Home Mercado Fonográfico Reinventando estratégias. Mudando prioridades. Eis que tudo se faz novo!

Reinventando estratégias. Mudando prioridades. Eis que tudo se faz novo!

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Quarta-feira de cinzas. Somente agora, numa manhã nublada na Região dos Lagos no Rio de Janeiro pego meu computador para tentar escrever algumas linhas para nosso laureado blog. Nos últimos dias muitos temas vieram à mente … alguns ainda permanecem no meu HD pessoal, outros se perderam na minha memória e sinceramente espero que um dia voltem para contribuir com a diversidade e qualidade dos assuntos abordados por aqui. Por mais que eu tente me distrair, distanciar-me do dia a dia da música e especialmente do mercado fonográfico, confesso que vivo em uma relação tão impregnada que fica difícil fazer ‘cara de paisagem’. Em função dos anos de mercado – já partindo para minha vigésima oitava primavera – tenho condições de analisar alguns fatos do ponto de vista privilegiado. E será a partir de algumas observações que gostaria de tecer as próximas linhas, que sinceramente espero sejam capazes de manter a atenção dos nossos 69 (seriam 71?) leitores assíduos.

Com a mudança do formato de consumo da música em todo o mundo através da transição do físico para o digital, observamos muitas outras novidades além da decadência do CD ou o crescimento das plataformas digitais. Mudaram também as estratégias das gravadoras, o relacionamento entre o consumidor e artista, o modelo de produção artística, o marketing, expectativas, a relação artista e gravadoras, enfim, numa verdadeira tsunami tudo que antes era tido como ‘imexível’ foi revolvido e tornou-se diferente … e quando digo diferente, é muito diferente mesmo!

Vamos nos ater neste momento a uma destas revoluções. Tenho pensado (e falado!) muito sobre a mudança no perfil do cast artístico em tempos digitais. Há algumas semanas atrás fiz uma pesquisa sobre os 10 maiores artistas do cast na gravadora onde trabalho do ponto de vista de resultados em faturamento e relevância digital. Para minha surpresa (ou nem tanto assim) dos 10 mais importantes artistas por estes critérios, incríveis 9 artistas possuíam carreiras artísticas relativamente recentes com 3 a 4 discos lançados até então. De fato, todos estes 9 artistas efetivamente tiveram maior destaque para o grande público a partir da relação com a gravadora atual, ou seja, são sucessos recentes, entre 5 a 7 anos de estrada.

Outro dado bastante interessante sobre esta pequena pesquisa: estes mesmos 9 artistas, coincidência ou não, são todos jovens, na faixa entre 20 e 30 anos com algumas poucas exceções. Com isso chegamos à conclusão de que estes jovens artistas também fazem parte do contingente de pessoas que se utilizam das ferramentas, aplicativos e redes sociais como qualquer jovem ou adolescente do país. E esta análise apenas corrobora para a tese de que não se pode falar o que não se vive. Em suma, estes artistas vivenciam no dia a dia as novas tendências, tecnologias, ferramentas e tudo de novo de uma forma muito natural e isso repercute diretamente em seu posicionamento artístico. Para os artistas com um pouco mais de idade e que não estão tão familiarizados com o ambiente tecnológico a urgência em se adequar e ‘a correr atrás do prejuízo’ (nunca entendi esta expressão, não deveria ser correr atrás do lucro? mas enfim …) é uma questão de sobrevivência e não se ele entende ou não entende, se gosta ou não gosta, como se fossem opções reais. Não! Simplesmente ou o artista se adequa e passa a entender e agir digitalmente ou vai aos poucos ver sua carreira minguando em relevância pouco a pouco (às vezes nem tão pouco assim, pode se surpreender com a velocidade desta transição).

Voltando ao primeiro ponto que apontei, sobre as carreiras curtas que em pouco tempo tornaram-se referências no atual momento do mercado fonográfico, vale ressaltar que vivemos um momento único na indústria da música. Nunca vivenciamos uma fase de tantas oportunidades para o surgimento de novos artistas, novas propostas musicais, estilos e sonoridades. Se formos recuar aos anos 80, 90 e mesmo 2000, os grandes nomes da música gospel resumiam-se a um punhado de não mais do que 10 artistas. Vivemos neste momento a fase dos artistas-arrasa-quarteirão, um seleto grupo dos grandes vendedores de discos agrupados em 2 a 3 estilos musicais. Esta “ditadura” foi estremecida apenas ali pelos idos dos anos 90 com a chegada dos ministérios de louvor que reverteram a tendência única da música pentecostal e o pop gospel. Nomes como Diante do Trono, ministério Paixão, Fogo e Glória (David Quinlan), Toque no Altar, Ludmila Ferber, entre outros, surgiram exatamente neste período e davam a sensação de que seriam um novo modismo com grandes chances de permanecer no mainstream gospel tupiniquim. Então, excetuando-se esta fase mais democrática, a música gospel manteve-se atrelada a nomes tradicionais como Aline Barros, Cassiane, Shirley Carvalhaes, Rose Nascimento, Cristina Mel, artistas consagrados com muitos anos de carreira e discografias de muitos e muitos álbuns.

E aí, eis que o mundo digital chegou e com ele uma série de dogmas foram caindo como um castelo de cartas … uma a uma, as leis que regiam o segmento da música, especialmente a música gospel foram caindo em desuso numa velocidade incrível a ponto de atingir várias pessoas, lojistas, mídias, artistas e gravadoras de forma intensa e profunda. A imagem de um tsunami nos moldes do que vimos na Ásia anos atrás é a mais perfeita representação do momento que vivenciamos na indústria fonográfica no Brasil e no mundo.

