O tempo como aliado e não como inimigo

Como sempre menciono em boa parte de meus textos aqui publicados, faço questão de destacar que os temas do blog em sua esmagadora maioria são fruto de conversas entre amigos, de momentos ou situações de meu dia a dia, enfim, de insights que surgem no meu cotidiano. Talvez por isso mesmo, o nome de nosso blog seja tão pertinente, afinal, uma das minhas características é justamente manter o perfil de observador sobre tudo o que nos cerca e através desse olhar, tentar decifrar ou mesmo apontar para caminhos, tendências e tudo mais.

Depois de um dia intenso de reuniões na capital paulista, reservei um tempo para jantar com um grande amigo e profissional que acompanho e trabalho faz alguns anos. Nossa relação sempre foi próxima, mas não tão intensa até que nos últimos 3 ou 4 anos tornou-se mais constante e com ele desenvolvi grandes projetos ultimamente. Este amigo é um jovem talentoso, extremamente focado e que vem se destacando em sua área nos últimos anos a ponto de já começar a ser reconhecido também no mercado secular.

Já seguindo para o fim do jantar, um delicioso combinado de comida japonesa num dos mais bonitos cenários da capital paulistana, mesmo em meio a uma autêntica selva de pedra que ainda assim tem seu charme, ele mencionou uma frase que me chamou a atenção e como faço sempre, me alertou para a possibilidade de a partir daquela sentença, poder desenvolver um post para o blog.
“Tem gente que prefere chegar rápido do que chegar longe!”

A frase dita sem maiores preocupações foi jogada ali na mesa como se tratasse de apenas mais uma observação entre tantas que fizemos naquela noite. Mas ela não era uma simples frase. Não mesmo! Aquela menção significava não somente uma constatação simplória, mas principalmente apontava uma tendência cultural que vivemos nos dias atuais.

Fast food. O mundo ao alcance de um clique. Smartphones conectando pessoas simultaneamente. Canais de TV com notícias em tempo real. Tudo hoje em dia parece ser urgente! E o mais irônico nisso tudo é que toda essa agilidade, instantaneidade, não significam que sobra mais tempo para o ser humano usufruir de momentos de maior tranquilidade ou mesmo para cuidar de sua saúde. Quanto mais se consegue agilizar as ações, mais procuramos fazer coisas novas e assumir mais compromissos. Sem dúvida, vivemos dias estranhos e neuróticos.

No mundo corporativo lidamos com uma nova geração de jovens profissionais recém saídos das universidades que buscam alcançar reconhecimento e crescimento na carreira em pouquíssimo tempo. É cada vez mais comum vermos jovens com 25 a 30 anos com passagem por 4, 5 empresas em períodos curtos sempre galgando novos desafios e principalmente, cargos e atribuições mais elevados. Se antigamente funcionário bom era aquele com 20, 30 anos numa mesma empresa, hoje isso é sinônimo de acomodação, de falta de determinação. Os melhores profissionais são aqueles que possuem diferentes experiências em áreas diversas, que são afeitos a desafios, que possuem uma inquietude natural.

Posso me considerar uma mescla destas duas personalidades. Afinal em 25 anos de mercado posso elencar uma boa lista de passagens por empresas em nosso segmento. Confesso que sou um profissional motivado a desafios (alguns bem grandes, por sinal!) e ao longo de minha trajetória profissional consegui enfrentar obstáculos enormes e que contribuíram para desenvolver ainda mais meu caráter e experiência profissional. Só que ao longo deste tempo sempre tive muito claro os objetivos que deveria alcançar. Lembro-me que ainda no início de tudo, escrevi em minha agenda algumas metas para os próximos anos e durante muito tempo segui focado na conquista daqueles objetivos. Há alguns meses atrás folheando alguns papéis antigos encontrei estas anotações e me emocionei ao ver como acabei alcançando boa parte daquele esboço de planejamento que havia traçado quando tinha uns 20 e poucos anos de vida. Só posso agradecer a Deus por ter cuidado de mim desde sempre. Reconheço plenamente que sem esse cuidado, jamais teria conseguido chegar tão longe.

