Oportunismo e Oportunidade

Boa parte dos meus textos publicados aqui no blog são fruto de conversas ou fatos que vivencio. Um dos caras que ultimamente tem ocupado boa parte de meu tempo para papos profundos e inteligentes é o super competente diretor Hugo Pessoa. Apesar de sua juventude, Pessoa é alguém muito experiente, viajado, com aguçado senso crítico e uma leveza bem peculiar, característica de quem sabe o que quer e para onde vai.
E dias desses estávamos em São Paulo degustando um café num fim de tarde quando o assunto se encaminhou para a questão de oportunidade e oportunismo. E claro, por lidarmos com artistas em nosso dia a dia, o foco não poderia ser outro que não fosse a relação dos artistas gospel com o tema em questão. Falávamos sobre como alguns artistas ao longo dos últimos anos optaram por caminhos que no fim se configuraram em opções erradas. Também sobre como em alguns momentos o caminho que aparentemente é o mais fácil ou até mesmo o mais lógico acaba sendo o mais desastroso para a vida artística. Entre um e outro gole de café fomos listando alguns destes casos para ilustrar o que conversávamos naquele momento.

Sempre ouvi um ditado que diz que quando um cavalo passa encilhado não podemos deixar de subir nele. A idéia é de que a oportunidade quando passa à nossa frente precisamos ser ágeis, termos senso de oportunidade. Boa parte dos ditos populares carregam em si boa dose de sabedoria, mas também podemos considerar que nem sempre o senso comum é imune a erros grotescos. No caso do cavalo encilhado ninguém se ateve a questionar o que ele faz solto no pasto ou na estrada (!?!?). Será que ele não derrubou seu cavaleiro momentos antes? Longe de querer iniciar uma nova polêmica hípica, a verdade é que nem sempre o que se apresenta num primeiro momento como oportunidade ‘imperdível’ pode se configurar como tal após algumas análises mais aprofundadas.
E é aí que reside o cerne do nosso post de hoje. Quero me ater nos próximos minutos sobre o que é oportunismo e oportunidade na carreira artística. Prometo que tentarei ser o mais sucinto possível, apesar do assunto poder render bastante.

Em 25 anos de carreira e lidando com muitos artistas posso assegurar que já pude vivenciar experiências as mais diversas. Especialmente em nosso meio gospel, temos uma profusão de artistas talentosos. Talvez esta até seja uma das características mais marcantes de nosso meio, a absurda qualidade musical de nossos artistas. Posso assegurar que temos alguns dos mais talentosos músicos e intérpretes no meio gospel nacional. Só que talento apenas não assegura o sucesso de ninguém! Nem mesmo com muita oração, jejum, monte, campanhas … nada disso é suficiente para fazer uma carreira sólida, longeva e de sucesso. Não foram poucas as vezes em que pude conversar com artistas alertando-os sobre as transformações do mercado fonográfico … horas e horas de muita informação, muito conteúdo, dicas, sugestões, para no fim eu perceber que apenas perdi meu precioso e raro tempo!

O artista deve antes de mais nada, buscar uma carreira sólida e isso só se consegue com muito planejamento, sabedoria e senso crítico. Infelizmente alguns artistas padecem de ansiedade crônica onde todas as decisões e principalmente os resultados devem vir de imediato. Para estes, resultados de longo prazo devem aparecer em 90 dias ou antes disso!!!!! Podemos listar com muita facilidade artistas do meio gospel nacional que possuem enorme talento, que tinham enorme possibilidade de seguirem numa carreira sólida, mas que fruto desta ansiedade se deixaram levar por promessas descabidas e que os resultados foram catastróficos. Se analisarmos o histórico destes artistas iremos constatar que praticamente todos estes erraram em um determinado momento de suas vidas ao se decidirem pelo caminho do oportunismo e não pela oportunidade.
Oportunismo é antes de mais nada a chance mais fantástica de se alcançar grandes objetivos com o menor esforço. Aparentemente é tudo perfeito, mas se aprofundarmos um pouco mais a análise dos fatos iremos notar que o risco da empreitada é bem considerável. Quantos artistas optaram por assinar contrato com uma determinada gravadora porque esta prometeu presença em programas de TV? Ou então por conta de um adiantamento de royalties? Ou ainda, pela promessa de uma grande campanha de marketing? Como em todo negócio, o mercado fonográfico trabalha sobre números, projeções, realidade … duvide de promessas mirabolantes e estórias ufanistas, cheias de alegorias, sonhos … tudo muito maravilhoso! Muitas das vezes se acorda deste sonho em meio a um terrível pesadelo!

