Se o Phil Collins errou, você também pode errar!

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Ao longo de nossa vida vamos formando nosso caráter, nossas opiniões e uma forma própria de enxergar tudo que está em nossa volta. Algumas questões são inegociáveis, fazem parte da formação mais íntima do ser humano e serão presentes durante toda a vida do indivíduo. Longe de querer mostrar-me como um velho turrão, existem algumas questões que para mim também são muito difíceis de mudar a forma de pensar e, sem dúvida, o fato do artista se auto-produzir é algo que confesso, faz parte deste rol de assuntos inegociáveis.

Dias atrás ao pesquisar alguns blogs e sites sobre o universo da música e da produção musical, encontrei um site que comentava sobre a tentativa frustrada de Phil Collins de produzir-se num projeto de super clássicos da Motown, o CD “Going Back”.

Uma das questões que me chamaram atenção ao texto foi justamente o título do texto que dizia mais ou menos assim: “Se até Phil Collins errou nessa, ninguém está livre desta armadilha”. O texto prosseguia contando toda a trajetória do projeto que consistia em regravar os grandes sucessos da gravadora que marcou a história do mercado fonográfico mundial.

Phil Collins tinha a intenção de recriar o som da Motown, o que por si só já é um tremendo desafio. Neste momento vale a pena ressaltar que numa época onde a tecnologia era muito limitada o som que era produzido nos projetos da Motown realmente eram surreais. Mas voltando ao projeto, Collins decidiu utilizar-se do maior número de músicos da época, instrumentos e equipamentos, tudo com o objetivo de recriar o ambiente original.

Para assessorá-lo, Phil Collins convidou o engenheiro Yvan Bing, amigo de outros projetos de sucesso e o profissional que deveria recriar o som da antiga gravadora. E como qualquer produtor musical, Phil Collins estabeleceu suas metas, cronograma, agendou músicos e coordenou todo o processo de produção do CD.

Como qualquer projeto musical, no fim das contas o que vale a pena mesmo é justamente o resultado final. Não importa se usamos este ou aquele microfone, se gastamos 10 ou 300 mil reais, se os músicos são de Praga, Nova Iorque ou de Nova Iguaçu. A avaliação sobre o sucesso do projeto será realizada através da reação do público já nos primeiros contatos com a música.

Mas voltando ao projeto do Phil Collins, o que os críticos observaram é que a voz do intérprete simplesmente não se encaixava na proposta do projeto. O resultado ficou parecendo um karaokê, com os vocais soando distantes, sons desconexos, até mesmo soando algo meio cômico. Uma revista especializada chegou a elucidar o porquê do resultado desastroso deste projeto. Simplesmente Phil Collins decidiu manter os takes originais dos vocais de seu estúdio caseiro.

Mas por qual motivo, Phil Collins optou por essa decisão? Depois de tanto tempo de trabalho e pesquisa, após a contratação de músicos famosos, uma peregrinação por diferentes estúdios e um excelente trabalho de engenharia de áudio, por que não gravar os vocais novamente e perder alguns dias a mais no projeto?

Só podemos concluir que o produtor perdeu a perspectiva maior do projeto. E este é um antigo problema que aflige muitos produtores/artistas que precisam se dividir na dupla função e em prioridades distintas. Neste caso fica bastante evidente que faltou uma opinião de uma terceira pessoa.

Sempre deixo muito claro aos artistas em início de produção que tão importante quanto a escolha de repertório é a decisão sobre o produtor. E neste caso, friso ainda que não creio em artista que se auto-produz!

Já tive oportunidade de trabalhar com pessoas que gostavam de ‘jogar nas onze’! A pessoa queria dirigir mega projetos, pregar, compor, analisar repertórios, decidir sobre capas de CDs, cantar, sapatear, dirigir clipes, administrar o plano de marketing, a área comercial, em suma, além de empacar todos os processos, o resultado era sempre muito aquém de seu potencial. Tem uma frase que costumo repetir neste caso específico: “Narciso acha feio o que não é espelho!”, ou seja, num bom português, tem gente (e artista também!!) que não consegue lidar com opiniões de terceiros.

Além do artista/produtor com espírito democrático de Hugo Chavez, há uma outra categoria com resultado similar e desastroso, o artista/produtor com espírito de “Ainda Falta”, que podemos exemplificar como aquela pessoa que não se contenta NUNCA com o resultado final demonstrando uma insegurança absurda! Para essa pessoa sempre ainda está faltando alguma coisa para atingir a perfeição, ou seja, nunca o projeto chega ao fim. Quando esse artista/produtor entrega seu projeto (devidamente com todos os cronogramas absolutamente estourados!!!) a estafa é tão grande que ele perde todo o entusiasmo de trabalhar artisticamente o projeto.

Nos projetos onde o artista quer cuidar de tudo, o resultado quase sempre fica abaixo da capacidade da produção ou da interpretação artística. Então se você é um artista que está prestes a começar um projeto de gravação, analise as possibilidades de contar com um produtor musical de qualidade. Se a grana não está sobrando e você realmente confia em sua capacidade de produção, no mínimo, convide pessoas (não necessariamente seus parentes ou vizinhos) para ajudarem na crítica ao resultado do projeto. Às vezes, a economia que você fará ao contratar um profissional experiente se transformará em desperdício por finalizar um projeto de baixa qualidade! Pense nisso!

Termino esse texto com a máxima tão surrada de que compositor é compositor, artista é artista e produtor é produtor.

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Mauricio Soares, publicitário, jornalista, A&R zen cristão com enorme capacidade para lidar com opiniões divergentes, ou melhor, quase sempre!

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