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Os grandes desafios do momento!

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Acabo de receber o relatório semanal do Chart de Streamings do Brasil. Este relatório contempla as principais plataformas de audio streaming em atividade no país, Spotify, Deezer e Apple Music. Logo quando este relatório passou a ser produzido, a hegemonia da música internacional era amplo, geral e irrestrita. Entre o Top 10, praticamente 80% era de conteúdo estrangeiro e os 20% restantes dividiam-se entre o funk e sertanejo, sendo que estes ocupam apenas da sexta posição em diante.

No relatório que acabo de receber, o campeão da semana com mais de 1,4 milhão de streamings é a faixa “Bumbum de Granada” com os MC Jerry e MC Zaac. Como nunca havia ouvido falar da dupla, fui pesquisar um pouco mais na web a respeito deles e aí me deparei com o vídeo desta mesma ‘canção’ com incríveis 78 milhões de views após pouco mais de 45 dias do conteúdo ter sido publicado no canal oficial da dupla que conta com absurdos 4 milhões de seguidores.

A lista segue com nomes do show business mundial como Rihanna, Calvin Harris, Fifth Harmony, Drake, Justin Bieber, Matheus e Kauan, Lucas Graham, Maiara e Maraísa e na décima posição aparece, Mike Posner. Ou seja, 70% dos artistas mais ouvidos nas plataformas de streaming no Brasil na última semana são estrangeiros e entre a música nacional, figuram 2 sertanejos e 1 funkeiro. Na última linha deste Chart, ou seja, na posição de número 200, figura a cantora Pink! com exatos 143.255 streamings da canção “Just Like Fire”.

Já venho acompanhando esta lista com atenção, pelo menos nos últimos 3 a 4 meses. Confesso que sempre pesquiso a lista com a expectativa de encontrar ao menos um único artista de música gospel entre os 200 mais ouvidos pelo país. Logo quando começamos o projeto na Sony Music, isso já faz pouco mais de 6 anos, minha expectativa era para que os nossos artistas da área gospel estivessem entre os CDs e DVDs mais vendidos no relatório da Nielsen, que apura as vendagens físicas em pontos de vendas nas principais redes varejistas e cidades do país, mês a mês. Depois de alguns meses, muitos lançamentos e expectativa elevada, passamos a encontrar com mais frequência os produtos de nossa linha entre os mais vendidos do país, chegando inclusive a ter a cantora Damares nos anos de 2011 e 2013 entre os 10 produtos mais vendidos do país no mercado geral, de acordo com relatórios da ABPD.

Depois de um tempo, outro relatório passou a ser acompanhado atentamente por mim, semana após semana, o Chart Mobile onde eram destacados os serviços de TrueTone, Download de faixas por mobile e ainda o serviço de RingBackTone. Também após grande expectativa e um exaustivo trabalho junto às operadoras de telefonia, conseguimos inserir vários artistas do segmento gospel neste relatório e hoje já os encontramos com relativa periodicidade neste determinado Chart.

Agora, o desafio é outro! E diferente em outros aspectos também, pois no caso da venda de discos e mesmo na venda de conteúdo pelas operadoras de telefonia, havia um trabalho intenso de convencimento dos parceiros para a disponibilização de conteúdo em suas plataformas de negócio. Por exemplo, para um disco entrar na lista de mais vendidos do país, inicialmente tínhamos que fazer um grande trabalho de convencimento da Lojas Americanas em ter o referido produto em suas gôndolas. Sem isso, seria impossível almejar algo maior. O mesmo acontecia na área de telefonia, se não houvesse a negociação e convencimento por parte da gravadora para que a operadora inserisse aquele conteúdo religioso em seu cardápio de opção aos assinantes, nada mais poderia ser aguardado. Ultrapassados estes desafios, cabia à gravadora e por conseguinte, o artista, divulgar que seu produto ou conteúdo encontrava-se disponível nas lojas e nas plataformas de telefonia.

