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O NOVO PAPEL DA GRAVADORA EM TEMPOS DIGITAIS

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Sou do tipo hiperativo que mesmo em meio a dias de descanso em família, sinto um comichão pra sempre estar em atividade. Qualquer atividade, seja ela desportiva, de lazer puro e simples ou mesmo de cozinhar (Sim! tenho alguns atributos culinários), o importante é estar ocupado com alguma coisa. Muitas vezes minha esposa chega a me alertar antecipadamente de que não quer viajar com um guia turístico tamanho o número de atividades que eu tento encaixar no roteiro da família. Mas a verdade é que não consigo ficar calmamente deitado numa rede em meio a uma manhã de sol e brisa constante na beira da piscina em uma cidade maravilhosa como Búzios, na Região dos Lagos fluminense. Então, faço tudo isso, neste cenário deslumbrante, esparramado na rede com minha família por perto e munido do computador onde neste momento começo a escrever mais um texto para o meu espaço virtual.

Durante estes dias de tentativa de descanso escrevi muitos textos, li algumas revistas e segui na leitura de meu livro sobre a vida do último Czar da Rússia, um calhamaço de mais de 500 páginas. E em meio a tantos insights um assunto me salta à lembrança a ponto de praticamente ser obrigado a escrever sobre o assunto. Boa parte dos textos publicados são fruto do meu dia a dia como executivo de uma gravadora multinacional. Além de cuidar dos projetos da gravadora, minha rotina diária está baseada no contato com pessoas, das mais diferentes formas e canais, onde cada vez mais o whatsapp assume a posição de principal veículo de comunicação. É impressionante como o telefone vem perdendo sistematicamente sua importância e até mesmo se tornando enfadonho e aborrecido! Muitas vezes opto em falar com as pessoas pela troca de mensagens em vez do telefone pela simples vontade de manter uma comunicação direta e resumida. Pode parecer antipático, frio, distante … e entendo que muitas das vezes o resultado é esse mesmo, mas convenhamos também que desta forma nosso dia rende muito mais!

Mas o tema de nosso post de hoje não é sobre comunicação. Apenas usei o texto introdutório acima para exemplificar que muitas das vezes um determinado assunto que se torna corriqueiro em meu dia a dia acaba tornando-se tema para este blog. Constantemente venho falando das transformações do mercado fonográfico. Se você está entre os 69 leitores deste blog, certamente já percebeu que este tema é recorrente desde o início deste espaço há mais de 9 anos atrás. Em papos internos com minha equipe tenho buscado demonstrar o quanto precisamos estar atentos a este novo momento da indústria e de como precisamos nos adequar às novas demandas que se apresentam à nossa frente. E entre os novos desafios que uma gravadora se impõe neste momento está o de ser efetivamente necessária aos artistas e ao próprio mercado. Acredito que se os profissionais de gravadoras não observarem com mais profundidade a razão de ser de suas empresas e atividades, estes correm o sério risco de ver seus empreendimentos sucumbirem do dia para a noite.

A própria transformação do mercado em função da transição do formato físico para o digital já promoveu uma mudança sensível no mercado de gravadoras. Vamos focar a lupa especialmente para o segmento gospel. Nos idos dos anos 90 tínhamos cerca de 30 gravadoras e pequenos selos atuando no que chamamos de mercado gospel. Isso se contarmos aquelas gravadoras que tinham alguma relevância nacional, porque se formos incluir alguns selos regionais certamente este número triplicará facilmente. Pois bem, com as crises econômicas que o país passou, a pirataria de CDs e DVDs, a entrada das gravadoras seculares no mercado e por fim, a queda nas vendas de produtos físicos e o crescimento irreversível do mercado digital, a quantidade de gravadoras atuando no mercado gospel tupiniquim foi reduzida para não mais do que 10 empresas verdadeiramente relevantes e atuantes. Confesso que estou sendo bastante bondoso com este número porque, de verdade, não considero mais do que 5 empresas no mercado gospel fazendo algo realmente interessante neste momento.

