Reflexão: Você sabe vencer?

Torres,-1970

Ninguém esquece: final da Copa do Mundo, de 2002, depois da derrota na Copa anterior, todo o país torcia por mais um título. Fim de jogo: liderado pelo capitão Cafu, um time experiente derrota a poderosa Alemanha e leva mais uma Copa.

É a glória: como capitão do time vencedor, Cafu se prepara para o apogeu de sua carreira.

É a hora de escrever para sempre o seu nome na galeria dos grandes heróis esportivos de todos os tempos.

Naquele momento, 1,1 bilhões de expectadores estavam de olho nele, observando cada gesto do grande campeão.

Intimamente, muitos se perguntavam: “o que ele fará?”

Criará algo emblemático como fez Bellini ao inventar o gesto de erguer a taça em 58?
Será um retrato da elegância como foi Carlos Alberto, na épica conquista do Tri em 70?
Ou preferirá repetir a garra de Dunga, no tetra de 1994?

Nada disso: diante da oportunidade que a história lhe reservou, Cafu preferiu falar para os seus.

Esticou sua camisa da seleção, para que nela escrevessem uma “homenagem” ao bairro proletário onde cresceu. Pra completar, ao levantar o símbolo do triunfo coletivo de tantos jogadores e profissionais da equipe, ele dedicou a Taça de Campeão do Mundo a sua mulher…

Para um jovem apaixonado ou um retirante saudoso de sua terra, um gesto compreensível.

Mas para um capitão da seleção campeã do mundo, uma demonstração de despreparo e incapacidade que nem o tempo há de apagar. (Aliás, às portas de mais um Mundial, a mídia trata de reprisar o episódio, mostrando que este case permanecerá por muitos anos cobrando sua fatura ao ex-jogador, que a cada entrevista é convidado a se explicar.)

Um momento, um gesto infeliz: uma vida inteira pra se explicar…

Cafu não foi capaz de entender o papel que desempenhava: mostrou-se pequeno num momento de grandeza, e ainda deixou no ar uma ponta de egoísmo, ao não compreender que se apropriava de algo que não lhe pertencia integralmente: a honra da vitória.

O capitão da seleção brasileira de 2002 não está sozinho na galeria daqueles que não souberam ocupar o lugar que lhes era destinado.

Edwin Buzz Aldrin, considerado por todos o mais completo astronauta do projeto Apollo XI, era a escolha natural para comandante da nave e para o papel de “primeiro homem na Lua”. Mas acabou sendo preterido por Neil Armstrong muito mais por sua personalidade do que por motivos técnicos. Dizia-se que o eloqüente, culto e vaidoso Aldrin chamaria pra si todos os louros da vitória, esvaziando a noção de projeto coletivo, o que prejudicaria os interesses da agência espacial.

A vida é assim: dos campos verdes do Japão às monótonas planícies lunares, a incapacidade de lidar com a fama tem feito vítimas em todos os setores.

No mercado da música, cheio de holofotes, não é diferente.

Lembro de uma talentosa cantora, de voz espetacular, que se tornou motivo de piada porque, dentre outras coisas, reclamou que “o avião decolou sem esperar por ela”. Ou de uma banda da periferia que, diante da correria e sem assistente, virou-se para o motorista da van e sacramentou: “Pega esse peso aí parceiro: a gente não carrega malas”. (Tem razão, quem eles pensam que são? John, Paul, George e Ringo? Que carregavam seus amplificadores quando já eram sucesso mundial nos Beatles?)

A verdade é que nem a arrogância e nem a falsa humildade são atitudes adequadas pra lidar com o sucesso: é preciso saber vencer.

E saber vencer não é se apequenar.

Saber vencer é ser capaz de responder de forma adequada às expectativas de quem te fez um referencial, evitando uma postura infantil ou despreparada. Sabe vencer quem ensaia, se dedica, estuda, trabalha por um resultado sem colocar a culpa no sol, na chuva, ou na gripe.

Saber vencer é subir no palco consciente do papel que lhe cabe, é ser o show que esperam que você seja, é usar o talento que Deus te deu.

Mas cuidado: não é só isso.

Saber vencer é também respeitar o saber do fotógrafo, da figurinista, do revisor. É atender com atenção ao fã ardoroso, é ser paciente com o menor, com o mais fraco, com o menos capaz.

Saber vencer é não esmagar o adversário, mesmo quando se pode fazê-lo. É esperar pela foto, pelo computador e pelo software. E sempre sorrindo!

Saber vencer é não se achar o centro do universo, mesmo que você tenha 100 milhões de seguidores no Twitter — se é que isso importa.

Saber vencer é, enfim, saber o que fazer com o talento que Deus te deu.

E se além de tudo isso você ainda conseguir carregar a própria mala, aí então você vai longe…

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Carlos André Gomes é designer gráfico e já foi à Lua duas vezes só esta semana.

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