O mercado da música e a pandemia

Neste momento de quarentena o mercado da música vive no Brasil, tempos de euforia, de crescimento, de descobrimento e ao mesmo tempo de tristeza, prejuízos, incertezas

Alguns grandes fatos que ocorreram ao longo dos séculos marcaram a história e tornaram-se em pontos determinantes de grandes mudanças na sociedade. A invenção da roda, as grandes navegações, a Revolução Industrial, as duas Grandes Guerras mundiais, a chegada do homem à Lua, a globalização tornando o planeta uma grande comunidade e, mais recente, a pandemia gerada pelo COVID-19 originada na China e hoje alastrada em praticamente todo o planeta.

Estes grandes fatos servem não só para marcar a história de nosso planeta, mas também para causar uma grande mudança de cultura e hábitos. É notório que nós seremos diferentes após esta quarentena. Nossa visão de mundo, nossos hábitos cotidianos, a forma de nos relacionarmos com as pessoas e mesmo com nossos trabalhos no dia a dia, tudo será diferente a partir da experiência adquirida durante o confinamento.

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Lidando com música pelo menos nos meus últimos 25 anos, entre meus 30 e poucos anos trabalhando no mercado cristão no país, já tive a oportunidade de passar por várias transformações. Comecei a trabalhar no mercado fonográfico quando ainda lidávamos com LPs e cassetes. Vivi a transição do formato físico tradicional para os inovadores Compact Discs, ou mais conhecidos como CDs e VHS, posteriormente DVDs. Tempos depois vivenciei outra transformação no mercado, essa sim, absolutamente intensa e radical, o fim do formato físico e o início do consumo digital, primeiramente pelo modelo de download (a primeira fase do digital) e neste momento, o Streaming que vem aumentando exponencialmente em termos de consumo de conteúdos e de assinantes das inúmeras plataformas e aplicativos.

Neste momento de quarentena o mercado da música vive no Brasil, tempos de euforia, de crescimento, de descobrimento e ao mesmo tempo de tristeza, prejuízos, incertezas. Vamos primeiro falar de quem está sendo afetado negativamente e que neste momento merece todo tipo de apoio. Com o confinamento, nada mais natural que a indústria de entretenimento com a presença de público seja afetada diretamente. Shows, turnês, festivais em todos os cantos do mundo foram simplesmente cancelados ou suspensos por tempo indeterminado. Com isso, toda uma cadeia de profissionais foi diretamente afetada, a começar pelos próprios artistas e músicos que em muitos dos casos, têm nos shows boa parte de sua receita mensal. Junto a estes, vale elencar produtores, contratantes, seguranças, empresas de transporte, cenógrafos, montadoras, iluminadores, profissionais de som, rede hoteleira, empresas aéreas, roadies, enfim, todo um núcleo de profissionais simplesmente viram seus rendimentos evaporarem do dia para a noite. Com a pandemia, também os compositores viram seus rendimentos diminuírem em função da diminuição das receitas sobre execução pública que neste momento estima-se em 70% de retração no Brasil.

Em contrapartida, após 3 semanas iniciais de queda no volume de consumo de música pelas plataformas digitais no início da quarentena no país, neste momento já estamos bem próximos ao nível de consumo dos tempos pré-pandemia. Ou seja, o Brasil segue como um dos países de maior crescimento no consumo de música digital no mundo, figurando entre os 10 maiores países do planeta e líder na América Latina. O mercado fonográfico no país registra de janeiro a abril deste ano um crescimento acumulado de 43% em receitas, mesmo com as quedas em streams recentes. Além disso, todas as plataformas vêm registrando um significativo aumento no número de assinantes de seus serviços, ou seja, a base de consumidores vem crescendo num ritmo mais veloz do que o normal durante a pandemia.

É sabido que boa parte do consumo de streams se dá no período de trabalho e durante o deslocamento entre a casa e o serviço (algo em média de 3h/dia de consumo de música). E durante a quarentena, por motivos óbvios, este momento de consumo praticamente desapareceu, o que trouxe a queda no consumo nos primeiros dias. No entanto, não só o consumo voltou aos patamares anteriores como também a base de consumidores aumentou vertiginosamente, ou seja, as expectativas de um boom no consumo de música pós-quarentena são reais e apontam para um crescimento do mercado para além de 60% em 2020. Pode parecer algo incrível, mas são dados muitos conservadores neste momento.

Outra mudança que parece que chega para ficar é a melhor relação entre os artistas, marcas, público e as plataformas de vídeo streaming. Do dia para a noite nossa vida foi invadida literalmente por LIVES e mais LIVES, dos mais variados assuntos, artistas, estilos e propósitos. Há dias em que temos uma verdadeira maratona de LIVES acontecendo, muitas de forma simultânea, clamando por nossa audiência. No meu entendimento, a prática dos artistas em produzir LIVES seguirá mesmo com o retorno dos shows ao vivo. Com a chegada de grandes anunciantes a este novo modelo de entretenimento, muitos artistas certamente abrirão suas agendas para a realização das LIVES, em níveis mais elevados de produção. Já imagino o que vem por aí …

Em resumo, entendo que a quarentena está acelerando algumas transformações que já estavam em processo, como na questão da expansão do streaming e o consumo pelos apps digitais e acabou criando outras novas formas e hábitos de se consumir e produzir conteúdos. Quem estiver atento para estas transformações e souber adequar-se às novas demandas, terá um futuro bastante promissor pela frente.

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