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O novo perfil do artista em tempos digitais

Qual tipo de profissão permite que um jovem sem qualquer experiência anterior possa de uma noite pra outra tornar-se conhecido muito além do seu bairro, quarteirão ou mesmo cidade? Neste momento não me ocorre muitas outras opções para responder a esta questão além da carreira artística. Sim! Munido de um violão, uma câmera, talento, carisma e uma boa dose de entendimento de tecnologia e noções de marketing digital, além, é claro, de um repertório selecionado, jovens de qualquer lugar do planeta podem seguir os mesmos passos de Justin Bieber, viralizando na web, angariando milhões de views, outros tantos milhões de seguidores, tornar-se referência e, ao fim, ser convidado por uma major a integrar o cast da gravadora. Mesmo na área esportiva onde cada vez mais nos deparamos com meninos e meninas alcançando destaque em meio a marmanjos, é necessário que este atleta tenha alguns anos de treinamento, acompanhamento e muito foco. Então, sigo confiante de que neste momento a área artística, especialmente a musical, pode ser uma catapulta potente para que um jovem talento queime etapas, pule degraus e no menor tempo possível torne-se um grande sucesso.

Neste momento estamos diante de uma mudança no meio artístico tão radical e tão impressionante que podemos nos deparar com pop stars surgindo em poucos meses, quando estes mesmos, tempos atrás estes eram ilustres desconhecidos no mais absoluto anonimato. Com o advento da internet e das inúmeras plataformas de rede sociais, cada vez fica mais democrático e inesperado o Olimpo artístico. Se até poucos anos atrás, um artista para tornar-se conhecido nacionalmente deveria ser obrigatoriamente divulgado em grandes centros urbanos como São Paulo, Belo Horizonte, Salvador e principalmente, Rio de Janeiro, hoje em dia, a questão territorial literalmente cai por terra. Há algumas semanas atrás comecei a acompanhar o trabalho de uma jovem de 16 anos que vem crescendo dia a dia em relevância nas redes sociais e nas plataformas de video streaming. Sua desenvoltura em frente às câmeras, sua simpatia, talento e principalmente sua empatia junto ao público teen e jovem de diferentes regiões do país, chamou-me a atenção a ponto de fazer algo que há muito tempo não fazia, ou seja, pegar o telefone e fazer contato com uma jovem artista. Esta menina não reside numa capital do país, muito pelo contrário! mas isso, de verdade, de nada importa neste contexto atual. O que importa é que ela tem uma proposta musical de qualidade, está antenada nas redes sociais, seus vídeos têm milhões de visualizações, seus canais têm milhões de seguidores e ela tem o DNA digital, ou seja, é parte de uma geração que vive, pensa, age, se relaciona através da tecnologia e seus diferentes ambientes.

Na verdade, hoje em dia podemos ter celebridades web em função do talento, de uma boa música, mas também pelo oposto, pela bizarrice, pela falta de bom senso e do ridículo. Nestes casos a vida artística é bem fugaz, os vídeos surgem viralizando na rede e no whatsapp e somem na mesma velocidade com que surgem. A dupla “Para Nossa Alegria” que chegou até a lançar um álbum e assinar contrato com uma gravadora, ficou no passado distante em completo ostracismo. Vou ater-me exclusivamente aos cases de sucesso. Melhor assim.

