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O Enigma da Carreira Artística: Sucesso e Ostracismo

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O que é mais difícil? Começar uma carreira artística partindo do mais absoluto anonimato ou recomeçar uma carreira que já alcançou o sucesso e que por diferentes motivos chegou ao ostracismo total?

Confesso que ao começar a escrever esse texto ainda não tenho uma posição firmada e definitiva para responder a este questionamento. Esta pergunta surgiu, na verdade, durante mais uma espera de embarque em aeroporto. Desta vez, estou embarcando rumo à Curitiba onde pretendo assistir a um grande show do Third Day no Adora Heavens.

Recebi de uma amiga pelo twitter uma pergunta que foi o estopim para o insight de escrever este texto. Por DM ela me perguntou se eu conhecia determinada cantora que havia como back vocal de artistas seculares, depois esta cantora  participou de um grupo de louvor de grande repercussão e depois seguiu em carreira solo. Respondi-a imediatamente de que conhecia aquela cantora e de que esta era extremamente talentosa.Com essa troca de mensagens pela rede social, comecei a analisar o que acontece quando artistas que já tiveram sucesso no passado e hoje literalmente vivem da história, tentam reerguer suas carreiras. Com 22 anos de estrada, obviamente tenho muitas histórias neste sentido. Convivi com muitos artistas que àquela época surfavam no pipeline e, hoje não têm condições nem de molhar seus pés!

A manutenção da carreira na crista da onda, para manter o discurso praiano, é algo extremamente difícil. Nestes dias tive o enorme prazer e privilégio de almoçar com um artista que hoje podemos considerar uma espécie de Kelly Slater da música gospel. Este artista já está há alguns bons anos entre os mais importantes artistas do segmento. O conhecia de inúmeros momentos fortuitos nos backstages de shows e eventos pelo país, mas efetivamente nunca havíamos trocado mais do que 2 ou 3 palavras de cumprimentos formais.

Naquela tarde pudemos conversar bastante sobre os mais variados temas. Confesso que minha intenção naquele almoço era prioritariamente conhecer o ser humano e não o artista, meu objetivo era muito mais estreitar nossos laços do que falar de gravadora, mercado e afins. Mas, como o tema surgiu à mesa, fomos conversando sobre mercado, carreira, concorrência … e eu, incrivelmente estava ali mais ouvindo do que falando. Impressionei-me com a visão clara daquele meu interlocutor, pois no meio artístico é meio raro ver alguém com tanto sucesso pensar tão claramente nos seus objetivos para os próximos anos.

O almoço prosseguiu e continuei apenas respondendo a algumas dúvidas, questionamentos e deixei o meu convidado simplesmente expor todo seu plano de vida. E mais uma vez confesso que impressionei-me com a lucidez daquele artista.

Pano rápido …

Voltando à nossa pergunta inicial. O que será mais difícil? Um novo artista ou um artista em busca de uma segunda chance?

Como antes de começar a escrever este post confidenciei o assunto no twitter antes de embarcar, comecei imediatamente a receber respostas e comentários dos followers. Um dos seguidores afirmou categoricamente que é mais difícil reposicionar um artista que já teve sucesso porque este perdeu sua credibilidade! Mas quem foi que disse que para afastar-se do sucesso o artista necessariamente precisa ter uma ficha corrida?

Sem dúvida, a credibilidade é fundamental para a manutenção de uma carreira de sucesso, mas para deixar de ter sucesso, não necessariamente o artista precisa cometer erros e mais erros morais, de agendas não cumpridas e coisas do gênero!

O motivo principal para que um artista deixe de ser sucesso é basicamente a perda do foco! Quando o artista deixa de analisar criteriosamente cada passo de sua carreira ele está colocando em segundo ou terceiro plano o que é mais importante de sua vida artística!

Pano rápido again

Já retornando ao almoço temos um exemplo claro de um artista de sucesso focado nos objetivos corretos. Aquele cantor me disse que tem como meta dedicar-se a alguns projetos num prazo de 5 anos. Hoje no auge, ele já começa a pensar na estabilização de sua carreira e principalmente de sua vida pessoal. Isso é fundamental!

Vejo tantos artistas que no passado foram grandes, tiveram bens, patrimônios, agendas cheias e que hoje passam por dificuldades, moram de aluguel e se sujeitam a eventos desorganizados só para faturarem um trocadinho para a semana.

