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Paleolíticos

Antes de desenvolver o texto de hoje, como tem se tornado rotina nos últimos tempos, sendo escrito a bordo de mais um voo, agora com destino final a Maringá com parada em São Paulo, quero agradecer às inúmeras mensagens e manifestações de apoio e carinho pelo recente texto publicado neste blog que tratava da questão da Expo Cristã. Fiquei especialmente feliz em ver que o sentimento que expus naquele texto também reflete em muitas pessoas que fazem parte do nosso meio e que de uma forma ou outra participaram deste projeto no passado. Um dos comentários mais comuns que observei tem a ver com a falta que este evento está fazendo e pelo reconhecimento do importante papel de seu idealizador, Eduardo Berzin, teve no mercado gospel nacional. Fica aqui meu agradecimento a todos que compartilharam o texto em suas redes sociais e também pelas mensagens tão emocionadas que recebi. Confesso que ao ler algumas destas mensagens cheguei a emocionar-me de verdade. Obrigado a todos e seguimos na esperança de que um dia possamos ter novamente uma iniciativa que reúna o mercado e seus profissionais num único evento e causa.

Recentemente tive uma reunião muito interessante com uma turma da velha guarda da música gospel. Os cabelos já não tão fartos, as silhuetas não tão esbeltas, a fala mansa de quem já passou do tempo da agitação e ansiedade. Não estou falando de uma banda da terceira idade ou algo do tipo, mas também não se trata de meninos em busca do sonho de uma carreira artística. Estava à frente de um grupo de jovens que à época se juntaram e anos depois fizeram história na música gospel nacional. E quando digo história, é com “H” maiúsculo e todas as honras que merecem. Essa turma está se preparando para retornar o projeto da banda que surgiu há quase 35 anos atrás. Sim, isso mesmo! Mais de 3 décadas, tempo que muitos dos meus 66 leitores não têm nem de vida. Quando muitos de vocês ainda engatinhavam ou andavam de Velotrol (quem não?) essa turma já viajava de norte a sul do país tocando suas canções, levantando a juventude e apanhando da velha guarda, vestuta, antiquada e tradicional das igrejas que não admitia o uso de guitarras e principalmente bateria – sim, isso já existiu! Imagina esses senhores hoje lidando com ministérios de louvor que mais parecem bandas de rock cheios de estilo acompanhados por ministérios de dança e coisas do tipo?

Confesso que estar diante daqueles três personagens me encheu de orgulho e alegria, afinal fui absurdamente influenciado por eles quando adolescente. Lembro-me de uma apresentação da banda na quadra da Primeira Igreja Batista de Niterói com lotação esgotada. O palco, nada mais do que um simples palanque montado sobre andaimes, mas com iluminação de show (na verdade, umas 3 ou 4 gelatinas coloridas que eram trocadas manualmente, máquina de fumaça … ou seja, uma mega produção para os padrões da época. Cantei todas as músicas, vibrei, emocionei-me com as mensagens e ao fim, reuni-me com alguns outros amigos e ali mesmo acertamos de montar uma banda e seguir a carreira artística.

Naquele momento estava sentado à frente de artistas que marcaram profundamente minha vida. E agora, esta turma diante de mim pedia orientações sobre como proceder no novo projeto. E é a partir daí que quero dar continuidade ao texto de hoje sendo, como disse antes, escrito a caminho de São Paulo ao som MAGNÍFICO do disco “Princípio” do Leonardo Gonçalves, projeto que será lançado nas próximas semanas. Deste projeto certamente falarei mais em outra oportunidade.

Como muitos sabem, estou na indústria fonográfica desde a época do LP, que muitos decretaram como uma mídia pré-histórica e em vias de desaparecimento total, mas que hoje começa a ensaiar um retorno ao mercado de forma bem consistente. Assim como eu, muitos artistas que hoje continuam trabalhando no nosso meio, são desta época paleolítica. Pode não parecer, mas a mídia CD já existe há mais de 20 anos, portanto, tantos outros artistas que estão hoje no mercado não vivenciaram o tempo dos bolachões em vinil e sempre conviveram com as mídias no formato Compact Disc. Agora já temos um nova geração que viveu o ocaso da mídia CD e que convive muito bem com o novo ambiente digital. Ou seja, hoje temos artistas que viveram e estão vivendo três gerações, culturas, realidades bem diferentes e como tal, entendo que esta adaptação não seja algo que seja feito do dia para a noite.

