Home Mercado Fonográfico Panorama do mercado gospel atual e para os próximos anos

Panorama do mercado gospel atual e para os próximos anos

0 1140

Dias atrás recebi a informação de que o Salão Internacional Gospel seria cancelado e isso, se confirmou faltando apenas alguns dias para a realização do evento. Acho que este evento já estaria indo para sua quinta edição e mesmo assim não sobreviveu a mais um ano. Já é de notório conhecimento a descontinuidade da Expo Cristã que por mais de 10 anos reuniu boa parte do mercado religioso no Brasil. Na sequência, outra feira surgiu com organização da Geo Eventos e não durou mais do que uma única edição. Em 2016 também tivemos boa parte das edições do Festival Promessas promovido pela Rede Globo simplesmente cancelados. Vale lembrar que o Troféu Promessas também promovido pelo mesmo grupo empresarial foi cancelado há alguns anos atrás, faltando pouco tempo para sua realização deixando milhares de pessoas sem entender a real situação daquele fato e decisão. Alguns festivais que foram realizados em cidades pelo país, também deram o último suspiro e se foram. No ano passado (ou retrasado, agora não me lembro!) houve um evento gigante realizado no interior de São Paulo no melhor estilo “Rock in Rio” que não reuniu mais do que 5 mil pessoas e deixou um prejuízo na casa do milhão de reais aos seus organizadores. Resultado: nada de segunda edição do evento.

No mercado fonográfico vemos cada vez mais empresas que até então eram fortes, tradicionais e atuantes, diminuírem sensivelmente sua presença e atividade no segmento. Tínhamos há 10 anos atrás pelo menos umas 20 gravadoras e selos bem atuantes no meio gospel, hoje talvez (com muita boa vontade!) contamos nos dedos de uma única mão do Lula as empresas que realmente estão trabalhando forte no segmento. No mercado editorial percebo a mesma concentração de players, ainda mais com a chegada dos grandes grupos editoriais internacionais e seculares. Recentemente recebi a informação de que a revista Cristianismo Hoje, após mais de 80 edições, deixou de ser publicada, mantendo-se até o presente momento, apenas disponível em sua versão eletrônica. Já nesta semana soube do fim das atividades da Editora e Distribuidora SOCEP, gigante da distribuição editorial dos anos 80 e 90, localizada na cidade de Santa Bárbara do Oeste, interior paulista. Mais uma perda significativa para o mercado.

A outrora fervilhante Rua Conde de Sarzedas no centro de São Paulo chegou a movimentar milhões de reais por mês lá nos idos do fim dos ano 90 e 2000. Por ali pessoas e comerciantes oriundos de todos os cantos do país compravam de tudo um pouco para abastecer os seus comércios locais. Recordo-me de clientes distribuidores comprando 30 mil unidades de um único lançamento de CD para abastecer ao mercado num período de 30 dias somente. Por ali circulava muito dinheiro, pessoas e histórias, muitas histórias, boa parte nada condizente com o que se espera de um lugar apinhado por cristãos, mas enfim … a pitoresca rua do passado hoje é apenas uma esmaecida imagem dos tempos fulgurantes e intensos do passado. Os grandes distribuidores que no auge eram entre 8 a 10 empresários, hoje estão reduzidos a 2 ou 3 persistentes comerciantes. Os clientes locais que iam por lá periodicamente se abastecer das novidades, também se escassearam e muitos passaram a comprar por telefone ou mesmo diretamente nos próprios fornecedores.

O antes aguardado Troféu Talento promovido pela Rede Aleluia, grupo ligado à Igreja Universal do Reino de Deus, foi interrompido e de lá para cá nenhuma outra premiação conseguiu substituí-lo em relevância e grandiosidade. Hoje em dia, para o mercado fonográfico há apenas um evento do tipo, Troféu de Ouro, que por mais boa vontade que eu tenha em tentar entender os critérios nos processos de tudo que o cerca, é impossível levá-lo a sério tamanha falta de lógica e coerência de todo o processo, portanto, de verdade, não temos mais um único evento de premiação que mereça atenção.

