisiva, é simplesmente não gravar músicas destes compositores-camelôs que se julgam indispensáveis. De acordo com as próprias leis que regem o comércio, a falta de demanda automaticamente impõe mudanças drásticas na condução do negócio. Ou seja, se estes compositores são colocados na geladeira dos artistas, a expectativa geral é de que eles mudem a própria conduta tornando-se mais ciosos de suas atitudes.

É importante frisar que um compositor não garante o sucesso de um projeto. Me impressiona como no meio gospel há modismos até na questão de compositores ou mesmo produtores. Quando um determinado compositor assina um hit, todos os produtores e artistas passam a assediar esse compositor como se tivessem achado uma mina de ouro e dali brotassem pepitas do minério a toda hora. É claro que em determinados um compositor ‘acerta a mão’ e vive uma fase próspera de boas letras e melodias, mas isso não se dá como se estivéssemos diante de uma produção em série da Fiat produzindo bólidos de minuto a minuto. Geralmente um compositor tem algumas boas canções e quando ele realmente vira uma celebridade, sua produção já está reservada por um artista medalhão. Quando artistas independentes e de menor expressão o descobrem, na absoluta maioria das vezes têm acesso a músicas de qualidade inferior ou então recebem músicas que já foram enviadas para outros 50 artistas.

Muitos artistas optam em incluir músicas destes compositores hitmakers em seus repertórios como se assim estivessem garantindo um bom repertório. Ledo engano. O que garante um bom projeto artístico é uma minuciosa e criteriosa pesquisa. Sem transpiração, não há inspiração. Não há nada mais importante num projeto musical do que o repertório. Coloco esta última afirmação em negrito, mas o ideal seria colocar em letras garrafais! O sucesso de um disco começa e termina na boa escolha das canções que irão fazer parte do repertório. Todo o mais será um complemento para destacar a qualidade das músicas selecionadas.

Conversando com o mesmo produtor citado no início deste texto, lembramos de que na pré-produção de um determinado projeto, a artista passou mais de 1 ano coletando canções e ao fim selecionou pouco mais de 50 músicas. Estas, uma a uma foi conferida atentamente por todos nós para que ao fim do processo de seleção chegássemos no repertório final do CD. A última fase de seleção, aconteceu na casa da artista por volta das 3 horas da manhã quando todos estávamos completamente exaustos, mas completamente cientes de que tínhamos em mãos um grande repertório. Coincidência ou não, este tornou-se um dos maiores lançamentos do mercado nos últimos tempos.

Concluindo, dê a devida importância na seleção do repertório. Não opte por caminhos mais fáceis e ágeis. Escolha de repertório não impõe prazos, mas responsabilidade e critério. Um repertório mal escolhido irá definitivamente produzir um disco fraco! E por fim, não torne-se refém de compositores da moda. Pesquisando bem, sempre iremos encontrar novos compositores, com novas propostas e quem sabe, grandes sucessos!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, alguém que já ouviu bizarrices estrondosas na seleção de repertórios e ao mesmo tempo, também teve enorme prazer em ver surgir grandes sucessos em processos exaustivos de pesquisa.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

2 Comments

  • Alex Eduardo

    08/10/2014 at 00:30

    Ahh isso acontece e muito. É o que disse no artigo. Vão diminuir ou parar com isso, quando os artistas começarem a distribuir processos em cima dos compositores. Aí quero ver essa farofa acabar.

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  • Michele Carvalho

    10/10/2014 at 16:33

    Meu esposo é compositor e suas músicas têm alcançados grandes nomes. O problema que vejo é que a demora pela escolha do repertório pode causar grandes transtornos. Chega uma hora que o compositor esperou tanto o retorno do cantor e do produtor que não acredita mais que alguma música vai entrar e pode acabar passando para outros produtores. Acho muita falta de respeito para com o compositor esta demora de meses sem um telefonema ou uma troca de mensagem. É importante uma resposta, seja positiva, negativa.
    Quando o aceite da música é informado ao compositor e o contrato é feito, é claro, o que estiver no contrato deve ser respeitado. E se não estiver em contrato, prevalece a ética do compositor.

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