Gosto muito de conversar com gente jovem. Em casa tenho 3 gerações muito distintas de filhos. O meu primogênito já com 14 anos é o típico adolescente com todas suas descobertas, convicções (ou não!), transições e dúvidas. Já o Leonardo é o meu quase-adolescente-quase-criança que se diverte brincando de bonecos e ao mesmo tempo quer inserir-se no mundo dos adultos, especialmente no mundo adolescente do irmão. E por fim, tenho o meu caçula que acaba de completar 2 anos. O Benjamim é uma criança especial, cheio de amor e principalmente, energia. No seu dialeto próprio já tem sua opinião, suas vontades, busca seu espaço na família, chegou e tomou conta da casa. Tudo para ele é novidade!

Durante muitos anos trabalhei diretamente com adolescentes em minha igreja e sempre estive envolvido em projetos relacionados a jovens. No meu dia a dia profissional tenho especial atenção para os artistas iniciantes e ao longo destes anos, fui responsável por lançar uma boa turma que hoje está na estrada, gente como Jamily contratada aos 9 anos de idade, Michele Nascimento e sua irmã Gisele Nascimento (ela nem RG tinha, tivemos que providenciar para poder viajar de avião, (risos!)), e outros nomes como Tino, Mariana Valadão, Jó42, Gabriela Rocha, Gui Rebustini, DJ PV, Marcela Taís, Sara Alencar, Brenda, só para citar alguns.

Lidar com jovens artistas é um exercício cotidiano de paciência, perseverança e ensinamento. Assim como no caso de atletas de base onde os treinadores são mais do que meros professores e atuam muitas das vezes como psicólogos e mesmo pais, o mesmo ocorre com artistas jovens em início de carreira. Para estes, nunca crio expectativas elevadas. Jamais coloco sobre estes um peso sobre resultados em vendas ou algo do tipo. Eles não precisam de uma sobrecarga de cobranças, pelo contrário, precisam estar focados e orientados para que errem o mínimo possível.
Talvez o maior problema de um artista, especialmente nos dias de hoje é saber lidar com o tempo. É até aceitável que estes jovens tenham urgência em fazer as coisas acontecerem, afinal, estão inseridos num contexto da sociedade onde tudo é imediatista e o sucesso deve ser buscado a qualquer preço. Isto é um fato! Só que a carreira artística não é uma prova de velocidade, mas sim, uma prova de resistência, assim como nossa vida espiritual, onde não devemos nos preocupar em chegar rápido ao destino, mas em alcançar o prêmio pela forma como que enfrentamos a longa viagem até o objetivo final.

Tenho me deparado com jovens artistas alucinados em conseguir se diferenciar em meio à multidão. É gente que não está medindo esforços para chegar aos objetivos, muitos destes inclusive, metas erradas. Um dos erros mais comuns desta turma é colocar a responsabilidade de seu sucesso na conta da gravadora como se esta tivesse a força capaz de transformar do dia para noite um potencial em realidade. Isso não existe! Especialmente no meio gospel não temos muitos artistas que fazem para si um planejamento de médio e longo prazos. Em algumas consultorias artísticas que assumi ao longo do tempo conversei com jovens artistas que acreditavam ser possível tornar-se sucesso em 3 a 6 meses de trabalho e investimento. Isso é impossível, mesmo com muito dinheiro e usando as ferramentas certas. O Brasil é grande demais e cada região possui uma característica muito peculiar. Ou seja, qualquer trabalho de implantação de um artista deve ser tratado de forma regional e passo a passo. Não se faz um artista no meio gospel num período inferior a 24 meses!

