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Observando o Mercado Gospel e a Feira de Istambul

Algumas vezes me perguntam sobre como faço para escolher os temas que escrevo no blog ou mesmo nas colunas que mantenho em algumas revistas. Geralmente os temas surgem de observações do dia a dia. Procuro sempre ter um olhar crítico e analítico sobre tudo que me ronda. É quase uma paranoia, uma coisa meio psicótica talvez, mas o certo é que a partir de um determinado ponto de minha vida, passei a questionar mais a respeito das coisas. É interessante que analisando minha infância e até mesmo o início de minha adolescência esta não era uma de minhas características mais marcantes, talvez até fosse o oposto disso, numa postura mais intimista, fechada, recolhida.

Mas eis que num determinado momento de minha adolescência, justamente quando adquiri e desenvolvi o hábito da leitura, essa nova postura surgiu e venho convivendo com ela em fases mais ou menos intensas. E justamente em função desse exercício de questionar o que está à minha volta é que por alguns dias venho sendo estimulado a escrever sobre um tema que nos últimos dias aproveitei para conversar com algumas pessoas e colher também suas impressões.

Certamente, “O mercado gospel no Brasil” é uma das expressões que mais falei, ouvi e li nos últimos anos. É impressionante como certos jargões são absorvidos pelo nosso linguajar e são repetidos exaustivamente sem que realmente façamos uma análise mais clara do seu real significado.

 

E o que é o “mercado gospel no Brasil?

 

Rapidamente alguém pode responder que o mercado gospel no Brasil é o conjunto de consumidores evangélicos. Ou ainda, a reunião de livreiros evangélicos, gravadoras, editoras, fornecedores especializados. Não podemos esquecer dos artistas, autores, palestrantes, formadores de opinião. Outros dirão que as mídias como rádios, sites, revistas do segmento também representam esse mercado. Em rápidas palavras, o mercado gospel no Brasil pode ser considerado a soma de todos estes atores mencionados, ou seja, fornecedores, indústria, mídias, canais de distribuição, entre outros, cada qual desempenhando seu papel nesse picadeiro mercadológico.

 

Na minha modesta concepção, algo para ser rotulado de mercado deve ser no mínimo, consistente, formatado, ter regras claras, ser realmente algo consistente. Sinto afirmar e até mesmo decepcionar alguns dos 44 leitores assíduos do Observatório Cristão que, do meu ponto de vista, estamos muito longe de ter um mercado gospel no Brasil de acordo com este conceito.

 

Tentando analisar cada um destes participantes do que chamamos de mercado gospel começo observando os livreiros evangélicos em atividade no país. Qual é o perfil do lojista médio no nosso Brasil? Qual é na realidade o tamanho deste mercado distribuidor? Onde estão? Quem são? Simplesmente não há um único profissional do meio que possa responder categoricamente a cada uma destas indagações! E afirmo isso porque não há um único cadastro atualizado de livrarias e pontos de venda. Os números são ”evangelásticos” na proporção de 300 a 30.000. Não! Não me confundi e nem usei de nenhuma hipérbole! É exatamente essa a distorção! O número de lojas e pontos de distribuição no universo gospel varia de 300 a 30.000. Estes números já foram ditos a mim em conversas com diferentes profissionais. Em algumas ocasiões perguntei a pessoas do meio sobre qual universo de clientes trabalhavam e ouvi que estas empresas trabalhavam numa base de 300, outras de 1,5 mil (a maioria) e até mesmo 30.000 cadastros.

 

E por que esta distorção tão absurda? Simplesmente porque NUNCA, eu digo, NUNCA houve uma pesquisa nacional para catalogar estas lojas. Jamais foi realizada uma pesquisa para conhecer e definir o perfil destes empreendedores. O que vemos na realidade são empresas trabalhando de forma independente tentando a todo custo (elevadíssimo em grande parte!) manter contato com os canais de distribuição.

