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Observando corretamente os detalhes pra não errar a mão!

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No último texto publicado comentei a respeito da profunda escassez de insights para a produção de novos textos para o nosso blog. Eis que em menos de 24 horas consegui produzir dois posts inéditos que tentam assim, minimizar os danos causados pela falta de novidades no blog. Espero com isso recuperar a atenção dos meus distintos 66 leitores assíduos deste espaço que insisto em manter nos últimos 8 anos. Imagino que os bons ares cearenses estejam contribuindo para esse momento criativo. Se realmente for este o motivo, aceito convites para temporadas maiores por esta região tão linda de nosso país. Especialmente na alta temporada do verão!

Mas o que é fato e não posso deixar de registrar é que boa parte dos meus textos são fruto de momentos de conversas descompromissadas onde às vezes uma única frase acaba sendo o estopim para um tema do blog. E foi numa destas conversas de fim de noite diante de uma peixada cearense que surgiu o tema deste novo post. A conversa desta noite abordava entre outras coisas, a respeito de algumas atitudes não-convencionais de algumas pessoas de nosso meio. Falamos sobre um determinado pastor que fugia ao estereótipo padrão do terno e gravata, que seu discurso era recheado de citações do dia a dia, que se vestia de forma bastante informal, moderno e que vez ou outra criava alguma situação diferente pra chamar a atenção de reuniões e cultos especiais. Todos concordamos, até por conhecer a boa índole e caráter deste pastor e, principalmente os frutos de seu ministério, que para se pregar o Evangelho hoje em dia, em meio a tanta ‘concorrência’ do mundo, se fazia necessário criar um diferencial, algo que realmente criasse a curiosidade por parte dos incautos e a partir daí estes terem contato com a verdade da Palavra.

Depois surgiu sobre este mesmo assunto, falando de inovação, modernidade e ousadia, o fato de um determinado artista que vem de tempos em tempos apresentando algumas novidades consideradas um tanto ousadas, mesmo para alguns com mente bem aberta. E é a partir deste fato é que quero seguir pelas próximas linhas e espero poder contar com sua especial atenção pelos próximos minutos. Mas antes de falar deste artista em específico, quero voltar no tempo, mas especificamente para uns 12 anos atrás. Por volta do ano de 2003 a música gospel assumiu um papel de destaque na sociedade brasileira como jamais havia alcançado antes. Naquele momento, a ABPD, associação que reúne as principais gravadoras seculares do país, apontava em sua recente pesquisa que a música religiosa tinha importante papel nas vendas de discos naquele momento. O estilo “música religiosa” correspondia ao segundo segmento de maior vendagem no país, ficando atrás apenas da música sertaneja e muito à frente do samba/pagode, pop rock, funk e outras manifestações artísticas. Então nada mais do que normal, que esta pesquisa alertasse às majors, principais gravadoras do mercado nacional sobre a importância de entender e se possível trabalhar com este segmento.

A partir de então, as grandes gravadoras passaram a buscar uma maior aproximação com a música evangélica no Brasil. Lembro-me de algumas reuniões entre estas grandes empresas e gravadoras gospel, alguns contatos diretos com artistas, algumas tentativas de parceria, ou seja, o mercado secular entendia a importância do mercado gospel e queria de alguma maneira caminhar junto. Nesta época alguns ‘despachantes de ilusões’ venderam para estas grandes corporações a ideia de que o mercado gospel era amador e que com pouco suor poderiam assumir o controle deste enorme mercado consumidor. Como era de se esperar, 10 entre 10 projetos apresentados não conseguiram sequer causar algum impacto no meio gospel. Todas as tentativas foram frustradas e frustrantes …

Passaram-se mais alguns anos e uma grande gravadora nacional contratou um artista de ponta do meio gospel. Mas o projeto que tinha tudo para ser uma goleada, acabou ficando no um a zero magrinho, sem empolgar muito a torcida. Eles imaginaram que somente tendo um grande artista seria suficiente para conquistar o mercado. Ledo engano. Somente depois, em 2010 uma gravadora multinacional resolveu não somente fazer uma aproximação, mas como eu gosto muito de dizer, engravidar do projeto gospel e implantou uma área exclusiva para este segmento, contando com profissionais evangélicos que entendessem da linguagem, da cultura, do ambiente gospel tupiniquim. E em pouco mais de 2 anos, esta empresa passou a colher os resultados super positivos desta empreitada, superando em muito as expectativas mais otimistas na implantação do projeto.