E nesta ânsia de se alcançar rapidamente o estrelato tenho visto muita gente talentosa ficar pelo caminho porque não soube lidar com o tempo. Um artista jovem que por algum milagre entrou numa gravadora jamais deveria pensar em mudar de empresa antes de lançar 3 projetos. É necessário que o artista crie para si perante o mercado uma identificação e isso passa também pelo fato dele estar ligado a uma mesma gravadora. Outra questão fundamental para o jovem artista é que ele não pode escolher a agenda, ou seja, de enterro de anão a casamento comunitário toda oportunidade deve ser aproveitada para que ele apresente seu projeto, sua arte. Ainda com relação a saber lidar com o tempo, o artista jovem precisa saber que antes dele, muitos outros artistas já estavam neste mercado e merecem ter posição de destaque. Então, não adianta ficar chateado, de beicinho, ao ver que no cartaz do show estão lá em letras garrafais os nomes das principais atrações e o seu nome está lá embaixo, próximo ao rodapé, quase que em letras do tamanho de bula de remédio. Isso quando o nome ainda consta no cartaz, porque em algumas vezes estará no genérico: “E muito mais!”

Aos jovens artistas alerto para a importância destas dicas. Não só na carreira artística, mas na vida cotidiana, prefira sempre a rota que o leve mais longe, mesmo que seja a mais demorada, a mais árdua, a mais difícil. Fuja das soluções mirabolantes que prometem alcançar o Nirvana em 5 passos apenas! Não existe fórmula mágica para estas ocasiões. Raríssimas são os casos de artistas que saíram do profundo anonimato e já no primeiro projeto tornaram-se sucesso. Isso pode acontecer e realmente acontece, mas são casos isolados. Além do mais, na nossa história recente do mercado gospel temos casos clássicos de artistas que surgiram como um verdadeiro furacão de popularidade e expectativas e do dia para a noite, por uma série de conduções erradas das carreira, acabaram virando brisa.

Planeje. Respire fundo. Cerque-se de pessoas do bem. Busque ajuda de profissionais. Não tenha sobre si peso excessivo e desnecessário. Estude. Busque a vontade de Deus sobre sua vida. Lide positivamente com o tempo.
Quem tem ouvidos, ouça!

Mauricio Soares, observador, jornalista, publicitário. Alguém que cada vez mais valoriza os momentos em família e entre amigos. Isso é o que realmente importa no fim de tudo.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

5 Comments

  • Edson Nova

    16/09/2014 at 21:59

    O genérico “E muito mais!” foi sensacional!
    Mas a questão é essa: esse caminho é para quem quer dedicar sua vida ao serviço de Deus, é uma vida de dedicação e renúncia. O mercado é um meio de manter e expandir a pregação, e não um fim em si mesmo.

    Responder
  • Marcelo Dutra

    17/09/2014 at 14:37

    Mauricio, com certeza estávamos precisando de um texto desses pra refletir um pouco… todos os demais são muito bons mesmo! Mas, este, foi especialmente orientador quanto ao tempo!

    Responder
  • ANDERSONN CLAYTON

    18/09/2014 at 14:10

    O Observatório Cristão sempre traz ótimos conselhos, dicas, análises e até manual que precisam ser lidos por todos, profissionais ou não, artista ou não…eu particularmente tenho aprendido muito com cada texto publicado!

    Aos iniciantes, aprendam…aos veteranos, sempre é bom saber um pouco mais para não cometer os mesmos erros.

    Responder
  • anderson

    23/09/2014 at 17:55

    sou compositor de musicas evangelicas “gospel” e achei muito boa a colocação “chegar rapido ou ir mais longe ?

    Responder
  • Sergio Freire(Barata)

    24/09/2014 at 17:11

    Querido Maurício com já declarei: sou teu fã. O artigo é muito bom, a costura da tua experiência de vida pessoal a profissional traz inspiração…. E viajando no texto me vi na produção semanal da Caravana Palavra de Paz, onde a 7 anos tenho tido o privilégio de estar na periferia, nas comunidades do Estado do Rio de Janeiro recebendo no primeiro bloco da programação musical uma avalanche de jovens, que disputam para deixar a marca de seu talento a cada programação, e que este ano deparamos e estamos com duas pérolas, que se fizerem o dever de casa direitinho terão uma chance nesse tão disputado segmento… Mas Amigo Maurício gostaria de saber conhecer alguma história, algum “calso”, ou um relato dos pais “empresários”, pois tenho enfrentado algumas situações engraçadas… Vou ter que parar estou saindo pra Caravana em Senador Camará… Comunidade do Sapo….
    Grande abraço.

    Responder

Deixe uma resposta