Preparando-se para o novo eldorado da música gospel

Tenho como hábito escrever alguns textos e deixá-los ali guardados num arquivo ‘encostado’ em meu computador. Muitas das vezes não publico o texto mesmo estando ele já finalizado. Antes de qualquer coisa, o texto precisa me convencer e às vezes, mesmo gostando do resultado final, esse convencimento não vem. Acho interessante esta relação com meus textos, pois mesmo entendendo que devo sempre ter algo inédito no blog para que os leitores não desapareçam pouco a pouco, acabo dando o braço a torcer para esse sentimento de convencimento. Ele é mais forte do que qualquer necessidade racional que queira se impor.  Neste momento tenho uns 4 a 5 textos encostados, esperando por um acabamento final ou simplesmente por aquele click do convencimento.

Começo a escrever esse texto em mais um viagem pelo nosso Brasil. E como é lindo esse nosso país! Só neste mês, viajarei duas vezes ao Nordeste, outras duas vezes para o sul do país e mais uma ou duas vezes para a capital paulistana. Em cada uma destas cidades e regiões, sempre nos deparamos com ambientes e imagens marcantes, deslumbrantes. Amo viajar! Ainda mais se estas viagens forem em família ou com amigos. Viajar a trabalho tem outra dinâmica, é bem diferente mesmo. Agora mesmo estou retornando de um almoço em Salvador. Isso mesmo, saí do Rio, segui para a capital baiana, almocei com um grupo de empresários e sem nem ter tempo para a sobremesa, corremos de volta ao aeroporto.

Seja no sul do país, no centro-oeste ou mesmo na Cidade Maravilhosa, o mercado religioso vem chamando cada vez mais a atenção dos empresários, políticos, mídias, da sociedade como um todo. E com esse interesse cada vez tenho sido mais e mais convidado a dar palestras, participar de seminários, prestar consultorias ou mesmo contribuir com nossa experiência em determinados projetos em nosso meio.

Entre tantas áreas que o mercado gospel está despertando interesse, uma em especial, com relação direta ao mercado artístico, vem se destacando. Trata-se do mercado de grandes shows e festas de prefeituras. Estima-se que no Brasil existam pelo menos 2 mil grandes eventos relacionados a feiras de agronegócios, festas de prefeituras ou festivais tradicionais artísticos culturais sendo realizados anualmente. E a boa notícia é que em boa parte destes municípios, a música gospel vem conquistando cada vez mais espaço no calendário e no grid de atrações destes eventos. Hoje já é bem mais comum ver pelas estradas e ruas do país aqueles enormes outdoors divulgando artistas evangélicos ao lado de astros da música pop, sertanejo, axé, pagode. É verdade, que nestas divulgações, em sua grande maioria, as fotos dos artistas de música gospel, quando existem, estão numa proporção menor se comparada com os artistas seculares. Mas isso é só um detalhe … o importante é que os artistas de música gospel começam a ser cada vez mais valorizados e a dividirem o palco com os grandes nomes da música popular brasileira.

Este parece ser um dos últimos rincões a ser conquistado pela música gospel tupiniquim. No melhor estilo ‘desbravando o velho oeste selvagem’, artistas do meio gospel foram ampliando a presença nos eventos pelo país. Há algumas décadas atrás, raríssimas eram as igrejas que abriam espaço para os músicos. Geralmente as apresentações musicais eram reservadas tão somente aos músicos da própria congregação. O hábito de ter um artista convidado para participar de uma programação ou culto rotineiro nas igrejas era algo dificílimo e quando este artista conseguia a proeza de ser convidado, a prática era do “muito obrigado e vá em paz!”. Cachê? Oferta de amor? Dinheiro para a gasolina? “O irmão virou artista é? Tá em pecado?” No máximo um lanchezinho na cantina da igreja e ficamos por isso mesmo!