No papo que rolou com a banda, procurei ouvir com muita atenção as ideias, os desejos, os planos que eles imaginavam para esse retorno à estrada. Fiquei feliz ao perceber que antes de mais nada havia ali um desejo sincero de voltar ao cenário artístico e sinceramente conhecendo a qualidade deles e principalmente o foco e caráter da turma, creio que este retorno será muito bem recebido, incluindo a turma mais jovem que jamais ouviu e curtiu a arte desses tiozões. Depois de ouvi-los falar, passei à fase professoral, dando uma rápida explanação sobre a realidade atual do mercado fonográfico, o gospel em especial.

Na palestra informal já bem tarde da noite fiz questão de destacar a necessidade de uma maior participação dos artistas nos processos de produção, a divisão de tarefas e responsabilidades entre o artista e a gravadora, sobre a mudança iminente do disco físico para o meio digital, a diminuição das vendas de DVDs e, principalmente a preocupação no planejamento e controle rígido de investimentos. Ou seja, o tempo dos projetos mirabolantes para a realização dos sonhos, efetivamente ficou no passado. Hoje em dia, a palavra de ordem é investir onde há segurança no retorno. Menos é mais. Bom gosto e criatividade são fundamentais, o que significa gastos nababescos e desnecessários e por aí vai.

Ao fim da reunião, percebi que os semblantes não eram os mais animadores, mas todos fizeram questão de frisar de que precisavam ouvir aquela palavra, afinal necessitavam estar cientes desta nova realidade que estão prestes a enfrentar.

Diariamente lido com esta mesma situação de trazer à realidade artistas sobre o novo momento do mercado fonográfico. Nem sempre as reações são as mais positivas por parte dos artistas. Alguns preferem simplesmente tapar os ouvidos e seguir rumo ao desconhecido. Felizmente, outros artistas revestem-se de humildade, de vontade de aprender e adaptar-se às novas demandas e oportunidades e buscam um novo posicionamento em suas carreiras. Diante destas experiências cotidianas posso dividir a classe artística em 3 gêneros bem distintos, a saber:

O Ser Paleolítico é um espécime em vias de extinção. Este indivíduo, nada mais é do que aquele artista que insiste em viver do passado e que insiste acreditar que ainda está em plena década de 1990, ou seja, no século anterior. Este ser fossilizado que anda vagando por aí tem hábitos próprios. Ele tem fortes convicções pessoais. Ainda crê que está fazendo um som moderno, apesar de a cada dia seus trabalhos atingirem menos público e menos impacto no mercado. Ele insiste em seguir no lema “em time que está ganhando não se mexe”, só que ele só tem perdido de goleada. Este ser não busca a ajuda de novos profissionais para sua carreira, não busca novas referências, enfim, mantém-se impassível no mesmo lugar e com isso, pagando o preço alto da não-renovação. Este ser tem características nômades, não costuma ficar muito tempo participando do cast das gravadoras. Está sempre mudando de ambientes. É aquela história tão batida de que ‘a glória da segunda casa será maior do que a primeira’, em alguns casos não é mais segunda, mas oitava, nona casa … estes seres pré-históricos também são bastante acomodados, o que é um contrassenso, porque um ser nômade não deve ser preguiçoso, mas este ser foge a estas definições tradicionais. É um paradoxo ambulante! E por se tratar de um ser antigo e acomodado, tem a convicção de que a gravadora tem que fazer tudo por ele! E quando esta não o atende, como é o correto nos novos padrões atuais, transfigura-se no ser reclamador, ou seja, em toda e qualquer ocasião irá sempre fazer alguma queixa de sua atual gravadora. O Ser Paleolítico é um ente em extinção mesmo que ele entenda e insista em agir de forma diferente como se a sua raça fosse soberana entre as demais.

– O Ser Mutante é aquele indivíduo que já se apercebeu de que hoje as coisas estão diferentes de antes, de que é necessário se reciclar, se ajustar a um novo ambiente, mas que ainda crê que é possível esticar um pouco mais o passado. Seria uma espécie de ‘deixa eu curtir mais um pouco porque aqui está cômodo. Depois eu me mudo!’ Ele é um ser híbrido, não está tão mumificado mas ao mesmo tempo está longe de ser um artista antenado às novas tendências. Este espécime tem em média 10 a 15 anos de existência no mercado e viveu bem o auge da era do CD. Este ser costuma ser um pouco mais receptivo a se envolver numa parceria com a gravadora dividindo tarefas. O problema é que ele sofre de instabilidade emocional e de vez em quando, os sintomas paleolíticos afloram com força! O Mutante sofre de alguns medos e temores, o principal deles é ter que tirar o dinheiro do bolso para investir em algumas áreas de sua carreira como a contratação de profissionais de marketing digital, assessoria de imprensa ou mesmo agenciamento. Ele costuma esperar até os 48 minutos do segundo tempo para que a gravadora assuma estas despesas. O problema é que geralmente isto não acontece e o Mutante acaba perdendo importantes oportunidades e principalmente tempo. Alguns Mutantes mais evoluídos já perceberam que principalmente na área de produção artística e clipes é necessário seu investimento no processo e, assim, seguem rumo a um estágio superior no melhor conceito darwinista.

