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Preparando-se para as mudanças no mercado fonográfico e artístico

Li dias atrás em uma revista do segmento gospel uma matéria falando sobre o mercado digital e sua relação com o universo dos artistas independentes. Entre várias informações sobre como funciona o mercado digital, a matéria sugeria para que os artistas seguissem de forma independente, abrindo mão do suporte das gravadoras. Longe de querer ser uma matéria isenta, como deve ser pautado o jornalismo, aquele texto era uma nítida publicidade mal disfarçada. Particularmente sonho com um dia em que teremos um jornalismo em nosso meio sendo praticado de forma profissional, isenta e de acordo com os mais éticos padrões da boa escrita e conduta. Infelizmente o que vemos (e na Expo isso fica ainda mais evidenciado!) é um jornalismo chapa-branca ou mesmo um jornalismo-de-negócios.

Folheando algumas das revistas e jornais que recebi na Expo, me esforcei em encontrar uma única matéria interessante e bem escrita. O que vi em demasia foram revistas com matérias pagas elogiando rasgadamente o personagem-tema. Muitas das quais com anúncios espelhando as matérias ‘jornalísticas’ no melhor estilo ‘me engana que eu gosto’. Poucas são as revistas e jornais em nosso meio que valorizam os seus leitores mantendo uma imparcialidade e um mínimo de qualidade em seus textos. Cheguei a folhear um jornal onde todas as “matérias” eram textos destacando os ‘ministérios’ de cura, libertação, descarrego, clarividência e coisas do tipo no melhor estilo ‘trago a pessoa amada em 7 dias’ … Misericórdia!

Precisamos valorizar a inteligência do povo evangélico! Precisamos investir mais na qualidade de nossos veículos impressos e digitais. Precisamos valorizar os profissionais de jornalismo e deixar de lado o amadorismo onde qualquer pessoa sem a mínima condição sai escrevendo sobre os mais diferentes assuntos. Precisamos criar condições para que os profissionais tenham liberdade de agir, de publicar, de investigar, de provocar o debate, sem que estejam amarrados a contratos comerciais ou a ter que bajular este ou aquele mega-ultra-super-líder ou instituição.

 

Mas na verdade, o tema deste post não é sobre o jornalismo no meio gospel tupiniquim. Acabei seguindo por esse caminho já na introdução porque efetivamente é algo que me incomoda muito. Me incomoda ver a falta de respeito de certas pessoas com o povo evangélico, onde insistem tratá-los como simples massa de manobra. O que gostaria de comentar nesse post é justamente sobre o tema da matéria comentada no início deste texto. Será que com o crescimento do mercado digital os artistas poderão dispensar o trabalho das gravadoras?

Sem querer influenciar na resposta pelo simples fato da posição em que ocupo atualmente e onde estive presente nas últimas duas décadas, o certo é que em pouco tempo teremos apenas duas formas de trabalho no meio artístico, a saber: o artista independente e o artista numa gravadora de grande porte. Em minha modesta opinião e baseado nas observações dos últimos anos no mercado fonográfico, a tendência é de que as gravadoras de médio porte serão absorvidas gradativamente pelas grandes corporações ou então definharão a um ponto em que atuarão basicamente como selos ou mesmo projetos independentes. Não haverá espaço para empresas medianas no mercado fonográfico!

A chegada do mercado digital realmente está transformando o segmento fonográfico. Falo muito sobre essas mudanças no meu texto anterior publicado aqui mesmo no blog. Vale a pena dar uma conferida. Mas essa democratização através dos canais digitais não são garantia de que qualquer artista poderá alcançar resultados expressivos. Na verdade, colocar um CD no iTunes, por exemplo, é razoavelmente simples. Mas o fato de disponibilizá-lo por lá não é a mínima garantia de sucesso, pois o produto ficará em meio a milhões de artistas, projetos, álbuns, singles, vídeos … sem uma ação efetiva de divulgação, o produto ficará ali vagando na nuvem … ou melhor, na órbita terrestre como aqueles lixos espaciais.

 

No entanto, mesmo um artista independente deve ter postura de gravadora. Ele precisa entender que existem diversas ações que deverão ser tomadas, seja uma gravadora multinacional ou um artista independente. Organização, zelo na administração de impostos, regularização junto aos órgãos federais, estaduais e municipais, emissão de nota fiscal, processo de compra e venda, investimento em marketing, planejamento estratégico e tudo mais. E assim, fica a dúvida sobre o que deve ser o caminho a seguir na carreira artística. Ter uma atitude independente assumindo todas as atividades, riscos e compromissos, ou dividir responsabilidades com uma gravadora?

O grande mercado que deve ser focado para qualquer artista no meio gospel é justamente a sua agenda. Seja esta agenda pautada em igrejas, grandes shows ou eventos promovidos por contratantes e/ou prefeituras. A venda de CDs físicos, além de gerar uma enorme demanda de impostos, papéis, compromissos, funcionários, estoque e tudo mais, tem uma tendência claríssima de queda para os próximos anos. O correto é que cada vez mais os artistas estejam focados única e exclusivamente em sua produção artística e na administração de sua agenda. E para as gravadoras, cada vez mais será interessante que os artistas contem com suas estruturas de marketing e distribuição numa parceria de resultados e muito foco.

O mercado digital e o seu crescimento são uma tendência irreversível! Nos EUA, já em 2011, as vendas digitais superaram as vendas físicas. Este fenômeno deverá também ocorrer no Brasil já nos próximos 2 a 3 anos. E por mais que um artista independente seja antenado neste mercado digital e suas ferramentas, o certo é que apenas as grandes gravadoras terão condições de otimizar ao máximo as possibilidades de negócios no formato digital. E neste panorama, além das gravadoras, surgirão empresas facilitadoras que atuarão justamente na distribuição física e digital. Além destes, imagino que muito em breve teremos escritórios específicos para assessoria de marketing para esses artistas independentes. Esta é uma tendência que já estamos observando no Brasil, mas ainda carecemos de empresas e profissionais de maior expressão. Enfim, o mercado está em franca reformulação. É muito importante que todos entendam que o modelo tradicional de mercado fonográfico e seus congêneres está fadado ao desaparecimento e isso se dará no menor tempo possível, mas sobre esse choque nos modelos tradicionais e no que há de vir é assunto para outro texto que pretendo publicar em breve. No momento, resumindo esse post, o que posso destacar é que os artistas precisam preparar-se para um novo formato de negócios – artista independente com ajuda de diversos profissionais e empresas x artista numa parceria/contrato com uma grande gravadora.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing, desportista de fim de semana, pai do Fernando, Leonardo e Benjamim. Atualmente exímio trocador de fraldas, hipnotizador de bebês que não querem dormir e alguém que pretende melhorar mais a cada dia como profissional, pai, esposo, cristão e principalmente, ser humano.

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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