Qual o seu estilo musical ou sabendo escolher um repertório para não arrepender-se depois!

Dias atrás recebi um jovem casal em meu escritório. Ela, uma cantora em início de carreira. Ele, um jovem e próspero empresário. O motivo da reunião: ouvir o repertório do primeiro trabalho da cantora e de alguma forma conhecer um pouco mais sobre o seu trabalho e uma possível contratação.

Experiências como essa são bastante raras em meu dia-a-dia ultimamente. Primeiro, pela própria ausência de tempo disponível e em segundo lugar, pela dificuldade em contratar um artista em início de carreira. Mas atendendo ao pedido de um grande amigo, abri um espaço na agenda para atendê-los. Confesso que tinha uma certa curiosidade de entender um pouco mais daquela jovem artista tão bem referendada por várias pessoas e amigos em comum.

No horário marcado, os dois chegaram no meu escritório. Depois das conversas triviais no autêntico quebra-gelo, procurei entender um pouco mais sobre o que aquela jovem cantora gostava de ouvir, suas referências musicais, artistas de preferência e coisas do tipo. De forma bastante clara ela me dizia que curtia artistas do tipo Mariah, Whitney Houston, Yolanda Adams, Darlene, outros artistas mais contemporâneos (…) e assim fomos falando do universo musical. Animei-me com a conversa e fui apresentando a eles algumas outras referências naquele estilo que eu também apreciava. Clicava na web um vídeo, selecionava um CD, um DVD de minha coleção e aos poucos o clima da conversa ficou bastante informal. Naquele momento eu já tinha muito bem definido o estilo que aquela jovem cantora gostava e que tipo de canções ela deveria gravar no seu trabalho de estréia.

A conversa foi avançando e fomos conferindo alguns vídeos da jovem cantora em eventos, igrejas e mesmo num programa de TV onde ela fez parte durante alguns meses com extremo sucesso. A cada performance ficava mais e mais cristalino para mim que tipo de música se encaixaria perfeitamente no perfil daquela artista. E quando já acreditava que o perfil estava bem definido, perguntei-lhe sobre o repertório que ela havia escolhido para gravar. Também perguntei-lhe sobre suas expectativas e, ainda, sobre os seus prazos de produção. A resposta foi imediata: “Precisamos lançar este CD até dezembro!” Fiquei impressionado com o prazo exíguo para a cantora iniciar sua produção, mas imaginei que tudo estivesse bem adiantado. “O produtor já tirou as músicas no meu tom. Os arranjos já começaram a ser feitos! Tudo indica que em mais 15 dias eu entro em estúdio para gravar!” Com esta informação imaginei que o projeto estivesse realmente na fase final, bastando apenas pequenos detalhes.

Com um pouco de surpresa pedi para ouvir o repertório. De pronto, ela sacou as canções e começamos a fazer uma audição música a música. Antes de falar sobre o repertório, vale a pena destacar um pequeno detalhe. O produtor musical é um amigo do casal. É alguém muito talentoso, também ele artista de sucesso, mas antes de tudo, um grande amigo do casal. Mas voltando ao repertório, fomos para a primeira canção (…) depois de poucos segundos, imaginei que ela estivesse me apresentando um outro projeto. Perguntei se aquela canção estava mesmo no repertório. Ela de pronto me respondeu: “Sim! Mas entenda, essa canção não está ainda finalizada! É só uma mix como referência!” (…) Entendi e prossegui acompanhando a canção.

Ao todo foram 9 ou 10 canções. Ao ouvir música a música, eu observava a reação da jovem cantora e de seu noivo. Ela de cabeça baixa, ele com um olhar distante parecendo que mais se preocupava com o trânsito de navios e lanchas da janela de minha sala de trabalho. Completando a cena, eu ficava só ouvindo, tecendo curtos comentários, de vez em quando respondendo a emails … confesso que o clima não era nada efusivo! A cada canção, a jovem fazia questão de dizer que aquela música sofreria mudanças, os arranjos seriam grandiosos e tudo mais.

