Home Mercado Fonográfico Não dá pra só falar, tem que entender e utilizar!

Não dá pra só falar, tem que entender e utilizar!

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O Observatório Cristão está prestes a comemorar 9 anos de existência e se você é um dos assíduos 69 leitores deste abnegado blog nos últimos 6 anos, certamente já terá percebido o quanto este ambiente informativo vem falando sistematicamente das transformações que a indústria da música passa nesta última década em especial. Com mais de 25 anos de mercado, boa parte de minha vida profissional dedicada à área fonográfica, especialmente estes últimos anos têm sido de mudanças radicais de conceitos, ações, estratégias e principalmente de muito aprendizado. É até interessante reconhecer que mesmo depois de quase 3 décadas trabalhando no mercado, boa parte do conhecimento e expertise foram conquistados nos últimos anos e isto certamente me tira da zona do conforto e ao mesmo tempo, dá um ânimo a mais por entender que tenho muito a crescer pela frente.

Nas últimas 3 semanas participei de palestras, reuniões, treinamentos e muitas discussões com profissionais do mercado, especialmente gente ligada às plataformas de áudio e vídeo streaming. Por mais que eu faça parte de uma equipe e de uma estrutura que está à frente dos acontecimentos, ao lado de profissionais ultra gabaritados e tendo acesso ao que há de mais atual em tendências, estudos e pesquisas, o fato é que sempre descubro algo novo nestas ocasiões … seja uma nova ferramenta, um novo olhar sobre o comportamento do consumidor, alguma nova tática ou estratégia, enfim, não há tempo perdido nestes encontros, o que há é uma constante reciclagem de ideias.

Em contato com muitos artistas do meio gospel tenho percebido um certo, pra não dizer enorme, atraso no entendimento deste novo mundo digital. E se considerarmos que o mundo gospel tupiniquim já tem naturalmente um delay nas mudanças e adaptações, em novos hábitos, o desconhecimento deste universo ou sua adequação às novas tendências poderá gerar um atraso que dure algumas décadas até ser recuperado. Sim! Tenho como opinião de que se os artistas do mundo musical gospel não começarem a desde já entender e se adequar a este novo momento, o abismo entre o mundo secular e o gospel será monumental e isto poderá gerar consequências bastante danosas, sendo a principal, o desinteresse por parte das plataformas em atender e dar a devida atenção ao segmento. Para corroborar com esta minha opinião basta ver o que vem acontecendo com o afastamento de um dos maiores grupos de mídia do país perante o segmento evangélico por não conseguir entender e decifrar a cultura deste nicho de mercado.

Em conversa com uma executiva destas plataformas de áudio streaming ela me comentou sobre algumas questões que precisam ser rapidamente observadas pela classe artística, não só do meio gospel, mas como um todo.

Em primeiro lugar, o artista precisa entender onde está o seu fã.

Em outras palavras, hoje há dois ambientes digitais e muitas plataformas de streaming e, cada artista tem seu público mais identificado com alguns destes universos. Para ser ainda mais claro e didático … há artistas que concentram seu público no YouTube (geralmente pessoas de classes mais populares), já outros artistas contam com maior audiência entre seus fãs no Spotify ou Deezer, por exemplo. Especificamente o Deezer, por ter no Brasil uma parceria com a operadora de telefonia Tim, tem uma cobertura mais nacional e um pouco mais popular. Já os usuários da Apple Music, teoricamente são consumidores de um nível social mais elevado, justamente por terem acesso aos equipamentos e ambiente Apple. Dito isto, é fundamental que os artistas tenham uma noção clara de onde poderão encontrar e comunicar com o seu público. Esta história de “Você encontra nas plataformas digitais” ao fim dos anúncios, flyers ou mesmo textos nas redes sociais é tão inócuo como a massacrada e surrada frase “À venda nas melhores lojas”, como assim melhores lojas? Nas ruins não tem o produto? E o que é, na verdade, o conceito de “melhor loja”? Portanto, é fundamental que o artista comunique diretamente com seu público incentivando-o a consumir seu conteúdo diretamente no Spotify, Deezer, YouTube ou seja lá qual plataforma seja, mas que isso se dê de forma direcionada!

Um determinado artista do pop rock Brasil, dias atrás começou a postar em suas redes sociais de que ele havia criado uma playlist específica em determinada plataforma de audio streaming. Os fãs começaram a interagir, ele observou os comentários, fez ainda alguns ajustes, adicionou algumas faixas na playlist, ou seja, manteve um relação intensa com os fãs e os números acompanharam esta iniciativa. O número de seguidores de seu canal cresceu 354%, o número de streamings mais do que quintuplicou e a partir de então ele passou a conhecer um pouco mais do que seu fã espera e deseja do ponto de vista musical.

Ainda em cima deste exemplo real, outro detalhe foi citado na conversa com a executiva do mercado digital. Além de identificar onde está concentrado o seu fã, este artista deu claro entendimento de que ele mesmo era habitué daquele ambiente, daquela plataforma digital.

O artista precisa OBRIGATORIAMENTE ser usuário e entendedor de alguma plataforma de audio streaming!

