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Reconhecimento sem investimento é ter fé demais!

Semana curta, já começando com um super bem vindo feriado logo na segunda-feira e logo no meio da agenda, uma viagem para a capital goiana onde participarei da segunda edição da Gospel Fair, evento que reúne alguns dos principais players do mercado gospel nacional em diferentes áreas de atuação. E depois de Goiás, um pit stop rápido no Rio de Janeiro e já no domingo partirei para o Rio Grande do Sul onde participarei da Festa Nacional da Música na cidade de Canela. Ou seja, serão dias de muita correria, muitos encontros, reuniões e quem sabe, oportunidade para a criação de novos textos para o blog.

Na edição da Revista Veja (08/Out) o cantor cearense Wesley Safadão, um dos fenômenos de popularidade do momento com shows abarrotados em todo o país, comenta em uma pequena entrevista exclusiva sobre o valor de seu cachê que hoje está entre os maiores do Brasil. De forma muito tranquila ele destaca de que sua produção de shows em nada fica a dever para os grandes astros e de que recentemente ele investiu mais de 1 milhão de reais em equipamentos, além de contar com muitos músicos, bailarinas, um equipe enorme de apoio.

Uma das queixas dos artistas do universo gospel é justamente o tratamento diferenciado que recebem dos contratantes, principalmente prefeituras, em se tratando dos valores de cachês. Muitos destes artistas fazem questão de destacar que em contraponto aos valores tímidos de contrato, os shows de artistas evangélicos costumam ser os de maior apelo e presença do público. E isso, em parte, é verdade! Já estive em festas de cidades onde os shows de música gospel reuniram maior público do que sertanejos ou roqueiros. Além disso, os shows de música gospel geralmente são absurdamente mais ordeiros, menos danosos ao patrimônio público e demandam menores investimentos em mídia.

A grande questão neste assunto – e que nunca é mencionado pelos artistas gospel – é a abissal distância entre a qualidade de produção de um show do segmento religioso e dos seus congêneres do secular. Enquanto os sertanejos e artistas populares investem em palcos cinematográficos, carretas, aparelhagens de som, vídeo e luz, bailarinas, cenografia e tudo mais, os artistas do meio evangélico seguem a dinâmica do minimalismo artístico, onde a própria presença e um discurso emocionante do artista já são mais do que suficientes para garantir o sucesso do evento.

Jamais podemos incorrer no erro de comparar eventos religiosos com seculares, mas não atentar para alguns detalhes nesta área acarreta distorções e, sem dúvida, atrapalha num maior e melhor reconhecimento e valorização por parte dos contratantes. Em primeiro lugar, é fundamental definir as expectativas de um evento. Vamos levar em consideração de que a partir de agora iremos tratar apenas dos shows realizados para prefeituras. Quando uma prefeitura contrata um show ela está preocupada tão somente em entreter sua população. Geralmente a prefeitura não tem um estilo musical único de sua preferência e precisa contemplar os diferentes públicos que compõem seus moradores (e, principalmente eleitores!). Então nestes eventos temos atrações dos mais variados gêneros, do pagode ao clássico, do sertanejo ao rock e, cada vez mais comum, do público católico ao evangélico. No entanto, independente do estilo musical, o objetivo destes eventos é tão somente entretenimento.

O grande problema é que muitos artistas do meio gospel querem cada vez mais estar presentes nos eventos de prefeitura e garantirem assim bons cachês, porém não observam este detalhe, ou seja, de que o motivo da presença deles nestes eventos é basicamente promover uma ação de entretenimento e como tal, oferecer ao público presente não um culto, mas um show. É óbvio que espera-se de um artista religioso muito mais do que simplesmente apresentar uma boa música, mas daí a transformar o palco num púlpito onde o artista prega por longos minutos e diante de uma platéia eclética, aí já é falta de bom senso mesmo!

Entender a real expectativa do contratante é um passo importante para que a avaliação da apresentação do artista seja positiva.

Entendendo esta expectativa, o artista precisa ‘entregar’ ao contratante e ao público um evento realmente de qualidade e atraente. E é justamente nesta questão que os artistas religiosos despencam na comparação com o show business secular na mesma proporção de nossa moeda perante ao dólar. Excetuando-se André Valadão, DJ PV e mais um ou outro gato pingado gospel poucos são os artistas do segmento religioso que investem na qualidade de suas apresentações. A esmagadora maioria dos artistas do segmento muito mal se contentam em levar uma banda completa nos seus shows para prefeituras. Não há preocupação com conteúdo para os telões, repertório adequado para grandes públicos, efeitos especiais, programação de luz, e muitas vezes a banda parece que foi acordada às pressas para subir ao palco, sem tempo para vestir um figurino legal. Já estive em evento que o músico se apresentava com um chaveiro repleto de 20 chaves penduradas, além de um Nextel reluzente no cinto. Triste cena!

