Observando o despertar de um boato ou não repita fatos, apure-os e crie sua opinião.

Foto: Flickr da Banda Catedral. Todos os direitos reservados a Banda Catedral [ O F I C I A L ]. www.bandacatedral.com.br

Diz o ditado popular de que uma mentira repetida várias e várias vezes acaba se tornando uma verdade, ou no mínimo uma meia-verdade, ou então num boato … e você sabe né? no fundo, no fundo, todo boato tem um fundo de verdade! Isso me remete a lembranças e casos muito interessantes. O primeiro que me vem à mente aconteceu durante minha passagem pela Line Records, lá pelos idos de 2003, 2004, minha senilidade precoce não contribui para que a informação seja 100% confirmada, mas foi mais ou menos nesta época.

Havíamos acabado de contratar a Banda Catedral e na seqüência programamos uma coletiva de imprensa em São Paulo. O Catedral foi um dos maiores ícones da música gospel no finzinho da década de 80 e que verdadeiramente explodiu como fenômeno de massa por volta dos anos 90. Após muito sucesso e uma bem sucedida carreira numa gravadora gospel, o quarteto optou por seguir uma trajetória inédita de ingressar numa multinacional secular ampliando significativamente suas possibilidades de trabalho. Aquela mudança de foco gerou uma série de comentários no meio gospel e entre apoios e discordâncias, surgiu um boato de que o grupo Catedral havia sido entrevistado no programa do Jô Soares. Entre riquíssimos detalhes da referida entrevista, ouvia à época muitas pessoas comentando, numa credibilidade impressionante, que o grupo havia inclusive negado a Jesus por 3 vezes e o apresentador, inclusive chamava atenção com seu humor mordaz para esse fato provocando uma saia justa daquelas!

Para os mais jovens, vale ressaltar que a popularidade da Banda Catedral no cenário do pop rock gospel jamais foi preenchida ou superada por qualquer outra banda que veio na esteira do sucesso dos quatro jovens da Baixada Fluminense com suas letras inteligentes, uma sonoridade que remetia ao Legião Urbana e uma postura roqueira bem diferente do padrão quadradinho e politicamente reinante naquela época em termos de música gospel. Então, a saída da Banda do cast de uma gravadora gospel para uma empresa multinacional gerou um verdadeiro rebuliço no meio evangélico naquela época e esta informação sobre a ‘ida do Catedral ao Jô Soares’ reverberou de uma forma impressionante nos quatro cantos do país.

Voltando ao boato da ida ao programa de TV, me recordo que o presidente da Line Records em visita à sua terra natal, Teófilo Otoni, cidade do interior de Minas Gerais, comentou com seus parentes e amigos sobre a contratação do Catedral, quando foi surpreendido pelos comentários das pessoas sobre a fatídica entrevista no programa de TV. Muito surpreso e porque não dizer apreensivo, ele insistia aos seus interlocutores se eles haviam escutado sobre o fato ou mesmo assistido ao programa. No início, num misto de empolgação e dúvida, seus amigos diziam que haviam assistido, mas minutos depois diziam apenas que conheciam um amigo do amigo que havia assistido ao programa. Dúvida reinante!

Na época da contratação da Banda me lembro de ter comentado com Kim sobre esse fato. Ele me confidenciou que o boato era fortíssimo e em todos os shows que faziam pelo país sempre aparecia alguém perguntando sobre essa entrevista. Então tive um insight de usar esse fato como um factóide para convidar a imprensa para a coletiva. No convite do evento eu oferecia uma recompensa em dinheiro, algo como uns 50 mil reais hoje, para quem trouxesse uma cópia do programa em vídeo. A repercussão foi enorme e esse fato suscitou perguntas muito elucidativas na coletiva. Daí em diante, creio que o boato acabou caindo no anedotário popular e tornou-se um exemplo claro de como uma informação maldosamente inventada pode ter resultados trágicos!

Pra resumir a história, a Banda Catedral lançou naquele momento o projeto “Acima do nível do mar” com mais de 200 mil CDs vendidos e cerca de 100 mil DVDs. A agenda de shows voltou a ficar intensa e a banda retornou ao cenário gospel, inclusive abocanhando muitos e muitos prêmios à época.

Na verdade, esta mega e longa introdução tem como objetivo principal comentar sobre uma situação que vejo se repetir constantemente nas mídias, sejam evangélicas ou seculares, a saber: o mercado fonográfico está no fim! É impressionante como o approach da mídia quando se refere à indústria fonográfica sempre tem um clima funesto como se o caixão estivesse prestes a descer os sete palmos da cova. Sempre os comentários apontam que o mercado fonográfico é um paciente terminal atingido pelo câncer da pirataria ou que a internet chegou para acabar com o CD físico e por aí vai num clima de UTI de hospital público. Uma desgraceira só!

É óbvio que o mercado fonográfico sofreu uma mudança consistente nos últimos 10 anos. No entanto, a mudança não determina a morte de uma indústria e sim, a mudança de paradigmas! Se há tempos atrás no Brasil tínhamos cerca de 3 mil pontos de vendas de CDs, hoje temos nada mais nada menos do que 200 milhões de aparelhos de celular. Ou ainda, se no passado a interação do consumidor se dava através de aparelhos 3 em 1 ou naqueles aparelhos de walkman, hoje essa experiência se dá através dos computadores pessoais, novamente pelos celulares, pelos canais de TV e uma série de outras traquitanas tecnológicas!

Foi noticiado dias atrás que a jovem cantora Paula Fernandes superou 1 milhão de cópias vendidas. A cantora Adele, considerada uma das maiores revelações da música pop internacional tem um de seus vídeos assistidos por mais de 150 milhões de pessoas em todo o mundo. No âmbito da música gospel, estamos prestes a confirmar a venda de 300 mil CDs da cantora Damares, isso em menos de um ano de lançamento de seu trabalho. Outro dado que impressiona é a enorme e meteórica venda de ingressos para o Rock in Rio, hoje oferecidos no mercado ‘negro’ por 500% acima do valor original. Em suma, vale a pena deixar claro e, creio que isso é um papel que a imprensa deve assumir e entender, que a indústria fonográfica vive um momento novo, diferente do passado, mas não menos expressivo e importante. Acho importante deixarmos isso bastante claro até para que não sejamos meros repetidores de uma notícia erroneamente apresentada.

Aos nossos 42 leitores (sim! cabei de reconhecer o amigo Paulo Alberto, vulgo P.A. como o 42º membro da elite de leitores do blog) espero que toda vez que alguma pessoa venha com comentários de que o mercado de música está em fase terminal, vocês lembrem-se desse texto e rechacem o início de uma onda de boataria.

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Mauricio Soares, blogueiro, tuiteiro, jornalista, publicitário, peladeiro de fim de semana e amante da verdadeira notícia.

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