Sabe aquele ditado: “Faça o que eu digo, não faça o que eu faço”? Pois bem, neste caso há muitos artistas que divulgam as plataformas digitais, em suas entrevistas falam sobre a mudança do mercado, sabem sobre a necessidade de se adequar a este novo ambiente, colocam flyers de divulgação em suas redes sociais, fazem questão de mostrar modernos e antenados com as novas tecnologias e … continuam agindo como se eles próprios não necessitassem viver neste novo mundo! Isto é o cúmulo da hipocrisia (teria alguns outros adjetivos neste momento, mas prefiro que vocês imaginem …), pois como o artista pode querer que se público aprenda a lidar com Apple Music, Deezer ou Spotify se ele mesmo não tem contato diário com estas plataformas? Se ele ainda ouve música somente na rádio ou através do CD ou DVD, como pode querer que seu público migre para novos ambientes. Não há nada mais falso do que você ouvir uma pessoa falando de algo que verdadeiramente não entende, não vive, não utiliza! Você já teve a experiência de participar de um evento onde o palestrante não tem profundidade e conhecimento do assunto exposto? Ou já participou de algum treinamento onde o coaching não teve nenhuma experiência real no mundo dos negócios? Em todos estes casos, o interlocutor simplesmente não tem estofo, consistência para se fazer crível em sua explanação. Pois o mesmo acontece neste momento quando o artista quer que seu público tenha contato com este novo ambiente e ele mesmo não o domina ou pior, sequer participa.

E neste caso não falo sem conhecimento de causa. Durante um bom tempo eu fui como boa parte dos artistas, ou seja, falando sobre o mercado digital sem que fosse um usuário contumaz das plataformas. Não é fácil mesmo mudar o chip … dormir analógico e acordar digital. Esta transição, este aprendizado se faz dia a dia, mas não foi assim também que você se acostumou com o Facebook, Instagram, Twitter e mesmo o falecido Orkut? Ninguém precisa ser um P.H.D de audio streaming, mas o básico de conhecimento e o consumo através de uma plataforma é OBRIGATÓRIO (sim, em letras garrafais para que não deixe dúvidas de sua importância!) para todo aquele que lida com o mundo da música profissionalmente, seja o próprio artista, músico, jornalista, produtor musical etc. Ainda em cima de minha experiência pessoal, durante algumas semanas dediquei algumas horas de meu dia para pesquisar as ferramentas, entender a questão dos algoritmos, aprimorar a questão das playlists e de verdade, entender e aprofundar-me no universo do audio streaming. Hoje meu contato com minha plataforma de preferência é algo bem natural, faz parte das minhas atividades cotidianas e prosaicas. Tornou-se efetivamente algo prazeroso e comum.

Ainda sobre o uso e relação dos artistas com estas plataformas é importante que os conceitos estejam e sejam bem entendidos. Temas como playlists, followers, streamings, observação sobre hábitos dos fãs, entre outras questões é fundamental que sejam compreendidos. Especialmente quando o assunto for playlist, é necessário que o artista esteja bem íntímo do tema. O artista deve criar sua playlist, não necessariamente apenas com seu conteúdo mas também com os artistas e estilos que servem como referência para a criação de seu próprio perfil artístico.

E o último aspecto que gostaria de destacar sobre a relação artista e plataformas de áudio streaming, na verdade é mais uma dica do que uma conjectura.

É importante que o artista, mas basicamente qualquer usuário destas plataformas, passem a encarar e a utilizar estas ferramentas não só como um canal de consumo de música, mas efetivamente como mais uma rede social.

O artista é um formador de opinião por natureza. As plataformas de áudio streaming possuem diversas ferramentas que fazem a função de promover a interação entre as pessoas. Há ferramentas de compartilhamento de conteúdo, as playlists e os artistas podem ser seguidos, há ainda o perfil aberto onde os seguidores conseguem visualizar que tipo de música o usuário está consumindo on line, ou seja, há uma série de ações para que o artista possa se relacionar diretamente com seu público.

Ou seja, não dá pra ficar da janela observando as coisas acontecendo. Neste momento é fundamental entender as novas modalidades de consumo e relacionamento com a música. Como tenho dito em outros textos aqui publicados e principalmente em meu dia a dia, vivemos um momento histórico e emblemático onde democraticamente todos têm chances iguais de conquistar uma posição de maior destaque no concorrido meio artístico. Só para destacar alguns artistas que podem exemplificar com perfeição tudo o que foi dito neste texto de hoje, gostaria de citar Leonardo Gonçalves, Priscilla Alcantara e Gabriela Rocha como artistas que são usuários contumazes de música, assinantes e ativos nas plataformas de áudio streaming e heavy user das redes sociais. Não por coincidência, todos os 3 artistas citados têm conquistado excelentes performances neste novo mundo digital.

Finalizo este post parabenizando o Deezer pela iniciativa em ter um curador de playlist e suporte de marketing específico para o segmento e conteúdo gospel. É a primeira plataforma no Brasil a caminhar neste sentido e isto demonstra a importância do segmento para o mercado. Recentemente eles lançaram uma grande campanha de adesão e assinatura exclusiva para os consumidores do segmento. Sucesso!

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, consultor de marketing e alguém que vem curtindo muito o som de Estêvão Queiroga, Jimmy Needham e Evan Craft, vale a pena conferir!

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  • Isac Soares

    Mauricio, tudo bem? No decorrer dos anos percebemos como a forma de consumir musica mudou drasticamente e seu post vem corroborar com isso. Mas tenho uma duvida: Já que eu tenho milhões de musicas do mundo todo a minha disposição por uma valor baixo (R$ 14,90) o que me levaria a comprar o álbum ou mesmo uma das faixas do artista? O Streaming vai acabar com as vendas de álbuns e musicas (mesmo em formato digital)? Se sim, como os novos artistas poderão de fato sobreviver de musica, já que a remuneração por Streaming ainda não é das melhores (pelo menos no caso de pequenos artistas)? Um abraço e mais uma vez parabéns pelo post.