Seguindo com os exemplos, já tive o desprazer e vergonha alheia de assistir a um show promovido por uma prefeitura do Estado de São Paulo onde o artista gospel teve a cara-de-pau-ungida de se apresentar com voz e violão, quando na verdade, o contratante pagou por um show completo e cachê de mega produção. O palco deste evento era daqueles gigantes, cheio de movie lights, mega estrutura de som e vídeo e onde durante a semana se apresentariam vários artistas do primeiro time da MPB em diferentes estilos. A distância entre o show gospel e os populares foi gritante! A ponto do prefeito chamar o pastor-presidente do conselho de pastores local para uma conversa ao pé-do-ouvido questionando se aquele era mesmo o show que a classe havia tanto pleiteado à prefeitura. Vergonha Alheia – Parte 2. O pior disto tudo é que depois já no backstage o artista suando em bicas verdadeiramente achava que havia feito um grande show. E pela reação da plateia antes e depois do show a impressão era realmente de que a noite havia sido fantástica! Diante deste fato fiquei na dúvida se o público havia gostado do show porque não tinha outras referências ou porque o artista realmente era tão carismático a ponto de atender às expectativas. De qualquer forma, o público ali presente era 99% formado por evangélicos, ou seja, o evento tornou-se puramente entretenimento gospel e não atingiu a objetivos mais nobres de evangelizar não-convertidos.

Muitos artistas do meio gospel já têm em seus currículos a gravação de DVDs. No meio sertanejo, em especial, e na maior parte dos artistas populares de outros gêneros, o DVD serve como uma material de apresentação do ‘show de estrada’. E é impressionante a capacidade destes artistas em transformar a super produção de um DVD no show itinerante. Em média, 80% do cenário e estrutura do DVD segue para a turnê pelo país. Já no meio gospel, a esmagadora (pra não dizer totalidade) maioria dos projetos de DVD resumem-se a aquela única noite de gravação. Isso soa meio como a estória da Cinderela, em que tudo acaba à meia noite transformando uma linda carruagem em abóbora. É o que acontece com os artistas do segmento gospel … planejam uma mega produção para a gravação do DVD e tudo ali começa e termina naquelas pouquíssimas horas. Do ponto de vista de investimento, estes projetos são uma perda megalomaníaca de dinheiro, uma espécie de ‘prejuízo ostentação’. Isso para não falar em determinados artistas que investem em DVDs como se fossem a realização de um sonho e depois de gravado, abandonam o projeto de lado, alcançando vendagens, divulgação e alcance pífios.

É importante que os artistas do segmento gospel revejam urgentemente suas expectativas e principalmente suas atitudes. Se os artistas querem melhorar a relação com os contratantes seculares de shows, devem imediatamente investir na qualidade da produção dos shows que levam para a estrada. Também devem investir urgentemente em profissionais que cuidam da parte de negociação e agenda. Já fui procurado por empresários do show business se queixando da qualidade (péssima!!!!) do atendimento da assessoria de alguns pop stars do meio evangélico. Inclusive alguns destes contratantes e até mesmo prefeituras simplesmente desistiram de manter relacionamento com o meio gospel porque se frustraram e se irritaram inúmeras vezes. É fundamental que o mercado de shows gospel profissionalize-se o quanto antes oferecendo uma contrapartida à altura das expectativas. Somente assim, os contratantes irão investir no segmento e dar o devido valor. Quem quer ser respeitado, sempre deve fazer-se respeitado. Simples assim.

Em tempo de crise, jacaré é tronco.

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, peladeiro de fim de semana e alguém que torce pela mudança urgente dos rumos da política e economia de nosso país.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

3 Comments

  • Lex Luthor

    26/11/2015 at 10:54

    Muito bom! Quando o cantor tem uma banda top e boas músicas você até dá um desconto… mas sim, é necessário incrementar mais ainda mais dependendo da duração do Show fica cansativo!
    O Show do Justin Timberlake No rock in rio – que é super profissional- ele dançou, cantou , colocou o povo pra pular teve telões e iluminação profissional ainda teve momentos cansativos imagino um show gospel para não “gospeis”

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