Neste momento temos outro tipo de desafio para que os artistas do segmento gospel surjam entre Rihanna, Justin Bieber e MCs dos mais variados nomes e codinomes no Chart de streaming do país. Diferentemente dos dois casos citados anteriormente, hoje o conteúdo gospel está presente nas plataformas de audio streaming com Spotify, Deezer ou mesmo Apple Music. Então, o nosso desafio não é de convencer os parceiros sobre a qualidade da música gospel ou mesmo sua demanda junto ao público consumidor. Não só estas plataformas estão muito cientes da vitalidade do mercado religioso como estão completamente abertos e dispostos a dar destaque neste conteúdo como realizar promoções e campanhas de grande impacto e divulgação.

O grande desafio que temos agora é que os artistas do segmento gospel entendam a importância deste canal de consumo de música e passem a trabalhar da forma como este ambiente demanda. Como temos insistentemente comentado aqui no blog, também em palestras, entrevistas e em rodinhas de conversa, é fundamental que todos os envolvidos na área artística gospel tenham consciência de que os hábitos mudaram, as estratégias mudaram e a demanda do público é completamente diferente neste momento. Portanto, a mentalidade – e principalmente as atitudes! – precisam ser outras!

Outro desafio que merece destaque, tem a ver com o público cristão que precisa ser mais intenso no relacionamento e consumo de música através das plataformas de audio streaming. Sendo 60 milhões de evangélicos no Brasil (de acordo com as expectativas mais otimistas) e mais outros tantos e tantos milhões de católicos que consomem música gospel, espera-se que a performance dos artistas no Spotify seja bem melhor do que o que vem ocorrendo. As plataformas de video streaming, You Tube e Vevo, têm vários conteúdos de música gospel com milhões e milhões de views, então porque não temos ainda artistas do segmento gospel entre os 200 mais executados nos canais de audio streaming? Em minha opinião, por falta de informação principalmente! E isto reforça a ideia de que os artistas e gravadoras têm importante parcela de culpa por esta desinformação do público.

Um detalhe a mais que gostaria de inserir nesta análise é com relação à forma com que se trabalha a música a partir de então. Ou seja, até algum tempo atrás todo artista tinha foco no disco, no álbum, no repertório de músicas … hoje em dia, esta estratégia é redirecionada para o single, a faixa, a música! Precisamos de mais hits no meio gospel. Acho que desde “Entra em minha casa, entra na minha vida” do Régis Danese não temos um hit nacional de verdade em nosso meio! O que temos são grandes sucessos de Damares, Bruna Karla, Anderson Freire, Leonardo Gonçalves, mas ainda nos faltam estes hits-arrasa-quarteirão que extrapolam o mundinho gospel e literalmente caem na boca do povo! Aí mais uma vez trago a responsabilidade aos artistas, pois são eles que definem seus repertórios. Também divido esta responsabilidade com as gravadoras em escolher o hit, trabalhá-lo com persistência e estratégia até que se torne realmente um sucesso. E por fim, trago ao cenário, a mídia gospel, em especial as rádios do segmento, pois sem o apoio delas, fica muito complicado criar um hit, pois ainda são importantes e decisivos canais de divulgação de conteúdo de massa em nosso meio.

Só pra ilustrar um pouco mais sobre a importância das emissoras FMs na construção de um hit, dias desses estava conversando com o diretor de uma importante emissora de música gospel no país, apresentando-o a alguns dos nossos mais recentes lançamentos. Algumas das músicas que destaquei para sua análise já estavam com mais de 15 milhões de views no YouTube e, surpresa das surpresas, o desinformado profissional de rádio jamais havia ouvido falar daquela canção e tinha uma leve impressão de já ter ouvido falar daquele artista. Ou seja, o nosso grande desafio neste momento é a desinformação e, o pior, o desinteresse.

Que façamos a mudança!

 

Mauricio Soares, blogueiro, jornalista, profissional de marketing, consultor, contumaz pesquisador sobre música, história da Segunda Guerra Mundial, história do Brasil e curiosidades.