Observando o Repertório – Parte 2

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Acompanhando mais uma enxurrada de tweets de meu amigo e editor do Observatório Cristão, o perspicaz Carlos André, gostei muito de uma frase postada por ele em mais uma de suas madrugadas inspiradas, cáusticas e deliciosamente crítica. A frase é a seguinte:“Música boa não envelhece. Música ruim já nasce morta!” E como temos visto exemplos moribundos de músicas natimortas em nosso meio!

De cada 10 CDs que recebo para avaliação, pelo menos 8 produções têm entre 12 a 14 faixas gravadas. A impressão que me dá é de que há uma lei federal punindo o artista que não grava mais do que 12 canções por álbum ou ainda, um conceito de que o consumidor final fica contando o número de faixas por CD para fazer conta se o valor de venda é compatível ao preço do produto. Como se música fosse algo que pudesse ser pesado atendendo ao adágio popular “vale o quanto pesa”.

Uma das frases que mais ouço de artistas querendo justificar o excesso de músicas no CD é justamente – “Tem muita música boa! Ficou difícil escolher e colocamos 14 canções” – no entanto, ao ouvirmos o trabalho não encontramos 14 sucessos, ou melhor, ficamos muito longe disso! Tem também aquela visão míope do cantor que se julga um compositor de mão de cheia e que na verdade, seja pelo ego de ver seu nome impresso no encarte do CD ou pela ganância de receber os direitos autorais, faz questão de emplacar suas composições no repertório.

Motivos para justificar uma música ruim no repertório são vários! E como são! Mas neste post vamos abordar outra questão sobre este mesmo assunto, a montagem do repertório de um álbum, tema aliás que já escrevemos em outra oportunidade aqui mesmo em nosso blog. Já dissemos que não há tempo determinante para montagem de um repertório. Esta seleção de composições e análise pode durar 10, 30 ou até 90 dias. Não há nada mais importante numa produção de CD do que a escolha do repertório, ou seja, atenha-se a esta etapa do trabalho com máxima atenção!

Voltando à abordagem sobre o número de faixas de um CD, ressalto que não é pecado algum gravar um trabalho com menos de 12 ou 14 faixas! O mais importante não é o número de músicas e sim a qualidade destas canções. Existem na história fonográfica mundial trabalhos antológicos com 9 ou 10 faixas. O importante é que estas canções sejam realmente um retrato fiel de seu talento e que expressem naquele momento toda a mensagem que o artista queira passar ao seu público.

Quando um profissional de gravadora analisa um álbum a ser lançado, a preocupação imediata é na busca e definição do primeiro single, uma faixa que será executada maciçamente nas FMs nos primeiros 3 a 6 meses da chegada do CD no mercado. O terror para os marqueteiros é quando o CD tem apenas um único single, ou terror dos terrores, nem ao menos um single. O single é aquela canção que melhor se adequa à sonoridade das emissoras de rádio a ser trabalhada num plano de marketing. Geralmente é uma canção que exprime a característica principal do artista, tem linguagem fácil, refrão forte e som agradável ao público que se destina.

Nas vezes em um álbum tem apenas um single, a possibilidade de continuidade do trabalho pelos próximos meses fica bastante limitada. É pródigo o número de artistas que surgiram com trabalhos baseados num único single que explodiram de forma meteórica nas rádios e TVs e de igual forma, desapareceram do mercado pela falta de uma música para ser trabalhada. Um produto forte mercadologicamente falando tem entre 3 a 5 singles e as outras canções são geralmente mais conceituais, mais livres da imposição do mercado, mais autorais ou experimentais.

Coadunando com a célebre frase de nosso editor-designer-filósofo das madrugadas, Carlos André, a boa música é atemporal, jamais envelhece e permeia os nossos pensamentos nos remetendo a imagens e lembranças marcantes de nossa existência. Já as canções ruins, aquelas que são inseridas num repertório para “encher lingüiça”, estas deveriam permanecer guardadas pela eternidade numa gaveta qualquer esquecida de seu autor e poupando-nos da desastrosa e inquietante experiência de conhecê-la!

Se você está no exato momento de seleção de músicas para seu repertório, seja o mais criterioso possível e tenha em mente uma pergunta para balizar e cooperar em seu processo decisório: “O que justifica essa música entrar no meu repertório?” Se você não tiver uma resposta convincente para este questionamento, o melhor a fazer é abrir a ‘gaveta’ e guardar mais essa canção que tem tudo para já nascer morta!

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Mauricio Soares é publicitário e por força da profissão ouve em média cerca de 20 a 30 músicas por dia e tem ao lado de sua mesa uma enorme caixa para dispensar as músicas ‘natimortas’

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