Home Design Pensando e expressando-se fora do quadrado

Pensando e expressando-se fora do quadrado

Lendo uma revista de bordo me deparei com uma matéria sobre o jornalista Joel da Silveira que por cerca de 60 anos registrou com precisão e senso crítico, além de uma rara sensibilidade, boa parte da sociedade brasileira e fatos do cotidiano. Até hoje, é considerado um dos maiores nomes do jornalismo brasileiro.

Uma das reportagens que o catapultaram a destaque no meio jornalístico foi escrita em 1943 e retratava o dia a dia da alta sociedade paulistana – “Eram assim os grã-finos de São Paulo”, intitulava-se a matéria publicada na revistaDiretrizes.

Outro dia publiquei em minha conta no Instagram um micro texto onde deixava claro que preferia ser penalizado por minhas convicções do que me esconder na meio da patuléia sem opinião. O texto não era este exatamente, mas o conceito da mensagem sim.

Conferindo essa matéria sobre a vida e principalmente a forma incisiva de analisar e posicionar-se sobre diferentes assuntos, me veio à mente a sugestão do tema que iremos discorrer na sequência. É impressionante e, confesso, desestimulante – pra ficar em adjetivos mais eufemísticos – ver como o meio evangélicobrasileiro é carente de pessoas que se expressam de maneira crítica, sensata e coerente suas opiniões sobre os mais diferentes temas. Infelizmente temos muito poucos líderes, jornalistas ou pensadores no segmento protestante nacional capazes de se posicionarem sobre assuntos que nos dizem diretamente a respeito ou mesmo onde se torna importante um posicionamento do ponto de vista cristão, bíblico, doutrinário.

O perfil evangélico no Brasil hoje é algo absolutamente diferente do que era há 15, 20 anos atrás. As práticas, estratégias e posturas das igrejas evangélicas e de seus líderes assumiram uma largueza de pensamentos, filosofias e discursos, que fica até difícil estabelecer o que de fato as une e faz com que sejam colocadas todas num mesmo segmento. A distância entre as igrejas históricas e as comunidades neo-neo-pentecostais é abissal, clara e evidente. E pela falta de pessoas que marquem posição perante a mídia e a sociedade, estamos todos sendo colocados no mesmo balaio e o resultado disso para a imagem da igreja evangélica brasileira tem sido devastador!

Vivemoso tempo das caretas, dos sorrisos, da festa, do triunfalismo, do auto-elogio, dos flashes … parece que realmente estamos no País das Maravilhas, onde tudo está perfeito, maravilhoso. A falta de senso crítico e de vozes que se posicionem junto ao meio evangélico nacional está trazendo prejuízos muito significativos.

Vivemoso tempo em que a unanimidade precisa ser cultivada ao extremo. Não se aceitam críticas! Não se aceitam pontos de vista diferentes. Se alguém reza (ou orapara ficar no linguajar mais adequado!) fora da cartilha é porque tem outros interesses ou está sendo usado pelo satanás! (sic) Pensar diferente significa não estar na mesma visão do reino (sim, com r minúsculo!).

Vivemoso tempo em que se retuita elogios e se bloqueia críticos. Apesar de que em certos casos, o bloqueio é mais do que necessário. Não há espaço para o diálogo. Não há espaço para a exposição e o debate de ideias. Está tudo padronizado, engessado, tiranicamente tabulado! A imprensa do segmento, em sua esmagadora maioria, simplesmente reproduz o texto oficial. Não há margem para questionamentos. E aí é interessante perceber que as redações dos grandes veículos de comunicação do país estão cheias de profissionais cristãos e muitos destes, começaram na atividade jornalística trabalhando em mídias evangélicas. Boa parte, entretanto, não teve condições de manter uma postura profissional e acabou migrando para a mídia secular.

Precisamos de mais pessoas falando, mais pessoas pensando, mais pessoas se posicionando, mais pessoas analisando de forma equilibrada o momento pelo qual passamos. Não precisamos de pessoas que gritam para defender suas opiniões, mesmo que comrazão em certos momentos. A fala pode ser mansa, mas incisiva, coerente, sensata. Não precisamos de pessoas que digam que estão nos defendendo quando estas não têm procuração da maioria e não atuam de acordo com os conceitos cristãos, nosso maior e mais importante código de conduta. Não precisamos de pessoas que se apresentam como líderes públicos e que se beneficiam no privado!

Acho que precisamos de mais pessoas como Joel da Silveira, um arguto observador de seu tempo, capaz inclusive de arriscar sua vida no front da Segunda Guerra Mundial acompanhando os pracinhas brasileiros na Itália.

Este blog tem um pouco dessa função. Não só de ensinar, de dividir conhecimento, mas de alguma forma provocar reações nas pessoas. Não falo de criar polêmicas, mas sim de provocar o livre pensar. Não falo de arrumar inimizades, mas sim de estabelecer padrões e não negociá-los por um simples clima de imposta e falsa cordialidade. Sinceramente creio que devemos mudar esse panorama.

Não curto líderes que se cercam de pessoas bajuladoras que sempre concordam comsuas opiniões. Particularmente prefiro muito mais uma amizade que aponta para os meus erros e me ajuda a crescer, do que ‘amigos’ que aplaudem sempre. É no plano das ideias e no debate que a sociedade cresce e se desenvolve. Sinceramente creio que o segmento evangélico no Brasil carece, e muito, de um debate de ideias buscando um aprimoramento e amadurecimento. Quando isto acontecer, certamente rotas serão corrigidas, detalhes serão observados e oReino (o com “R”maiúsculo) será honrado e valorizado de verdade.

Vamos em frente! Sempre!

Mauricio Soares, observador, debatedor por natureza, jornalista, alguém que tem muita esperança por dias melhores, buscando o aprimoramento, pai, publicitário.

Notícias relacionadas

0 360

0 526