Mas eis que essa mentalidade ficou para trás e hoje temos vários, ou melhor, a grande maioria dos artistas do segmento, vivendo profissionalmente de suas agendas junto às igrejas. Muitas igrejas criaram para si uma cultura do culto ou evento onde a presença de um artista é simplesmente indispensável! Para aqueles artistas que estão na moda, a disputa entre os pastores para ter o determinado pop star em sua igreja beira muitas das vezes um frenesi digno de um leilão de obras de artes.

Artistas como Thalles, Damares, André Valadão, Irmão Lázaro, Diante do Trono, Aline Barros, Nívea Soares e Fernandinho, hoje praticamente atendem basicamente a convites de prefeituras para apresentações pelo país. A demanda por estes grandes nomes está cada vez maior e a tendência é de que este fenômeno só aumente nos próximos anos. E é neste aspecto que ainda precisamos ter muita cautela. A demanda está crescente. Isso é fato! Cada vez mais cidades e promotores seculares de eventos estarão buscando artistas do meio gospel. Isto também é fato! Mas até que ponto os nossos artistas estão preparados para atender satisfatoriamente estes novos mercados?

Meu questionamento não está unicamente focado na qualidade dos shows de nossos artistas. Já comentei aqui em um texto anteriormente publicado sobre uma experiência em que assistindo um show gospel numa cidade do interior de São Paulo, num dos momentos do ápice da performance da artista, quando o povo estava ali, como se diz popularmente, “na mão”, esta mesma cantora convida o seu marido, pastor, para trazer uma mensagem ao povo presente. Resultado: o clima do show simplesmente esfriou. O pastor-marido-de-cantora ficou pregando por longos 30 minutos tendo aquele tecladinho fúnebre ao fundo. Em outro evento, diante de mais de 20 mil pessoas, uma jovem cantora que tempos atrás estourou com um hit no Brasil, simplesmente entrou no palco como se estivesse entrando numa igrejinha de 20 membros. A menina se escondia atrás dos músicos, não interagia com a plateia e quando empolgava-se apenas gritava: – Quem tá feliz diz amém!!!! Quem pode dar um grito de júúúúúbiiiiiiiiiiilo! Oh! Aleluias … o palco deste show tinha um avanço de mais de 15 metros e a cantora em nenhum momento desceu do palco principal para se aproximar do público.

O artista de música gospel precisa entender que nestes eventos a performance jamais pode ser a mesma do que se faz numa igreja ou mesmo num congresso de jovens da igreja. Os públicos são muito distintos! Nestes eventos temos não somente a turma crente, mas também pessoas que simplesmente querem assistir a um show diferente, ouvir uma mensagem diferenciada, mas no fundo, eles querem assistir a um show. Este é o principal referencial: entretenimento.  Ou seja, o artista gospel precisa ter uma performance de entretenimento em suas apresentações para estes públicos distintos. Deve-se pregar a Palavra? Sim, mas com inteligência, sabedoria e principalmente, bom senso. Temas doutrinários ou costumes jamais devem ser abordados nestes eventos. Muitas pessoas podem sentir-se ofendidas num simples comentário feito sem maiores intenções. Quer trazer alguma mensagem evangelística? Fale apenas de Jesus e de seu amor! Isso já é mais do que suficiente!

Analise seu repertório. Procure trazer uma dinâmica forte para a sua apresentação. Se em seu repertório pessoal faltam algumas músicas para ‘levantar a galera’, não há lei que proíba você de cantar músicas de outros artistas. O mais importante é você cativar o público! Roteirize toda a sua apresentação e siga cada passo ali determinado. Num palco, até os ‘improvisos’ devem fazer do script. Estabeleça o momento certo da ministração, tendo cuidado para não falar além do necessário. E por fim, deixe o seu público com vontade de gritar o ‘bis’. Tenho um grande amigo que até tempos atrás ficava por mais de 2 horas no palco cantando, cantando, cantando … ele é super talentoso, o público sempre curtia seus shows, mas faltava a ele o feeling de saber o tempo ideal para terminar sua apresentação e com isso, ele acabava saindo do palco com o público completamente saciado (e muitas das vezes cansado!), o que não é nada bom artisticamente falando!