Os canais de distribuição do segmento, as conhecidas livrarias evangélicas, que na verdade são autênticas lojas de conveniência do meio cristão, permanecem na batalha cotidiana de sobrevivência. Em algumas praças o crescimento deste mercado é visível como na Grande Recife, capitaneada pela Livraria Luz e Vida, ou em Fortaleza por conta das lojas Bíblia e Opções e Casa da Bíblia, mas em outras praças o mercado se retraiu bastante nos últimos anos com diminuição das operações e mesmo fechamento de lojas. As grandes redes de livrarias do segmento hoje são a CPAD e Luz e Vida, mas ambas não possuem mais do que 15 filiais em todo o Brasil, algo bem tímido se comparado à capilaridade de redes seculares como Saraiva, Cultura, Leitura, entre outras.

Antes que você ache que estamos num barco à deriva, gostaria de direcionar meu post para uma rota que será o norte de nosso texto de hoje. Em meio a tantas notícias nada alvissareiras, o mercado gospel ainda merece ser encarado como promissor, potencial e interessante do ponto de vista comercial, de investimento e mesmo profissional? Vou tentar responder a este questionamento elecando diversas questões e a partir daí poderemos definir uma posição final sobre esta questão.

O Brasil evangélico explodiu demograficamente nos últimos 15 a 20 anos. Ou seja, do ponto de vista histórico, este grupo social é bastante recente e como tal, sujeito a transformações, ajustes, definições do que de verdade é ou será pelos próximos anos. É importante que tenhamos este entendimento! Poucas são as atividades do meio gospel que podemos apontar como definitivas, poucas mesmo! E como tal, precisamos de mais tempo de estrada pra criar raízes e definirmos nossas características próprias. Este aspecto nos traz dois caminhos. O primeiro é creditar a este pouco tempo de vida boa parte das práticas equivocadas, amadoras e muitas das vezes até mesmo infantis. Confesso que algumas atitudes (ou falta delas) em nosso meio me soam como absolutamente incríveis. A falta de estratégias, planejamento, conhecimento, metas e objetivos claros e de médio/longo prazos, são características de um meio ainda muito imaturo e, por conseguinte, os resultados são muito aquém às suas possibilidades. Ou seja, falta preparo e conhecimento técnico!

O outro aspecto é enxergar esse amadorismo do mercado como uma oportunidade única. Em meio aos amadores e suas práticas, os verdadeiros profissionais, como se diz popularmente, ‘lavam a égua’ – não sei a origem desta expressão, na verdade nunca imaginei que dar um banho na senhora equina fosse algo positivo, mas ela significa que a pessoa se dá muito bem em meio a tudo que o cerca. E é em cima deste conceito que particularmente tenho me mantido firme e forte no meio gospel nos últimos 20 anos. Longe de querer jactar-me, autoelogiar-me ou algo do tipo, tenho recebido alguns convites para migrar de área profissional, e o que me mantém neste mercado nos últimos anos tem sido especialmente o senso de oportunidade, por entender o potencial do mercado religioso no Brasil e a falta de profissionais na área. Por exemplo, em função desta minha decisão, especialmente nas últimas 3 semanas comecei a desenvolver projetos e curadoria artística para algumas plataformas de audio streaming com conteúdo de música gospel. Isso deve-se ao fato de que faltam especialistas na área. Está faltando profissionais no mercado gospel brasileiro!