Então temos aqui um contrassenso, afinal se o mercado consumidor de conteúdo gospel segue crescente, se o ambiente digital proporciona o consumo de conteúdo de forma mais democrática, em escalas muito superiores ao proporcionado pelas vendas físicas, então por que o número de gravadoras do segmento segue em queda galopante? Muito simples. A esmagadora maioria das empresas do setor não se preparou adequadamente para este momento de transição. Isto quer dizer que numa época em que as mudanças ocorrem em ritmo intenso, em que os consumidores estão ávidos por novidades, as empresas não podem ser reativas, lentas e ultrapassadas. E foi isto o que vivenciamos (e ainda observamos) em muitas empresas deste segmento.
Infelizmente muitas das gravadoras do mercado gospel estão atreladas a denominações, ministérios, igrejas e isto acabou trazendo grandes prejuízos para a adequação destas empresas no novo formato da indústria. Sabemos que a direção de empresas ligadas a igrejas, em sua imensa maioria, é constituída por pastores, bispos e afins, ou então a apadrinhados da própria instituição, o que na maioria das vezes não configura em capacidade técnica e profissional para a gestão administrativa. Com isso, vemos que estas empresas que teoricamente teriam enormes chances de resultar em sucesso, na realidade tornam-se em fracassos redundantes e prejuízos gigantescos.

Neste novo momento da indústria fonográfica as gravadoras (que se levam a sério e agem de forma profissional) assumem um novo papel na relação com o mercado, consumidor e os próprios artistas. Em primeiro lugar, as gravadoras passam a ter novos players concorrentes: as empresas agregadoras de conteúdo e distribuição digital. Para aqueles que ainda não estão tão ambientados ao universo digital, há no mercado empresas que fazem a intermediação entre as plataformas digitais e os artistas/conteúdos. De uma forma simplista, estas empresas são os ‘despachantes’ que facilitam o acesso de artistas e produtores de conteúdo às grandes plataformas digitais como iTunes, Spotify, Deezer, YouTube, Vevo, AppleMusic e operadoras de telefonia, entre outras. Estas empresas apenas entregam o conteúdo, na imensa maioria dos casos, não fazem nada muito além de servir como atalhos entre as partes e por isso mesmo, possuem condições de remuneração bastante agressivas se comparado ao praticado pelas gravadoras.

Outra mudança considerável nesta atual fase tem a ver com a participação dos artistas em todo o processo. Se em tempos atrás o artista estava focado tão somente na produção musical, deixando que a gravadora e os escritórios de management cuidassem de todo o resto, hoje em dia as coisas mudaram e, mudaram bastante! O artista deixa de ser espectador para ser co-participante dos processos e principalmente dos investimentos. A esmagadora maioria das gravadoras migrou do modelo de contrato artístico para o contrato de distribuição ou licenciamento, onde os custos de produção dos álbuns e conteúdos em vídeo passam a ser de responsabilidade do próprio artista que assim detém a posse dos fonogramas de áudio e vídeo. Neste momento há uma nova relação entre artistas e gravadoras que inclui diversas contrapartidas, como por exemplo a cessão de datas de shows/ano por parte do artista à gravadora. Esta é uma alteração irreversível até porque as gravadoras estão cada vez mais inseridas e focadas na área de Live, ou seja, na produção e venda de shows.

E aí, você atento e perspicaz leitor do Observatório Cristão deve se questionar então porque um artista hoje em dia precisaria estar no cast de uma gravadora?

Pois bem, tentarei responder a este questionamento nas linhas a seguir. Em primeiro lugar, como já comentei mais acima, as empresas agregadoras oferecem o serviço básico de colocação de conteúdo nas plataformas digitais, nada muito além disso. Então, sinto dizer que se você optar em colocar sua música em meio a outras 30, 35 milhões de músicas numa plataforma qualquer, as chances de sua canção virar um hit é mais ou menos a mesma proporção de com um único bilhete e 6 dezenas, tornar-se o ganhador sozinho da Megasena. Tipo isso … vale tentar?
Então, o primeiro ponto a favor das gravadoras consiste na forma com que o conteúdo/artista é tratado. Cada vez mais as gravadoras terão estrutura de marketing digital para que seus projetos e lançamentos se destaquem em meio à multidão de outros conteúdos nas plataformas digitais. Cada lançamento, seja em áudio ou vídeo passa a ser tratado como produtos que merecem estratégias próprias, planejamentos exclusivos e destaque. Vale ressaltar que as próprias plataformas digitais priorizam a relação com as principais players do mercado. Ou seja, pequenos selos ou gravadoras e mesmo os agregadores não têm a mesma atenção recebida pelas majors, as principais gravadoras do mainstream. Neste caso o networking vale muito e faz uma tremenda diferença nos resultados finais.

A relação entre as grandes gravadoras e as plataformas digitais é mais um ativo importante em prol das companhias de música.