Para as gravadoras, investir em jovens artistas era algo dispendioso em termos de investimento, demandavam bastante paciência porque eram projetos de médio e longo prazo e, sem qualquer garantia de retorno, ou seja, artistas jovens eram apostas difíceis de serem bancadas pelas companhias de música. Com isso, vivemos por muitos anos uma verdadeira escassez de novos nomes no meio gospel. Tive a oportunidade de descobrir, lançar e investir alguns dos artistas que anos depois tornaram-se grandes em nosso meio, mas confesso que não fiz isso por mérito ou uma visão altruísta, poética e lúdica … muito pelo contrário, para concorrer com as gravadoras que colocavam cheques vultosos na mesa de negociação perante os artistas, não tive muitas opções porque sempre estive à frente de gravadoras que não seguiam esta forma de trabalho. Com isso precisava de outros argumentos para convencer os artistas a optarem por nossa empresa e muitos destes, eram jovens promessas que não traziam interesse algum para as grandes gravadoras. Recordo-me que ali pelos anos 90 surgiram de todos os cantos, gravadoras no meio gospel. Um empresário que vendia muitos carros aos artistas do meio gospel, observou que ali corria muito dinheiro e do dia para a noite criou uma gravadora. Outro empresário atuava na área de construção civil e começou a vender muitas casas e apartamentos para os artistas de música gospel. Resultado: além de vender casas ou dito cujo resolveu montar seu próprio selo. E estes empreendedores ajudaram a inflacionar o meio gospel oferecendo carros, casas, muito dinheiro para ter os artistas em seu ‘abençoado’ cast artístico. Com isso, vivemos um período de leilão entre artistas e gravadoras, com muito dinheiro circulando de um lado para o outro, só que sempre envolvendo apenas os ‘medalhões do mundo gospel’, para os jovens artistas não sobrava nada, nada mesmo!

Felizmente o momento digital dá espaço para diferentes estilos musicais, diferentes nomes, diferentes propostas artísticas. Vale muito a pena fazermos um simples exercício para descrever melhor este cenário. O jovem goiano, empreendedor e talentoso DJ PV surgiu no meio gospel nacional com maior destaque a partir de sua entrada na Sony Music. E ele foi ‘descoberto’ a partir de seus vídeos com grande número de views no canal YouTube. Antes disso, a música eletrônica gospel era um estilo de poucos iniciados. Com o advento do mercado digital, o estilo eletrônico assumiu posição de destaque entre os jovens e hoje DJ PV é praticamente unanimidade nos eventos voltados aos jovens. O rapaz saiu do gueto diretamente para o line up dos grandes eventos de música gospel no país.

Outro artista que vivenciou o boom do meio digital é justamente o grupo Preto no Branco. Em 28 anos de carreira nunca vivenciei um projeto tornar-se sucesso nacional em tão pouco tempo e isto deve-se especialmente ao ambiente digital. Não canso de comentar que muitas rádios importantes do meio gospel passaram a executar as músicas do Preto no Branco apenas depois deles terem milhões e milhões de visualizações no canal de vídeos. Ou seja, eles são artistas essencialmente digitais que subverteram a ordem natural do reconhecimento do público e do mercado em si. Hoje, o Preto no Branco supera 700 mil followers em seu canal de vídeos na VEVO Brasil, além de serem a música mais executada nas rádios do segmento em 2016 e ser o nono vídeo mais assistido na mesma VEVO Brasil em 2016 (somente 2 artistas brasileiros participaram do Top10 em 2016).

Neste novo momento nos deparamos com o surgimento de tantos nomes de destaque no meio gospel que me arrisco a indicar apenas alguns porque a lista seria enorme. Vale listar alguns destes novos nomes que no momento se destacam na música gospel advindos do ambiente digital: Marcela Taís, Luma Elpídio, Gabriela Rocha (maior artista gospel na VEVO Brasil em número de views), Priscilla Alcântara, Laura Souguellis, Gabriel Guedes, Coral Kemuel, André e Felipe, Fornalha, Os Arrais, entre outros.

Enfim, particularmente creio que ainda teremos muitas mudanças de estratégias, prioridades e ações no meio fonográfico nos próximos anos, até mesmo nos próximos meses já que este é um ambiente de mudanças profundas e muito rápidas. Vale lembrar que mesmo no meio digital estamos vivendo a segunda fase deste universo, onde a queda do download é absurda e constante em contraponto ao crescimento vertiginoso do streaming. A boa notícia neste momento é que está aberta a temporada de ‘caça aos jovens e promissores talentos’… cada vez mais as gravadoras (que estão atentas ao novo ambiente) estarão abertas a investir no novo. É fundamental que os artistas já tenham um DNA digital, pois estes certamente se destacarão em meio à multidão. Para os ‘medalhões’ a fase é de atenção e reciclagem imediata. Há uns 3 anos atrás busquei contratar um grande cantor do meio gospel com uma proposta bastante agressiva à época. O tempo passou, não conseguimos chegar a um acordo e hoje, este mesmo artista segue à deriva em busca de um novo contrato e saiu em definitivo de meu radar, ou seja, a fila andou …

Pra bom entendedor …

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, consultor de marketing e alguém que acredita na força da boa música, mesmo em meio aos modismos que insistem no contrário.

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