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NUMA HORA VAI!

De tempos em tempos há algumas perguntas que costumam ser repetidas numa frequência recorrente e de alguma forma reproduzem fases específicas de minha vida ou do mercado, apenas para citar 2 momentos bem distintos. Me lembro que enquanto namorava minha futura esposa (um namoro que se estendeu por alguns anos) as pessoas nos perguntavam constantemente sobre quando nos casaríamos. Depois de subirmos ao altar, bastaram apenas alguns poucos meses para que as primeiras cobranças pela chegada do primeiro filho começassem a surgir. Passados quase 6 anos depois, veio a notícia da gravidez de minha esposa e aí as inevitáveis perguntas: prefere menino ou menina? Quando saiu o resultado da chegada do Fernando, meu primogênito, festa de todos, muitas felicitações e já de bate pronto a inevitável pergunta: mas e aí? Não vão parar em um filho só, né? Tempos depois recebemos a notícia da chegada do Leonardo, nosso segundo filho e com ele as perguntas seguiram sobre os assuntos mais diversos como a preferência do sexo (agora é um casal?), o nome do bebê, a continuidade do processo reprodutivo (fechou a fábrica?) e coisas afins. É impressionante a falta de noção das pessoas em, na verdade, não se preocuparem com as respostas, mas sim em dar a sua própria opinião a respeito das coisas que não lhe dizem respeito e, principalmente a ausência de criatividade, principalmente nas piadas que geralmente seguem um script padrão do tipo: que bom que puxou à mãe, salvou a família!

Trazendo esta realidade para o nosso mercado, há alguns anos atrás eu repetidamente era questionado sobre o tempo de vida útil dos CDs … projeções as mais descabidas surgiam e constantemente as pessoas me perguntavam sobre este assunto. Tempos depois a pergunta já focava especificamente para o mercado gospel: tudo bem que no meio secular a transição entre o físico e o digital está indo rápida, mas no meio gospel o digital vai crescer tanto mesmo? Em quanto tempo teremos o mercado consumindo música exclusivamente no digital? Recordo-me que sempre respondi a este questionamento com a certeza de que mais tempo ou menos tempo, o mercado se renderia ao digital. A questão para mim não era o “se”, mas o “quando”. E ainda hoje, mesmo com a transição do mercado fonográfico acontecendo de forma mais intensa nos últimos 3 anos, sou questionado sobre esta mudança dos hábitos de consumo de música entre o público evangélico tupiniquim.

E ontem, conversando com alguns amigos, o assunto desta transição surgiu mais uma vez. Particularmente gosto muito de números, dados, estatísticas, tendências, enfim, trabalho com informações e costumo usá-las sempre quando me deparo com algum tipo de debate ou questionamentos. Então, no meio deste bate papo tendo a Baía de Guanabara ao fundo, esplendorosa, maravilhosa … comentei aos amigos de que hoje 96% de nosso faturamento na empresa refere-se às vendas digitais contra apenas 4% de produtos físicos. Apresento os números do crescimento do mercado fonográfico no Brasil e no exterior, a tendência de crescimento para os próximos 5 anos, comento sobre a queda de mais de 70% nas vendas físicas no país em 2017 e ainda, uma visão pessoal (ressalto aqui, uma opinião própria desprovida de maior profundidade ou números estatísticos!) de que o mercado digital ainda não atingiu a grande parcela do público cristão no Brasil. Especificamente junto aos apps de áudio streaming, o DataSoares especula que não mais do que 5% (talvez até menos do que isso!) do que consideramos como consumidor evangélico nacional esteja vinculado às plataformas. Resumindo, em minha opinião, Spotify, Deezer ou AppleMusic hoje estão atingindo uma pequena parcela dos mais de 60 milhões de brasileiros evangélicos, ou seja, se as coisas estão boas, imagine quando 20, 30, 40% da população passar a usar os serviços destes apps. Será uma revolução!

Seguindo com esta perspectiva, as possibilidades do mercado digital são, de fato, impensáveis, incalculáveis! Temos que levar em questão que a partir dos apps de áudio streaming, diferentes públicos terão acesso a conteúdos de música gospel e, não necessariamente apenas o próprio segmento. O que quero dizer neste caso é que, se antigamente era bem mais difícil que uma pessoa não-evangélica entrasse numa livraria específica para comprar um disco da Damares, Diante do Trono ou Aline Barros, hoje em dia, esta mesma pessoa pode tranquilamente criar sua playlist de músicas gospel ou mesmo ouvir a nova canção do Preto no Branco por um destes apps de áudio streaming. Ou seja, o acesso tornou-se muito mais democrático, facilitado e é natural que atinja muito mais pessoas (não só no Brasil, mas em escala global!), diferentemente do que vivíamos na época dos CDs e DVDs.

Então, neste momento sigo com a mesma dúvida de tempos atrás. Não estou preocupado se o enorme contingente de evangélicos no Brasil passarão a consumir música pelos apps de áudio streaming, isso já é fato consumado! A questão que me aflige neste momento é quanto tempo as pessoas evangélicas se engajarão de fato nos aplicativos. E neste caso, nos aplicativos e canais corretos, porque quando se fala em consumo de música, o ambiente correto para esta prática são os apps de áudio streaming e não necessariamente o YouTube. Frise-se bem esta informação. Irei até repetir para que não reste a menor dúvida. Se você pretende aprender a desentupir a pia da cozinha, a tirar mancha de molho de tomate da roupa ou mesmo assistir a uma linda mensagem devocional, o ambiente correto para estas questões chama-se YouTube. Agora, se a sua intenção é ouvir música, ter acesso a um catálogo com mais de 40 milhões de músicas, criar suas playlists pessoais, compartilhar canções e estar sempre antenado com as novidades ou mesmo ter acesso à discografia de seu artista favorito em simples navegação, então, o ambiente correto são os aplicativos de áudio streaming, Deezer, Apple Music, Spotify, entre outros. Sem falar nas outras peculiaridades do serviço como ter acesso às canções no modo off line, a própria qualidade de áudio e várias ferramentas específicas.

Para tentar diminuir um pouco mais este delay na inserção do público gospel junto aos apps de streaming, de forma histórica, algumas gravadoras do segmento gospel têm se reunido nas últimas semanas com o objetivo único de criar ações em prol do áudio streaming no meio evangélico nacional. Entre as pautas, a principal é estimular o povo evangélico a aderir o quanto antes às plataformas de áudio streaming e para isto, uma grande campanha com a participação de muitos artistas de destaque no segmento será lançada em breve. Entre as gravadoras deste movimento, a saber: Som Livre, Universal Music, Sony Music, Musile Records, Oni Music, Mess Entretenimento e Central Gospel.

Creio que entre outras razões, este atraso do segmento gospel no tocante aos aplicativos digitais deve-se principalmente ao desconhecimento e interesse de boa parte da classe artística e em maior parte, pela inércia das gravadoras do segmento que imaginaram que o processo de transição seria bem mais lento do que de fato foi … ou seja, neste momento temos que literalmente correr para recuperar o tempo perdido e promover o quanto antes a transição dos hábitos tradicionais de consumo de música para o ambiente digital. Então, finalizo este texto com a frase de um destes amigos que recebi ontem para um papo … “Numa hora vai!”

E que venha o quanto antes!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, palestrante, consultor de gerenciamento de carreira, tricolor, pai de 3 meninos que sempre quiseram ser meninos e casado com uma mulher que sempre quis ser tratada como princesa! Simples assim