Trazendo um exemplo bem prático e que estou vivenciando neste atual cenário: antigamente (ano passado, pra falar a verdade!) meu Release Schedule, também conhecida como planilha de lançamentos, baseava-se em meses, ou seja, no mês de maio eu planejava ter 3 a 4 lançamentos, em junho outros lançamentos e assim seguia mês a mês. Hoje em dia, meu Release Schedule deixou de ser mensal para tornar-se diário e muitas das vezes temos 3 a 4 lançamentos diferentes num mesmo dia. Esta é a nova realidade da indústria fonográfica em tempos digitais! E com base neste planejamento temos condições de estabelecer toda a campanha de lançamento com diversas ações e estratégias e conseguir junto às plataformas o maior destaque para nossos artistas e seus respectivos projetos. Hoje em dia, a presença de um projeto na Home de determinada plataforma garante resultados 30 a 40% mais consistentes.

Outro diferencial nos serviços oferecidos pelas gravadoras tem a ver com o acesso às informações e novidades. Já comentei mais acima que um dos motivos da queda das gravadoras do segmento gospel teve a ver com a lentidão em entender as tendências e rumos do mercado no momento de transição. Pois bem, as grandes empresas da indústria fonográfica sempre têm e terão acesso privilegiado a informações, serão os parceiros preferenciais das plataformas estabelecidas e de todas a que porventura venham a surgir, além do que estas mesmas gravadoras, boa parte multinacionais, também têm profissionais extremamente capacitados e atualizados, o que certamente já é um diferencial gigantesco perante a concorrência.

Recordo-me que já no primeiro contato que tive com a companhia em que atuo nos últimos 7 anos, a palavra ‘digital’ naturalmente fazia parte do cotidiano de toda a equipe. Mesmo à época, a área digital que basicamente estava somente vinculada às operadoras de telefonia e a alguns agregadores de SMS e afins, toda a empresa já começava a se organizar para o momento de desembarque de grandes parceiros digitais. Acompanhávamos as notícias, experiências e resultados de nossas filiais no exterior onde o iTunes já marcava presença transformando o mercado local. No dia em que o iTunes passou a operar no Brasil, todo nosso catálogo gospel já estava automaticamente disponível para os consumidores no país. Em contrapartida, algumas gravadoras ditas ‘gigantes’ no mercado gospel demoraram mais de 3 anos até entrar nas plataformas digitais, algumas inclusive só vieram a estrear no iTunes quando os serviços de download já sofriam com a queda vertiginosa de suas atividades.

No caso de algumas majors outro diferencial tem a ver com o canal exclusivo de vídeos que cada artista automaticamente passa a ter. Estou falando do canal de vídeos do artista na plataforma VEVO, que é uma área premium de conteúdo de música em vídeo em oposição ao YouTube, que cada vez mais passa a ser um espaço de conteúdo diversificado não-musical. Por se tratar de um espaço exclusivo, a audiência fica mais qualificada, atraindo mais publicidade e consequentemente a monetização se torna melhor comparada à plataforma tradicional de vídeos. As gravadoras com conteúdo na VEVO têm acesso direto à plataforma e com isso, também conseguem mais destaque para os seus produtos e lançamentos. Em tempo: a palavra ‘destaque’ será amplamente utilizada pelos profissionais do mercado fonográfico, assim como relevância, CPM, entre outras palavras. Acostumem-se a estes novos termos e significados.

Acho que estou alongando-me bastante neste post, mas a realidade é que temos tantos aspectos para destacar neste assunto que mesmo com minha turma me intimando a desligar o computador e curtir uma piscina, vou prosseguindo refastelado na rede teclando este texto. Mas prometo a vocês 69 leitores que em uma próxima oportunidade tentarei seguir com mais algumas informações neste tema em posteriores posts. Finalizo o texto de hoje apenas destacando um último diferencial ou um ativo importante na relação gravadora e artistas em tempos digitais. E este ativo tem a ver com o conceito de transparência. Sim! E por mais óbvio, inerente e natural que esta questão esteja intrínseca à relação entre partes de um negócio, especialmente no meio gospel, este aspecto torna-se um ativo e tanto. Acho que comentei aqui mesmo no blog que meses atrás tive acesso ao contrato artístico de uma cantora e que (pasmem!) esta não recebia um único centavo proveniente das receitas digitais. Vou repetir: a artista, em contrato, abria mão de receber todo e qualquer valor proveniente de receitas digitais ou afins, ou seja, a ‘pobre coitada’ recebia apenas sobre as vendas advindas de CDs e DVDs. Por mais que o contrato tivesse sido redigido no século passado, não significa que seja pétreo, imutável, não adaptável a novas situações.