Assim como não há almoço grátis, também não há milagre em investimentos. Quem investe almeja retorno e trabalha para isso. Me assusta ainda hoje, em pleno 2015 ouvir de artistas evangélicos discursos no melhor estilo “Poliana de ser” como se vivêssemos no mundo ideal. Não há espaço para isso! Na verdade, nunca houve e hoje em dia, uma gravadora precisa antes de mais nada, fazer contas e caminhar de forma segura em suas apostas. Não há lugar para amadores neste meio! E é justamente aí que reside a diferença entre aqueles que querem ter uma carreira sólida, adequada às novas demandas e realidades do mercado, adaptada aos novos consumidores, ciente das novas ferramentas e ações estratégicas e aqueles que querem insistir em mentalidades arcaicas e defasadas.

Oportunidade é sobretudo ter capacidade de analisar diferentes aspectos para se alcançar uma posição coerente para o futuro. Quem tem poder crítico para analisar oportunidades certamente terá resultados muito mais consistentes em todos os aspectos da vida pessoal e profissional. Quem tem senso de oportunidade não se impressiona com o destino final, mas procura conhecer melhor a rota para se alcançar a este destino. Não importa se esta estrada é de difícil acesso, mas procura saber, de verdade, o que irá encontrar no fim da viagem. E falando em termos artísticos, a grande graça de tudo é justamente prolongar ao máximo sua capacidade inventiva e criativa. É tão interessante ouvir de grandes artistas sobre o prazer que estes têm em estar no palco depois de anos e anos de carreira. Este prazer só tem aquele que soube conduzir saudavelmente sua trajetória.

Se é você é um jovem artista ou mesmo um decano das artes, cada dia se torna mais primordial a forma como se lida com as oportunidades. Não opte em seguir caminhos fáceis. Não dê ouvidos a promessas vazias. Antes de mais nada, analise se a fonte das promessas tem em seu portifólio grandes realizações. O que te leva a pensar que mesmo errando em todas as outras oportunidades, com outros artistas, justamente contigo será diferente? Não se iluda … até porque o maior prejudicado neste caso, será justamente você mesmo! Não transfira a responsabilidade do seu sucesso para terceiros! Isso é bem comum no meio gospel e acabamos lidando com uma geração de artistas-que-reclamam-de-tudo-e-que-nunca-têm-culpa-de-nada!

Não curto muito a estratégia de alguns artistas de ficarem trocando de gravadora a cada novo contrato. Sinceramente não vi um único artista se dar bem ao se utilizar desta tática ao longo destes anos todos de estrada. Geralmente estes vão perdendo força, vão se enfraquecendo no mercado, vêem suas obras sendo tratadas como produtos de segunda linha por parte das empresas e pelo próprio mercado, enfim, literalmente prejudicam-se absurdamente num autêntico harakiri artístico. Em 99% dos casos, estes artistas foram tomados pelo senso de oportunismo, buscando promessas e fatos que iriam transformar suas vidas. Ilusão. Pura ilusão! A boa oportunidade é aquela que traz responsabilidade, que apresenta resultados sólidos e de longa duração. Qualquer coisa diferente disse será apenas estória e disso já estamos todos fartos! Pelo menos eu …

Mais seriedade e mais resultados! Mais oportunidade e menos oportunismos. Mais profissionais e menos oportunistas. É só o que eu espero!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e cada vez mais focado em fazer diferença no mercado, mesmo que para isso eu venha perder algumas oportunidades.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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