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Seção Cartas do Observatório – “Sou Ministro de Louvor e quero seguir uma carreira artística!”

 

Senhor Observador, sou ministro de louvor de uma igreja no interior de São Paulo. Lido com música desde minha adolescência. Sempre sonhei em viver de música. Há alguns anos fiz umas aulas de canto, mas parei porque já sabia demais. Canto na minha igreja de segunda a segunda. Minha expectativa é de que em breve meu pastor me contrate como músico em tempo integral. O que seria excelente! Também componho umas músicas e em breve vamos gravar um CD. No repertório de minhas apresentações sempre coloco umas versões internacionais, umas músicas dos artistas do momento e quando dá, incluímos umas músicas nossas. Você acha que posso pensar no futuro em viver essencialmente de música?Devo criar desde já um nome artístico?  – André “Levita” da Silva

Prezado André da Silva,

Suas dúvidas são comuns a muitos outros postulantes a mega-líderes de louvor em nosso país. Geralmente vocês começam a se envolver com a música na adolescência como um hobby, afinal, esporte não é o ponto forte da grande maioria dos músicos. E não existe melhor lugar para desenvolver o dom musical do que uma igreja evangélica. Boa parte dos ministros de louvor começou a cantar e a tocar em reuniões de oração com 5, 6 pessoas. Depois passaram para as células, reuniões nos lares, encontros de adolescentes, de jovens até que um dia, foram convidados a tocar no domingo pela manhã na igreja. Daí para o culto principal no domingo à noite foi uma longa trajetória, mas como nada é fácil, você começou no back vocal ao lado de 12 outros cantores dividindo apenas 3 microfones. Cultos e mais cultos depois, congressos após congressos, um dia, o dirigente de louvor precisou se ausentar e você foi convocado a assumir o posto mais alto do louvor em sua igreja. O seu dia chegou e você se sentiu o próprio Valadão de Botucatu!

Como você nos conta em sua carta, seu grande objetivo é ser um músico em tempo integral na sua igreja. Essa moda foi bastante presente nas cercanias das igrejas evangélicas pelos idos dos anos 2000. Igreja chique, igreja profética, igreja que realmente se destacava entre as demais em sua cidade era aquela que tinha os melhores músicos, os melhores equipamentos e, sucesso dos sucessos, tinha CD gravado. E esses músicos não poderiam ser voluntários, tinham que ser contratados! Esse modismo alastrou-se por todos os cantos do país como bordão de novela das oito. Até que num determinado dia, um destes músicos em tempo integral simplesmente quis abandonar a vida comunitária e almejou seguir em carreira solo. Catástrofe total! Apocalipse em chamas! Terremoto do México! Crash na Bolsa de Nova Iorque! E como numa tsunami que veio arrastando tudo pelo caminho, outro músico pediu pra sair… e mais outro, e mais outro e outro… e, pior, muitos destes entraram na justiça (dos homens) trabalhista atrás de seus direitos. Resumo da história: hoje em dia, boa parte dos pastores voltaram ao bom e velho voluntariado no tocante aos músicos em suas igrejas.

Portanto, se você pretende ser um músico profissional, o primeiro passo é estudar! Aprimore ao máximo o seu conhecimento técnico! Busque conhecer os meandros dessa atividade. Invista em relacionamentos que poderão trazer bons resultados para seu crescimento pessoal e profissional. Entenda que igreja, culto, momento de louvor deve ser algo prazeroso, um momento entre você e Deus e jamais um compromisso profissional. Não há melhor sentimento do que você doar seu dom e talento ao Senhor sem receber nada em troca. Se você tem talento, disposição, paciência, persistência e pretende seguir uma carreira artística comece cantando nas igrejas de sua região. O caminho é longo, mas nessa estrada, pouquíssimos são os atalhos.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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