Outra questão importante que todo artista que pretende seguir nesta carreira mais profissional com shows, precisa observar com atenção é montar uma equipe de produção de qualidade. Roadie, light designer, produtor, técnico de áudio, são alguns dos profissionais que precisam estar engajados na equipe técnica. E esta equipe acaba demandando mais despesas para o artista. Infelizmente, boa parte de nossos artistas no meio gospel sofrem da síndrome do ‘tudo para mim’ e com esta mentalidade, entendem como despesa tudo que deve ser encarado como investimento. Neste momento nos deparamos com aquela típica pergunta do Tostines – Vende mais porque está fresquinho ou está fresquinho porque vende mais? Simples assim. Para ter um valor de cachê mais elevado e assim poder remunerar toda uma equipe de profissionais, o artista precisa também entregar um show à altura. Não dá para simplesmente reunir uns 3 ou 4 músicos iniciantes e subir ao palco para cantar umas 10 músicas. Todo artista é avaliado pelos contratantes. E não se iludam, os contratantes estão em permanente contato entre si. Se um artista dá ‘piti’ sempre, se o seu show é ‘água com açúcar’, se sua equipe de produção arruma confusão por onde passa ou se os seus shows são recorde negativo de venda de ingressos, essa performance acaba criando uma imagem negativa que vai seguir pelo Brasil mais rápido que trem bala. Então é importante que o artista invista em seu show, em sua equipe técnica, em seus músicos. Show TOP = Cachê TOP = Agenda TOP.

Junto à equipe técnica de show, o artista precisa também investir na qualidade de seu manager. Ainda somos muito carentes nesta área no meio gospel. Infelizmente, boa parte dos profissionais que cuidam das agendas e dos interesses dos artistas em nosso meio é composta de maridos, primos, cunhados e afins. Nada contra o parentesco, mas tudo contra pessoas incapazes que apenas ocupam posições estratégicas em função de seus respectivos laços familiares. E atenção, neste mercado de grandes shows não há espaço para amadores, gambiarras ou jeitinhos. Tudo é feito na base dos contratos, respeitando-se prazos e principalmente na relação profissional. Se você é um artista que pretende ingressar nesse mercado e tem aquela tabela de cachê pela ‘cara do freguês’, desista antes mesmo de começar ou então mude suas formas de atuação. Se um determinado contratante descobrir que pagou um cachê com ágio, as portas imediatamente se fecharão naquela região. Seja coerente, transparente e principalmente ético!

Um outro detalhe que vale a pena destacar antes de finalizarmos esse texto. Tenha o máximo de cuidado de não saturar uma determinada região. Procure estabelecer um tempo mínimo de 3 meses até retornar para aquela cidade. Principalmente se o evento for ingressado, neste caso, o ideal é até que este período seja alongado. Muito cuidado com a venda de shows gratuitos e ingressados. Infelizmente tenho ciência de artistas que venderam shows ingressados e depois de 30 dias retornaram para a mesma cidade ou região com shows gratuitos. Pior ainda é quando o show gratuito é anterior ao show ingressado, aí já é o fim!

Vou ficando por aqui. Em mais alguns minutos já estaremos aterrissando no Aeroporto do Galeão no Rio de Janeiro. Termino esse texto com aquela sensação do ‘pode publicar’ e isso me dá um prazer enorme. Agora vou reler alguns dos textos engavetados para ver se algum deles pode sair da masmorra diretamente para o nosso blog. Por falar no blog, em breve (espero eu) teremos uma repaginação em nosso visual. Estamos reformulando algumas ferramentas, incrementando algumas idéias, analisando outras possibilidades. Espero que nas próximas semanas possamos trazer algumas destas novidades. Boa leitura!

Mauricio Soares, publicitário, atualmente líder do Brasileirão, leitor contumaz de literatura sobre a Segunda Guerra Mundial, alguém que curte bossa nova, MPB e de conversar com amigos por longas horas. Atualmente ouvindo repetidas vezes os novos trabalhos da Tanlan, Leeland e Tenth Avenue North. Fica a dica.

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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