Estamos diante de uma época muito interessante, onde as mudanças de comportamento, hábitos e do contato cotidiano com a música estão em profunda transformação. Outro dia atrás, conversando com um amigo, que por sinal é músico também, destaquei que no meu entendimento hoje temos 3 categorias de artistas convivendo num mesmo cosmos. Há uma turma que viveu o auge do mercado fonográfico com a venda de CDs, DVDs e alguns até com os LPs, e que acreditam na manutenção das demandas atuais por mais algumas décadas à frente. Estes resistem o quanto podem à adaptarem-se às novas realidades, tecnologias, estratégias, hábitos e ações. Para estes, sempre haverá público para os produtos no formato físico e não há necessidade alguma de mudar antigos conceitos e atitudes. A minha visão, que é constantemente explicitada, inclusive aqui no Observatório Cristão, é de que muito possivelmente teremos uma estagnação das vendas físicas daqui alguns anos. Não creio no desaparecimento das mídias físicas, o que realmente acredito é que este mercado irá encolher pelos próximos anos chegando a um nível de 10 a 15% da receita da indústria fonográfica e neste caso, os CDs se somariam aos LPs como um mercado único, do formato físico. O que observaremos nos próximos 3 anos é uma mudança paulatina de consumidores físicos migrando para as plataformas de streaming.

Outro perfil de artista neste momento é aquele que já se deu conta das mudanças, mas que ainda não pensa e age totalmente dentro da realidade digital. É literalmente aquele personagem que está no meio do caminho, que sabe que é necessário seguir viagem mas não tem coragem de deixar o conforto e a segurança da casa dos pais. Ele sabe que as vendas físicas irão cada dia diminuir, mas ainda não tomou coragem de se organizar a ponto de pensar com a mentalidade digital. Como toda mudança, é necessário desamarrar-se de antigas ‘cordas’, é fundamental buscar novos conceitos, novas atitudes, novos profissionais de apoio, novas expectativas e metas. O terceiro modelo de artista que encontro neste atual estágio é justamente aquele que encara de frente as transformações e já pensa e age de acordo com as novas demandas. Este artista é antenado, geralmente tem uma boa equipe de apoio (geralmente formada por ‘experientes’ profissionais de 18, 20 anos de idade), é heavy user das redes sociais, conhece profundamente cada plataforma, pensa digitalmente, é ágil, observa os demais artistas na rede (e aprende com outras eles), e tem número crescente de seguidores nas redes sociais.

Em 27 anos de mercado (como estou ficando velho!) nunca vivenciei uma época como esta onde me parece que tudo está zerado, ou seja, tanto medalhões e artistas jovens, grandes vendedores de discos e adolescentes que nunca encararam um estúdio pela frente, artistas que viajaram por vários países e aqueles que conhecem o mundo exclusivamente pela web, todos estão partindo de um mesmo patamar. Tornar-se um artista relevante digital neste momento é relativamente possível e acessível tanto para artistas renomados (e que entendam a necessidade de se reciclarem!) como para os novatos que estão ‘entrando no ônibus’ agora. Só que esta fase, não irá durar muito tempo! Não mesmo! Em muito pouco tempo, talvez não mais do que 1 ano ou 2 anos no máximo os artistas ‘digitais’ estarão estabilizados e assentados nomainstream. Aí vai ficar mais difícil pra quem chegar atrasado garantir seu lugar de destaque em meio à concorrência. Portanto, é mais do que urgente repensar posicionamentos, atitudes e estratégias. É bem verdade que estamos diante de uma geração absurdamente volúvel onde os modismos mudam na velocidade da luz e o que é in hoje, amanhã já pode ser out. Com isso é até possível que determinados artistas que chegaram a um bom destaque no meio, por motivos diversos, voltem ao fim da fila novamente e desta forma, abram espaço para novos artistas e propostas. A verdade é que como numa brincadeira de dança das cadeiras, na vida artística pouquíssimos são os astros que conseguem ter uma carreira de sucesso, longeva e não sujeita a intempéries. O mais comum é que todo aquele que levanta pra entrar na roda, corre o risco de ficar sem lugar pra se sentar. A concorrência no meio artístico é cruel …

As cartas estão na mesa. Preparem-se porque o jogo vai começar!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista. Finalizo este texto em um estúdio em São Paulo em meio à gravação do projeto Lado B com a Discopraise. Que por sinal, é uma banda completamente antenada nas novidades, que vem crescendo absurdamente em relevância, agenda e musicalmente. Nota 10 rapaziada!

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