– O Ser Pró-Ativo é bem mais comum entre os exemplares das gerações mais recentes com tempo máximo de 5 anos de estrada. No entanto, já podemos encontrar alguns representantes de outras gerações fazendo parte desta categoria, o que é uma notícia alvissareira, sem dúvida! Geralmente estes indivíduos viveram o ocaso da mídia física e já foram doutrinados no ambiente digital. Os mais jovens e alguns nem tanto são bastante ligados em tecnologia, em redes sociais, no uso de ferramentas, amam selfies, preferem falar pelo whatsapp do que pelo telefone convencional (aquele negócio em que os mais antigos costumam se comunicar). Os Pró-Ativos costumam agir rapidamente, tomam decisões e esperam por resultados em tempo recorde. São ansiosos por natureza! Geralmente quando chegam às gravadoras já estão munidos de áudio e vídeo finalizados, contam com assessores, têm uma estratégia e objetivos bem definidos e na verdade, esperam apenas ter um suporte de marketing e distribuição por parte das gravadoras. É um ser que precisa ser orientado, mais até do que incentivado, pois na ânsia de fazer as coisas, acaba atropelando algumas importantes etapas. Estes seres são muito ligados na comunicação visual e vêm investindo muito em produções de clipes, Lyric Videos e coisas do tipo. Suas redes sociais são diariamente atualizadas e o contato com o público é bem próximo. E seguindo o rumo natural do processo evolutivo, estes são os possíveis sobreviventes que iremos lidar nos próximos anos.

Atualmente lido com estes 3 seres quase que diariamente o que particularmente exige de mim muita paciência e abnegação. Como todo momento de transição teremos os sobreviventes e aqueles que ficaram pelo caminho. Fico feliz quando vejo uma artista do quilate de Cristina Mel que conseguiu superar a tentação de manter-se como um Ser Paleolítico e até mesmo um Mutante. Mesmo com tantos e tantos anos de carreira, tendo ainda surgido no cenário musical nos tempos do LP, essa cantora vem fazendo um trabalho formidável em parceria com a gravadora trabalhando lado a lado na busca dos objetivos. Há algumas semanas atrás, Cristina passou um dia inteiro na gravadora rodeada de profissionais com 20, 25 anos de idade, simplesmente para aprender um pouco mais das estratégias que hoje utilizamos no marketing digital e nos canais de distribuição. Sem dúvida, um exemplo para os mais antigos e também os mais novos.

O recado está dado. Para bom entendedor, pingo é letra!

 

P.S. – Este texto foi finalizado já no caminho de volta para casa após 2 dias maravilhosos na cidade de Maringá/PR. Não posso deixar de registrar a minha profunda felicidade em conhecer a estrutura da Rádio Melodia 99,6 FM e ver que ali a música de qualidade é prestigiada! O caminho é esse pessoal!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, alguém que não perde a oportunidade para dividir conhecimento, que ama sua profissão e que diariamente faz uma campanha nas redes sociais contra essa turma nefasta que está no poder há 12 anos. Pra não perder a oportunidade #ForaDilma #ForaPT

 

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

2 Comments

  • Sergio Freire(Barata)

    14/10/2014 at 15:01

    “Se oriente rapaz, pela constelação do cruzeiro do sul…”(Gil)
    Quem quer chegar seguro ao destino, buscar Orientação, faz Plano de Vôo…
    Temos sempre que olhar para o Alto, lá está e vem de lá, para onde aponta o Norte. Maurício, que bom ser um dos 66, ter o privilégio, aqui da tela, viajar e aprender com você nessas pontes aéreas e compartilhar dessa tua alegria na disponibilidade da missão, em ajudar a muitos colocara os pés no chão. Parabéns !!!!!
    Amigo, eu tenho um sonho…

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  • Nicoli Francini

    14/10/2014 at 15:38

    Me identifiquei com o ser pró ativo, Vamos aprendendo e corrigindo o que precisa ser corrigido Muito bom o Texto.

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