Empresas grandes, principalmente multinacionais, são auditadas periodicamente. Possuem sistemas completos de gerenciamento de dados, permitem acesso a relatórios, informações, detalhamentos, ou seja, são empresas transparentes e como tais, dão às partes envolvidas a tranquilidade no processo como um todo. Os artistas precisam levar este fato em maior consideração a partir de agora porque as receitas passarão (na verdade, já estão assim!) a vir em muitas linhas diferentes e não mais apenas pela venda física de CDs e DVDs. Com isso, o acesso a relatórios e sua posterior e constante análise das informações passa a ser algo fundamental, tanto para as gravadoras como para os artistas. Se uma empresa não tem um sistema organizado de dados, não permite o acesso transparente e atualizado aos envolvidos ou simplesmente sonega informações, deve-se ligar o sinal de alerta em nível máximo. Infelizmente sei de empresas no meio gospel em que a sonegação de informações é prática constante, usual e formal.

Um outro aspecto (sim! eu disse que seria o último, mas me permita apenas mais um pouco antes da pausa em definitivo!) que merece atenção e que será ou já está sendo prioridade entre as grandes gravadoras: a diversificação de receitas. Ou seja, como mencionei a pouco, as fontes de receita para gravadoras e artistas deixam de ser unicamente sobre a venda de CDs e DVDs e passam a ser muito mais diversificadas. E entre tantas opções quero ater-me a apenas mais 2 oportunidades. O Live e o Merchandising. Chamamos de Live todas as atividades relacionadas à realização de eventos, sejam eles a venda de shows (booking), a organização e produção de shows (management), festivais, congressos e afins. Esta é uma área que as gravadoras estão muito focadas no momento e em alguns casos, chega a ser 50% da receita anual da empresa. Já o Merchandising é a atividade em que a gravadora atua junto ao mercado para a criação de projetos especiais relacionados ao artista e/ou sua obra. Esta é uma área ampla de negócios e onde a criatividade é livre! Podemos ter ações de merchandising nos moldes tradicionais do uso da imagem do artista para a confecção de produtos – cadernos, moleskines, brinquedos, games, confecção, pins – ou atividades mais recentes como curadoria, presença em eventos, postagem em redes sociais, entre outras. Nestes casos, a gravadora atua como escritório de oportunidades e negócios aos artistas otimizando ao máximo as possibilidades de novas receitas a seu cast.

Meu caçula já veio reclamar por minha presença na piscina … é melhor eu obedecer porque tenho juízo! Quero apenas deixar registrado que não escrevi este texto como uma intenção não declarada de propagandear as benesses de um artista fazer parte de uma gravadora. Nem de auto-promover a empresa da qual faço parte. Não mesmo! Apenas me sinto no direito e até no dever de esclarecer aos artistas e profissionais do meio gospel sobre o que há de novo neste momento de tantas transições. Infelizmente nesta fase, com tantas incertezas e desconhecimento da realidade dos fatos, me deparo com muitas pessoas literalmente contando estórias e com isso iludindo pessoas de boa fé e inocência. O momento é de busca pela informação. Duvide dos ‘vendedores de atalhos’, dos experts em facilidades, dos vendedores de ilusões como escrevi há alguns anos aqui no blog. Tampouco se iludam com percentuais e condições que num primeiro momento pareçam interessantes. Analise do ponto de vista da contrapartida, ou seja, o que efetivamente o parceiro te oferece de serviços e benefícios em troca. Outro importante ponto para ser analisado tem a ver com os resultados. E este eu considero o mais importante de todos! Analise o posicionamento dos artistas do ponto de vista digital naquela determinada empresa, seus resultados, sua relevância. Em outras palavras, veja criteriosamente se os artistas que estão vinculados àquela gravadora ou empresa realmente estão se destacando entre os demais. Se possível, até converse com estes artistas e ouça deles suas próprias experiências. Não me canso de lembrar que uma determinada artista ligada a uma gravadora do meio gospel elencando as benesses de estar naquele cast. A dita cuja enchia a boca para falar que sua gravadora bancava a academia de ginástica, salão de cabelereiro e até algumas roupinhas. Sinceramente acho que deve-se esperar outro tipo de benefícios de uma gravadora séria e profissional, certo?

Espero que tenha contribuído de alguma forma neste momento e caso tenha alguma dúvida sobre este assunto, que tal deixar sua pergunta em nossa área de comentários. Terei imenso prazer em respondê-lo de forma exclusiva.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, entusiasta do mercado gospel e que descobriu aos 47 anos o prazer de se espreguiçar numa rede e ficar ali pensando na vida e escrevendo suas ideias, muito bom!