Pano rápido rápido rápido…

Estou enfocando muito a situação do artista que já teve sucesso, mas e o jovem artista? Ah! Para esse a dificuldade será enorme, mas eu agora passo a crer que ainda é mais leve do que o reposicionamento de carreira. Então se você tinha dúvida sobre o que seria mais difícil, em minha recém formada opinião opto de que é mais difícil um artista se reposicionar depois de um período de sucesso.

Tenho um amigo que dizia: “quem nunca comeu filé mignon, nunca sentirá falta dele à mesa!”, parafraseando esse “filósofo de pára-choques de caminhão”, posso afirmar que para quem buscou a fama, mas nunca o alcançou será bem mais tranqüilo conviver com o insucesso do que aquele que usufruiu do fausto e das benesses do sucesso e de repente ter que conviver com a perda.

Então vou seguir um pouco mais tratando do artista no ostracismo buscando uma nova chance …

Ao longo de minha vida profissional tive algumas oportunidades de trabalhar com casos como este, de reposicionamento de carreira. Sem qualquer intuito de vangloriar-me posso afirmar que tive casos clássicos de reposicionamento de sucesso ao longo destes anos.

O mais importante no processo de reposicionamento de um artista é trabalhar com extrema transparência! Não dá para iniciar um projeto como este sem deixar claro que aquele artista não é mais o fenômeno de outrora. É importante deixar claro que você como profissional e sua empresa acreditam na capacidade e talento daquele artista, mas que naquele momento ele está literalmente em baixa!

Passado este momento de transparência na relação, passamos à fase de análise dos erros. Esta fase é quase que uma terapia, onde são observados vários aspectos do passado do artista. De base de todas as informações, são diagnosticados os erros que culminaram com o declínio da carreira do artista. A fase seguinte é definir as novas estratégias de ação e estabelecer em comum acordo com o artista as prioridades máximas!

Alguns erros são comuns no universo artístico. A arrogância, a falta de qualidade no atendimento aos contratantes, a falta de postura, o excesso de auto-suficiência, só para citar alguns. Na parte musical, um erro que costuma se repetir também com bastante freqüência é o conceito do “em time que está ganhando não se mexe”, isso é um desastre! Repetir os mesmos compositores, músicos e produtores musicais são exemplos clássicos de falta de ousadia e, em se tratando de arte, isso é a decretação da obsolescência total!

Como disse anteriormente, já tive alguns casos clássicos de reposicionamento de carreira. Em uma destas experiências, recordo-me de um artista que havia sido detonado em sua moral por uma gravadora (sugiro ler o post “Ele é Meu! Ele é Meu! publicado por aqui no blog) pelo simples fato de ter se desligado desta empresa. Contra ele foram criados boatos tão fortes que em todo o Brasil pessoas juravam de pés juntos terem presenciado fatos escabrosos de sua trajetória. Então resolvi encarar o desafio e começamos um grande projeto de retomada daquela carreira. Em pouco mais de um ano, o artista conseguiu vender mais de 200 mil cópias e novamente se recolocou fortemente no mercado.

Até aí, tudo lindo, maravilhoso. O problema é que o artista achou que já estava tranqüilo e de forma extremamente infantil e individualista quis voltar a traçar seu caminho sem ouvir a gravadora e amigos à volta. Para resumir a história, tempos atrás o mesmo artista me procurou pedindo por uma nova chance.

Poderia ainda ficar relembrando fatos e mais fatos similares a este, mas vou poupá-los de minhas memórias. A questão que quero enfatizar é que o artista precisa ser mais racional no trato de sua carreira artística! Procure se cercar de pessoas competentes à sua volta! Trace um planejamento de médio e longo prazo para sua carreira. Estabeleça suas metas e objetivos. Analise criteriosamente tudo o que está sendo feito. Destaque os aspectos positivos e negativos de seu trabalho. Prepare-se para o momento de ajuste de sua carreira porque ninguém consegue manter-se por 20 anos no topo do sucesso!

Pano rapidíssimo …

Mais uma vez voltando ao almoço, como nem sempre tudo é perfeito, ao fim, já na hora de pegarmos nossos carros no estacionamento, perguntei ao artista sobre o seu site e sua relação com as redes sociais. Como aquele bordão do velho humorista: “Estava indo tão bem! Estava prestes a ganhar um 10, mas …” – fui surpreendido com a cândida resposta: “Eu tenho um site, mas vive desatualizado! Não entro nele há um tempão! E você acredita que eu nem tenho twitter ou qualquer outra ferramenta de rede social? ” – meio catatônico respondi: Não, eu não acredito! E segui para meu automóvel! Nem tudo é perfeito!

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, executivo com certa experiência em reposicionar artistas e reorganizar gravadoras, não necessariamente nessa ordem!

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