Não temos uma pesquisa atual e definitiva sobre o tamanho do mercado cristão no Brasil. Há matérias que apontam para 30% da população brasileira sendo evangélica, o que daria uns 60 milhões de pessoas. Outros institutos são mais tímidos e cravam para 20% o montante dos evangélicos no Brasil, o que daria uns 40 milhões de brasileiros. Particularmente prefiro imaginar que o segmento evangélico no Brasil hoje esteja entre 40 a 50 milhões de brasileiros, sendo que o mercado gospel seria algo maior, pois os produtos – editorial e fonográfico – são consumidos não somente por autênticos evangélicos como também por católicos, cristãos não vinculados a uma igreja e simpatizantes. Ou seja, não importa se são 40, 50 ou 60 milhões, a verdade é que o mercado gospel é gigante, maior do que boa parte dos países pelo mundo. Então por que mesmo com tantos os consumidores neste segmento, as empresas que atuam neste mercado estão passando por tantas dificuldades? Na minha modesta opinião, a resposta está destacada nos dois parágrafos acima. Há uma clara falha na formação de profissionais especializados e nas estruturas das empresas (e mesmo instituições religiosas, denominacionais) que lidam com este público.

As gravadoras do segmento gospel, em sua grande maioria estão passando por dificuldades porque, entre outras questões, demoraram a se adaptar ao mercado digital. Muitas destas gravadoras são meramente um apêndice musical da instituição a que estão vinculadas e isso determina o foco, objetivos e mesmo razão de ser. Entre as editoras não é diferente, mesmo que a questão digital ainda hoje não tenha se tornado popular entre os consumidores provocando a onda migratória observada na música. No meio editorial gospel, percebe-se que as práticas comerciais tornaram-se obsoletas, assim como as estratégias de marketing, promoção e divulgação. A impressão que tenho deste mercado é de uma absoluta inércia, o que tem seu preço, sem dúvida! As livrarias evangélicas estão passando por dificuldades? Nada mais natural afinal muitas destas lojas até bem pouco tempo atrás tinham administrações medievais. Livrarias sujas, mal abastecidas, funcionários mal vestidos, desestimulados, sem conhecimento dos lançamentos do mercado. O resultado não poderia ser outro …

Especialmente neste ano percebemos uma tendência de shows de música gospel pelos teatros do país. A esmagadora maioria destes shows tem contado com no mínimo 80% de ingressos vendidos, sucesso absoluto! O que diferencia os shows em teatros dos demais realizados pelo país, muitos destes com fracassos retumbantes na venda de ingressos? Basicamente os eventos realizados em teatros têm contado com equipes de produtores competentes e profissionais. Simples assim. Os eventos em teatros pelo país têm trazido uma característica e imagem positivas junto ao público e este se sente muito valorizado ao perceber o apuro na produção destes eventos. Nem mesmo os tickets com valor médio acima de 50 reais tem sido impedimento para a presença do público. Vale a pena investir num ingresso mais caro para os padrões do segmento se houver a certeza de que o evento terá qualidade artística num ambiente de conforto e segurança. O cantor Leonardo Gonçalves, precussor de eventos em teatros, tinha uma expectativa de 10 shows neste formato em 2016, vai fechar o ano com 33 apresentações em teatros do país, muitos dos quais em sessões extras tamanha a procura do público pelos ingressos.

Qualidade + Profissionalismo = Sucesso

Já estou em processo de descida para a cidade de Salvador. Continuo acreditando muito no potencial do mercado cristão brasileiro, mas cada vez estou mais convicto de que teremos cada vez menos players atuando junto ao segmento promovendo uma concentração entre poucas marcas, seja no mercado fonográfico, editorial, canais de distribuição, plataformas digitais e outras atividades. O momento é de território livre onde quem primeiro chegar com foco, planejamento, competência, networking, conteúdo relevante e investimento a médio e longo prazos terá grande chances de se estabelecer e fincar bandeira. No mercado fonográfico, por exemplo, não creio que teremos num prazo de até 5 anos, mais do que 3 a 4 grandes gravadoras nacionais. Na área editorial, talvez este número chegue a 5 ou 6 editoras, talvez um pouco mais devido às empresas vinculadas a ministérios, mas a realidade é que a concentração de players é uma questão inequívoca. Como numa autêntica brincadeira pueril de dança das cadeiras, o momento é de correr e garantir o seu assento.

Mauricio Soares, publicitário, consultor de marketing, palestrante, simplesmente alguém buscando seu espaco neste concorrido universo gospel.

Notícias relacionadas