 

Deixando de lado as lojas especializadas, passemos a analisar o universo consumidor. Entenda-se como “consumidor evangélico” aquela pessoa que frequenta os cultos das milhares de igrejas e denominações espalhadas pelo país. Podemos incluir também neste nicho, os simpatizantes do evangelho, muitos dos quais, membros de igrejas católicas. Quem é o evangélico brasileiro? Quantos somos verdadeiramente? Podemos confiar nas notícias de que já há 50 milhões de brasileiros evangélicos? Outras fontes apontam para 25, 30, 40 milhões de evangélicos. Ou seja, a distorção pode chegar a mais de 100%, algo absolutamente inaceitável! Que o segmento vem crescendo exponencialmente nos últimos anos é fato. Isso é notório, sensível, perceptível, mas alguém pode garantir um número seguro de evangélicos no Brasil? A resposta é simples: NÃO! Ninguém pode cravar certeiramente quantos brasileiros cerram fileiras no segmento gospel e mais uma vez por um motivo simples: a ausência de dados estatísticos confiáveis! Não há uma única pesquisa realmente oficial!

 

Falando agora das mídias, não vou nem enfocar na dúvida sobre quantas emissoras de rádios evangélicas há no país. Também não questionarei quantos jornais, sites, programas de TV, canais ou mesmo revistas atuam nesse segmento. Mais uma vez a resposta será na base do “chutômetro” porque também neste caso carecemos de pesquisas, cadastros, informações. Sobre as mídias, prefiro destacar a necessidade de atitudes mais profissionais. Este é um mercado em sua grande parte “dirigido” por pastores, bispos, apóstolos, patriarcas e coisas do tipo. Estes líderes têm o poder de decidir o que fazer, falar, divulgar e sem exceções, decidem baseados em seus próprios interesses. As mídias evangélicas, em sua quase totalidade, sequer têm uma visão comercial, estas basicamente atendem a objetivos denominacionais e, aí não vem ao caso, se estes interesses eclesiásticos, institucionais são os mesmos objetivos da fé. Não entrarei neste mérito! A questão é que precisamos ter uma mídia cristã bem mais independente e profissional.

 

Conversando com dois amigos recentemente, falei destas minhas impressões e chegamos à conclusão de que o “mercado gospel” ainda está mais para uma “feira de Istambul” (não me pergunte se já fui até Istambul, foi a primeira cidade que me veio à mente!) onde cada vendedor procura destacar sua mercadoria na base do grito! Imagina a cena de centenas de pessoas gritando, disputando os consumidores literalmente no gogó … pois é essa a imagem que ainda tenho do mercado gospel.

 

E nós, profissionais desse mercado trabalhamos não baseados em dados, estatísticas, planejamento, mas em grande parte através da INTUIÇÃO e EXPERIÊNCIA. Confesso que a intuição já me traiu por diversas vezes! Já a minha experiência vem sendo forjada por acertos e erros ao longo destes últimos 23 anos. Talvez até por causa dessa ‘escola’ eu tenha tanta vontade de dividir essas minhas experiências, seja através de palestras, seminários, colunas em revistas ou aqui mesmo no Observatório Cristão. Confesso que acredito muito nesse nosso segmento, mas não me iludo acreditando que somos um mercado de verdade. Por enquanto estamos todos gritando no meio da feira … acreditando intuitivamente que nossas estratégias e ações serão as mais acertadas, ainda vivemos o tempo do “Deus nos acuda!”. Quem sabe, este panorama mude a partir de agora!

Mauricio Soares, jornalista, alguém que crê no potencial do mercado gospel, entusiasta por mudanças, profissional de marketing. Comecei a escrever este texto em mais uma ponte aérea e agora acabo em minha sala no alto da Torre do Rio Sul com a Baía de Guanabara ao fundo ouvindo o maravilhoso CD “Decades of Worship” uma antologia dos louvores mais importantes dos últimos anos de Michael W. Smith. Sensacional!

 

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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