Procura-se pessoas que queiram dividir conhecimento

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Confesso que a coluna de Obituário não é uma área dos jornais que costumo dar muita atenção. Quando passo o olho página por página sempre tenho meus pontos de maior interesse nos jornais e efetivamente saber quem morreu ou quem será lembrado numa missa de sétimo dia não é algo que me atraia tanto. Mas como numa viagem de mais de 1h30 de avião e já tendo lido até os anúncios da revista de bordo e ter devorado as principais notícias do meu jornal, acabei dando mais uma olhada página a página e acabei me detendo numa matéria do Obituário do Jornal O Globo do dia 17 de março com um destaque além do usual.

Aquele Box tinha como título “Um defensor do jornalismo e da liberdade”, falando acerca do falecimento do jornalista Sidnei Basile em texto escrito pela jornalista Miriam Leitão. Não só pelo tamanho do Box, mas justamente por constatar que uma jornalista de economia estava escrevendo sobre aquela pessoa, parei para ler cada linha daquele texto. Ao fim, confesso que tive uma enorme “inveja positiva”, que alguns evangélicos costumam atribuir como “inveja santa”, da jornalista em ter podido conviver e aprender com uma pessoa de tão alto valor.

Para quem não se informou sobre Sidnei Basile ele foi chefe de redação na “Gazeta Mercantil” em Brasília em pleno período de chumbo da ditadura militar. Àquela época montou um time repleto de novatos, gente que depois tornou-se referência de profissionalismo como Lilian Witte Fibe, a própria Miriam Leitão, Celso Pinto, Célia de Gouvêa Franco, entre outros. Depois de dirigir a Gazeta Mercantil, Basile foi executivo no CityBank, na Burson-Marsteller e por fim, Vice-Presidente institucional da Editora Abril. Também foi professor e membro do Comitê de Liberdade de Expressão da Sociedade Interamericana de Imprensa (SIP).

Miriam Leitão relata como foi contratada por Basile em 1977. Ela havia saído de sua terra natal, Espírito Santo, depois de problemas de perseguição política, sem registro profissional, grávida do segundo filho e sem conhecer ninguém na capital federal. Naquela época havia duas vagas no jornal, uma mais modesta e outra de maior responsabilidade. Com muita naturalidade, Miriam Leitão pleiteava a vaga mais simples.

“Conversamos sobre variados assuntos, ele me perguntou de livros que eu tinha lido, tudo como se não fosse uma entrevista de emprego. Aí ele me ofereceu a melhor vaga. Eu disse: “Queria dizer que estou grávida de quatro meses.” Ele me deu parabéns e pediu que voltasse no dia seguinte já com a carteira. Essa foi a primeira delicadeza. Nos anos seguintes, Sidnei me ensinou o ofício como nenhuma outra pessoa. Me orientou sobre ter objetivos e persegui-los. Me mostrou falhas; passou truques de textos, apuração e entrevista. Foi a pessoa mais importante na minha formação profissional; e foi referência para inúmeros outros jornalistas pelas lições de rigor na apuração e noção de que servimos a quem consome nossa informação.”

Este texto além de me trazer uma profunda simpatia pela história deste profissional, serviu também para que eu refletisse sobre a importância de termos nossos “tutores”, seja no plano profissional, espiritual e mesmo no pessoal. Quando anteriormente afirmei que li esse texto com uma pontinha de inveja de Miriam Leitão foi porque infelizmente em minha trajetória profissional, jamais tive um tutor, aquele profissional mais experiente que não sonegava sua expertise, pelo contrário, exercitava sua liderança através da democratização do conhecimento.

Eu sou uma pessoa que gosta de ouvir. Também gosto de falar, ainda mais se for de assuntos que eu tenho um certo domínio de conhecimento, mas efetivamente o que eu gosto mesmo é de uma boa conversa. Sou capaz de ficar até altas horas conversando com pessoas que me transmitam conhecimento, experiências e informações! Sou favorável a qualquer iniciativa que seja pautada na troca de informações, seja em fóruns, debates, palestras ou mesmo em bate papos ao redor de uma mesa de jantar.

Nos últimos 3 anos, tenho sido bastante procurado por estudantes universitários a fim de colaborar em teses, estudos, trabalhos e todo tipo de iniciativa pedagógica. Já atendi grupos de estudantes, concedi muitas entrevistas e até mesmo fiquei como tutor de alunos em pós-graduação. Efetivamente, essa troca de informações é algo que me alegra bastante e talvez porque ao longo de minha jornada não tive essa figura do tutor para me ensinar, eu tenha tanto prazer em ser procurado e de alguma forma ajudar estes novatos.

Quero que entendam que nestes anos, realmente não tive um tutor, mas tive pessoas que efetivamente contribuíram para meu desenvolvimento pessoal e profissional. Entre esse rol de pessoas que aprendi bastante, posso citar personalidades como Rev. Caio Fábio que no auge de seu ministério não teve medo de passar atribuições importantíssimas a um recém-formado, Yvelise de Oliveira que me abriu espaço ao mercado fonográfico, Bispo Marcelo Silva que me apresentou o universo da rádio, TV e de projetos grandiosos como o Troféu Talento, para citar alguns.

Depois de quase 20 anos de estrada, hoje não tenho tutores, mas amigos de profissão que dia a dia me ensinam a lidar com os desafios da indústria fonográfica. Reconheço que até conhecer o novo universo do mercado de música regular, no alto de minha auto-suficiência, achava que eu já tinha aprendido praticamente tudo e não tinha muito mais a desenvolver. Com poucos meses de trabalho, percebi que precisaria fazer uma nova ‘faculdade’, pois a realidade do mercado fonográfico era bem diferente da qual eu convivia nos últimos tempos isolado no meio gospel.

Hoje tenho oportunidade de lidar com os profissionais mais antenados do mercado fonográfico. Posso conversar com pessoas com 40 anos de indústria e que se mostram completamente animadas e empolgadas com as novas possibilidades! Tenho oportunidade de ver projetos grandiosos serem pensados, planejados e executados! Isso é muito mais do que um MBA, é história!

Talvez a grande mensagem que este post queira e deva passar é de que todos nós temos como ser tutores de outras pessoas! O conhecimento todos temos! Basta ter a disposição e disponibilidade para retransmitir às outras pessoas. Uma das coisas que mais me alegram ao escrever nesse espaço para meus 19 leitores é perceber que, de alguma forma, contribui para uma mudança de pensamento, para um crescimento pessoal, para poupar pessoas de erros e direcioná-los a um caminho mais seguro.

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, membro da Associação Cristã de Mídia, palestrante, colunista da Revista Consumidor Cristão e Revista Comunhão, consultor de marketing e torcedor à procura de um técnico para o Fluminense, alguém se habilita?.

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