O mercado gospel, assim como o mercado católico, possui símbolos, conceitos, linguagens muito peculiares e para se ter sucesso nestas áreas é fundamental que tenhamos profundo entendimento desta cultura toda própria. Voltando ao artista que acredita que ele pode mudar toda uma cultura só porque em determinado sua estratégia deu certo no passado, a possibilidade dele pôr tudo a perder por uma falha de entendimento é real e, arrisco a dizer, inevitável. O mercado evangélico brasileiro é um caldo de diferentes sub culturas que vivem num ambiente muito característico, eu diria que até bem esquizofrênico, onde as interpretações de um mesmo assunto assumem resultados improváveis dependendo do receptor da mensagem. E é fundamental que os artistas entendam estas peculiaridades, buscando manter um senso comum, especialmente um conceito bíblico mais conservador, sem muitas novas teologias ou inovações.

Em tempos de redes sociais muitas das vezes caímos no risco de exagerar na audácia de uma postagem ou na inocência por compartilhar sobre fatos que não deveríamos fazer ao grande público. Lembro-me que quando eu estava na fase mais hardcore do twitter e surgiu a notícia de que o ex-goleiro do Flamengo, Bruno, havia supostamente assassinado a Elisa Samudio, fiz algum tipo de piada sobre o assunto que hoje nem me recordo mais o que seria. Passados alguns segundos uma pessoa que nunca havia visto no mundo real questionou minha brincadeira como formador de opinião e principalmente como cristão. Na hora respondi alguma coisa meio atravessada ao rapaz, bloqueei-o e segui minha vidinha. Tempos depois vi que realmente eu havia errado naquela piada de mau gosto e que eu deveria ter muito mais cuidado com meus comentários. Quando lidamos com o mercado cristão, não podemos simplesmente achar que todo discurso pode ser transmitido e pronto! Não! Pelo contrário! Há uma série de questionamentos que devemos fazer antes de assumirmos algumas posições ou tomarmos determinadas atitudes porque corremos o risco de ir de encontro com culturas muito próprias. Engana-se quem ao ler estes meus comentários imagina que eu esteja incentivando que as pessoas não tenham opiniões ou que sigam na correnteza, seguindo ao lado de todos. Não é isto o que estou dizendo aqui, mas quero fazer um alerta especial para os artistas e profissionais do meio de que devemos sempre avaliar nossas atitudes, estratégias e principalmente comunicação.

Sou um profissional de marketing e nos últimos anos venho trabalhando de forma mais intensa o trabalho de consultor. A esmagadora maioria de trabalhos que desenvolvi nestes últimos anos foi justamente tentar decifrar para empresas, profissionais e artistas os segredos e linguagens do mercado gospel nacional. É impressionante o nível de ignorância que estas grandes empresas possuem a respeito do meio evangélico nacional, de sua cultura, de seus conceitos, símbolos, linguagem. Particularmente creio que abre-se neste momento um importante ramo de consultoria e coaching para esta área no Brasil e é importante que todos estejamos muito atentos e cientes da importância de se conhecer melhor os hábitos, pensamentos, tendências e expectativas deste segmento. Se você é artista, mesmo que tenha sido ‘nascido e criado’ na igreja, é importante que tenha em mente a importância de se manter atualizado e atento para estes detalhes.

Enjoy!

 

Mauricio Soares, torcedor do tricolor das Laranjeiras, fã de suco de graviola e castanha de caju, jornalista, diretor artístico, observador do meio gospel há pouco mais de 25 anos.

  • http://www.twitter.com/alex_eduardo Alex Eduardo

    Com certeza o trabalho de consultor está em alta, e quem sai na empresa são empresas sérias que entendem do segmento. No meu caso, fui procurado por uma produtora que traria uma banda cristã, e contrataram a agência que trabalho porque temos conhecimento com o mercado cristão. E isso foi crucial para a escolha da produtora.

    Sobre pensar 2 3 4 5 vezes antes de sair postando, é um trabalho diário que devemos fazer. Muito bom o post!

  • TheKid

    Não sei… mas eu ouvi falar que só pode dar consultoria que tem cabelo branco ou no mínimo usa “Grecin tons de grisalho” haha