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Quando menos é mais ou falando um pouco sobre EP

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O maior sucesso do mercado fonográfico em 2012 foi um disco de apenas 4 faixas do cantor Roberto Carlos. Este tipo de projeto, chamamos de EP, que significa Extended Play, ou seja, é um disco mais extenso que um single e menor que um tradicional CD. Ancorado no hit “Esse Cara Sou Eu”, este projeto vendeu a impressionante marca de 2,5 milhões de unidades e figurou na lista de músicas mais executadas nas rádios do país durante semanas. Se você esteve no Brasil no fim do ano passado, eu duvido que passou imune ao refrão “Esse Cara Sou Eu …”

Na época do vinil, muitas gravadoras utilizavam a prática de lançar discos com apenas 2 faixas. Esse projeto tinha como objetivo apresentar de forma antecipada duas das principais canções do álbum do artista. Dependendo do impacto e performance do EP, as equipes de A&R e marketing faziam um ou outro ajuste, ou na melhor das hipóteses, intensificava ainda mais as ações de lançamento do álbum. Com a substituição do vinil pelo CD, essa prática caiu em desuso. Os CDs passaram a ser lançados no formato original, contendo em média 14 faixas.

O mercado fonográfico talvez seja uma das indústrias mais dinâmicas do planeta. As mudanças de hábito dos clientes é constante. O que é sucesso hoje, amanhã torna-se um perfeito artigo de museu. A volatilidade neste mercado atinge graus inimagináveis! E especialmente, ainda, é um mercado, uma indústria visceralmente influenciada pelas novidades tecnológicas. Muito mais do que uma mudança de hábito por parte dos consumidores, o fator determinante da substituição do vinil pelo CD deu-se em função da indústria de eletro-eletrônicos. Quando estes decidiram parar de fabricar as vitrolas e investir em aparelhos de reprodução de CD, ali estava determinado o fim do vinil. Neste momento temos algo semelhante acontecendo. Algumas montadoras de automóveis no mundo já aboliram a inclusão de um tocador de CD no sistema de sonorização de seus veículos. Os aparelhos de CD passam a ser substituídos por conexões HDMI ou afins. Se isto tornar-se padrão na indústria automobilística, aí definitivamente a transição entre mercado físico e digital será ainda mais rápida do que o esperado. As mudanças neste segmento são muito intensas!

Com o fortalecimento do iTunes no mundo, as gravadoras voltaram a trabalhar o conceito de singles e mesmo EPs digitais. Hoje em dia, boa parte das gravadora já utiliza a estratégia de lançar o single do álbum físico no formato digital com algumas semanas de antecedência. E aí surge uma nova tendência no meio físico por influência do mercado digital. As gravadoras hoje em dia estão voltando a lançar projetos no formato EP. Especialmente no Brasil, depois do avassalador sucesso de Roberto Carlos, todo o mercado mudou rapidamente os seus conceitos.

Antes de prosseguir neste texto, sendo redigido em meio a insistentes avisos sonoros estridentes no saguão de embarque do aeroporto de Brasília (haja concentração!!!), quero registrar que a sugestão para este tema partiu do amigo Alex Eduardo, editor do site Casa Gospel. Registrada a devida fonte deste texto, seguimos com mais algumas informações…

Um dos maiores problemas de um A&R no momento de fechamento e definição de repertório com um artista é justamente manter firme a posição quanto ao número de faixas a serem gravadas. Se depender de alguns artistas, o CD seria uma espécie de Ben Hur musical distribuído em 3 ou 4 discos, uma verdadeira epopéia! Particularmente acho que 10 faixas são o ideal para um disco. Como todos sabem, um disco comporta até 73 minutos de áudio, mesmo que muitos artistas acreditem que isso é lenda e que é possível espremer um pouco mais como se o disco fosse uma espécie de mala retornando de Orlando … sempre cabe mais um pouquinho … não! Não é! Mesmo comportando 73 minutos, penso que manter hoje em dia alguém com a devida atenção para um CD por mais de 60 minutos é algo absolutamente impensável. Então, por que arriscar e, principalmente, gastar além da conta no projeto de produção de um CD com 14, 16 faixas?

Já fiquei sabendo que uma determinada gravadora gospel estabeleceu como padrão, a gravação de 10 faixas em cada projeto. Caso o artista insista em incluir mais músicas, a conta fica para o próprio artista. Sinceramente acho uma posição um tanto radical, mas de algum modo é bastante coerente essa decisão. Se um artista não consegue passar sua mensagem em 10 músicas, será que irá conseguir em 12, 14 … 16 faixas? Acho impossível! Ainda nesta questão, é importante que o artista entenda que o mercado está em franca transformação e de que o controle orçamentário de um projeto é tão ou mais importante do que o planejamento estratégico de marketing. Então, gravar mais uma faixa só para agradar ao compositor ou porque a música é ‘bonitinha’ … É algo impensável hoje em dia.

Os hábitos de consumo no meio fonográfico estão mudando radicalmente. Com a chegada do mercado digital, a facilidade de compra permite que o consumidor opte em comprar faixas, em lugar de um álbum completo. E neste caso, o artista de uma música só corre um sério risco de vender tão somente o single e se deparar com o ‘encalhe’ das demais faixas. Tentando exercitar meu lado futurólogo, creio que cada vez mais os artistas lançarão EPs, sejam digitais ou físicos. Uma das minhas apostas é que o artista diminuirá o tempo entre o lançamento de projetos inéditos que hoje gira em torno de 18 a 24 meses, para períodos de 6 a 10 meses.

Uma das principais vantagens do EP é justamente ter um projeto enxuto, com músicas realmente fortes! Caso a tendência de lançar-se novos discos em menos tempo, a possibilidade de termos singles de divulgação também aumenta bastante. Hoje em dia, boa parte dos projetos lançados tem apenas um único single – por questões de qualidade e principalmente de fôlego financeiro por parte das gravadoras e artistas. Se o EP for lançado a cada 6 meses, por exemplo, é bem provável que o artista tenha um single sendo executado para cada novo semestre. Ou seja, a vitalidade de seu trabalho aumenta consideravelmente.

Particularmente sou bastante favorável ao lançamento de EPs, mas também reconheço que esta é uma mudança cultural bastante sensível que afeta não só os consumidores, mas também os lojistas e os próprios artistas. Um primeiro passo já foi dado e agora cabe somente saber quem irá seguí-lo. Observemos!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, colecionador de bikes em miniatura, tricolor, entusiasta das inovações do mercado fonográfico.