Para poupar-lhes tempo, querido 44 leitores, chegamos ao fim da audição com a certeza de que aquele repertório era bom, mas nada adequado àquela artista! E dentro de minha sinceridade usual, fiz questão de perguntar-lhe à queima roupa se ela se via cantando aquelas canções. Se efetivamente ela era a mesma pessoa que na primeira parte da reunião me apontava animada para as músicas daquelas artistas que tinha como referência ou   se naquele momento ela era uma cantora que cantaria aquele tipo de música?

A resposta à minha pergunta foi de que ela não se via cantando aquelas canções mais intimistas! Que o que ela queria cantar de verdade eram canções grandiloqüentes, impactantes, empolgantes! Uma mistura de pop, rock com adoração e pitadas de canções no melhor estilão norte-americano cinematográfico! Ou seja, em nada semelhante ao repertório que acabávamos de ouvir. Mas como eles acreditavam piamente no talento do produtor, seguiriam cegamente aos seus conselhos acreditando que ele tivesse o caminho certo para se alcançar os objetivos.

Esta experiência serviu-me para meditar melhor sobre a importância da escolha certa de um repertório. Ainda mais, em se tratando de um projeto de estréia de uma jovem (e talentosa) artista! Neste caso temos vários aspectos a se analisar e comentar. O primeiro é o estilo musical. Todos temos o nosso estilo, nossas referências. Um produtor deve entender, respeitar e orientar o artista para o melhor estilo a se gravar. Esta conclusão pode se chegar imediatamente ou após muita pesquisa. Mas em ambos os casos, o estilo do artista deve ser respeitado! Não dá para colocar o Beto Barbosa para cantar Bon Jovi ou vice-versa. Cada um deve encontrar seu estilo e seguir seu caminho!

Outra questão neste caso é que não podemos NUNCA confundir amizade com trabalho! Nesta ilustração, o casal tinha uma amizade com o produtor. Certamente o viam como um artista talentoso. Curtiam suas músicas, suas composições e tudo mais. No entanto, aquele artista/produtor era uma pessoa e a artista era outra personalidade. Não dá para se tornar um clone só porque o original alcançou sucesso! Como já falei em outros posts, o produtor musical é um dos pilares para o sucesso ou fracasso de um projeto musical. Não há como confundir amizade com profissionalismo. São coisas bastante distintas!

Como havia dito linhas acima, o projeto estava quase finalizado. Restavam apenas alguns dias para a cantora entrar em estúdio. Ou seja, não daria para se recuar no projeto? O projeto deveria prosseguir e tentar remediar mais à frente? Não! Nada disso! O projeto só não tem mais recuo ou mudança de rota quando sai de fábrica, antes disso, mesmo que na masterização, tudo pode ser refeito, até mesmo voltar tudo ao início. A escolha do repertório pode levar meses … o importante é que o resultado final seja satisfatório! Esteja à altura das expectativas da artista e de seu público.

Confesso que depois da nossa conversa, não mais tive oportunidade de conversar com o jovem casal sobre o projeto do CD. Recordo-me que fui bastante enfático sobre a cantora gravar um outro estilo de repertório que fosse mais adequado às suas referências e gosto. Lembro-me que o semblante dela era um misto de alívio e de incerteza em como lidar com a reação de seu amigo/produtor pela mudança radical de todo o projeto do CD. Mas imagino que realmente fiz o certo naquele momento, pois não há nada pior para um jovem artista do que um projeto errado, ainda mais na sua estréia no mercado.

Então, você, jovem cantor ou cantora, preste atenção nesta dica! Converse muito com seu produtor. Mostre a ele todas as suas referências e elabore um repertório que te deixe à vontade para interpretá-lo! Nada de gravar este ou aquele estilo só porque está na moda neste momento! Lembre-se que você terá que cantar esse repertório por pelo menos, os próximos 12 a 24 meses em diante, portanto, não se martirize e foque num repertório que realmente o agrade antes qualquer outra pessoa.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, blogueiro e alguém que neste momento tem cerca de 900 CDs para audição abarrotando as estantes de sua sala. 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • JESSICA RODRIGUES

    24/11/2011 at 10:49

    Nossa… realmente um repertório ruim pode trazer decepções. Muito boa esta matéria, sou uma jovem cantora que estou planejando o meu primeiro trabalho e ler está matéria contribuiu muito para o meu conhecimento e crescimento profissional. Muito obrigada!

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