SHOPPING CART

Selo digital, estratégias e outras questões do universo digital

Há quase dois anos venho desenvolvendo junto à minha companhia o conceito de um selo digital especificamente para o conteúdo cristão. Em paralelo, a área secular também vem trabalhando no mesmo sentido e neste período já é uma importante linha de negócios na operação local servindo como modelo para as filiais do grupo em outros país. Temos inclusive alguns artistas que hoje fazem parte do cast da gravadora no formato tradicional que começaram justamente através do selo digital. Ao longo deste tempo estamos analisando com muita atenção o desenrolar do mercado, das tendências e tentando estabelecer uma estratégia e cultura para este novo conceito de gravadora.

O mercado digital é muito recente, especialmente no Brasil. E como tudo que é novo até que se conheçam os detalhes da operação, é muito natural que se faça uma política de erros, acertos, tentativas até que seja possível visualizar e entender uma lógica mais racional. E depois de 2 anos nesta labuta já posso começar a enxergar de forma um pouco mais clara uma dinâmica para essa tendência. E é com base nessas experiências que dedicarei meus próximos minutos para tentar estabelecer algumas características e possibilidades deste campo a se desbravar.

Quando começamos a falar internamente a respeito da ideia de se lançar um selo digital, o discurso comum e repetido à exaustão era de que os jovens artistas e projetos diferenciados seriam lançados inicialmente no formato digital e caso tivessem uma repercussão positiva, estes passariam para um novo patamar, sendo tratados como artistas ‘normais’ do cast da gravadora. Entendendo que à época estávamos bastante inseguros quanto ao negócio em si, este discurso e pensamento eram até aceitáveis. Como eu disse, ‘era’, porque hoje em dia a ideia de que o artista está passando por uma prova do ENEM digital para somente no caso de ser aprovado passar a ser considerado um artista de verdade no mundo real, não se ajusta ao pensamento das gravadoras que perceberam a importância de lidar com as oportunidades do novo ambiente.

Recentemente vi uma entrevista de um executivo de uma gravadora a respeito do lançamento de um selo digital e dizendo com o peito estufado de que os artistas passariam por este estágio no selo digital e sendo aprovados, depois teriam seus projetos lançados no formato físico. Este discurso adequa-se perfeitamente lá no passado, porque hoje já demonstra anacronismo e miopia do ponto de vista do negócio em si. O primeiro aspecto que devemos considerar neste caso é quanto ao tratamento dado ao artista. Não dá para tratar o artista de selo digital como um cidadão de segunda classe. Não mesmo! Então este conceito de passar por um estágio até atingir o Nirvana deve ser evitado a todo custo.

Outra questão importante, já que falamos tanto do crescimento do mercado digital, de que é o futuro e tudo mais … aí afirmamos com todas as letras de que o artista tornando-se relevante no meio digital como prêmio ele receberá o passaporte para o mundo do CD? É isso mesmo? Não seria este estágio um salto para trás? Então se o artista digital se tornar sucesso também na venda de CDs ele vai ganhar o cartão Diamante Plus e ter acesso a lançar seus projetos também em vinil? Depois em mais um upgrade terá direito ao lançamento em cassetes? Esta é a ‘evolução’ que o mercado fonográfico propõe a seus artistas? Não acho que o caminho e principalmente o discurso devam ser estes. Temos que descobrir e investir em artistas digitais e fazê-los crescer e tornarem-se relevantes no ambiente digital. O fato de disponibilizar o álbum também no formato físico pode e deve ser um ato contínuo, mas jamais usar o conceito de que é uma segunda fase, um prêmio ao artista.

Um selo digital deve ter sua curadoria artística própria. Deve ter seu conceito artístico próprio, assim como sua própria estratégia de marketing e promoção. Estamos diante de uma transformação radical nas estruturas internas das gravadoras. Funções que até então eram fundamentais, tornam-se secundárias e às vezes até desaparecem. Já outras novas áreas e funções surgem com força como New Business & Digital que trata da operação e negociações com as plataformas e parceiros digitais e o departamento de Marketing Digital que estabelece e executa as estratégias e ações promocionais junto aos parceiros, artistas e redes sociais.

E qual deve ser o perfil do artista para um selo digital? O mundo digital é bastante democrático apesar de que, sem dúvida, surge um perfil mais apropriado de artistas que podem se destacar neste ambiente. Sem dúvida há estilos e propostas artísticas com maior apelo para o mundo digital e especialmente para determinadas plataformas. Tome-se como exemplo as operadoras de telefonia. No Brasil um dos mais importantes serviços nesta área é o ringbacktone. Pra quem não é iniciado nesta área cabe uma explicação do que se trata. Sabe quando você liga para um determinado amigo e em vez de você aquele toque normal de chamada surge uma determinada canção? Pois é, aquilo ali é um ringbacktone, um serviço de assinatura oferecido pelas operadores a todos os seus clientes. Então, o RBT é um serviço onde tradicionalmente artistas mais populares são os campeões de vendas. Aí destacam-se sertanejos com seus refrões onomatopeicos, funks, hits internacionais e representando a classe, também músicas evangélicas. Só pra registro, Damares tem mais de 1,3 milhão de aparelhos celulares com suas músicas sendo executadas a cada toque de chamada. Já em plataformas de streaming como Spotify e Deezer, pra citar algumas, o must são as músicas internacionais e uma pegada meio indie. Recentemente algumas (ainda poucas é verdade) gravadoras do meio gospel lançaram playlists próprias e deverão seguir nesta estratégia pela frente. Nas plataformas de vídeo há de tudo um pouco, tornando-as um espaço mais democrático.

Com relação ao perfil ideal de artista para este segmento, posso elencar algumas características como a relevância nas redes sociais – falaremos mais desse tema à frente – identificação com o público mais jovem, sonoridade moderna e sempre antenada às tendências, além de uma forte estrutura e apoio de marketing.

Se tempos atrás o clipe era tão somente uma ferramenta de divulgação, hoje em dia assume uma nova importância no mercado fonográfico. Com a monetização dos conteúdos em vídeo, os clipes, Lyric Vídeos, Pseudo Vídeos passam a ser uma importante fonte de receita. A música neste momento deixa de ser apenas sonora para tornar-se também visual. Uma música de qualidade terá seu alcance potencializado a partir que ela também tenha sua versão em vídeo. Recentemente conversei com um diretor de uma produtora de vídeos e afirmei com toda segurança de que se um de meus filhos quisesse seguir na área artística, o incentivaria a estudar cinema ou algo do tipo tamanha a gama de oportunidades que este mercado abrirá de agora em diante.

Então, se você pretende chamar a atenção de uma gravadora hoje em dia, é mais do que fundamental que se invista em bons conteúdos em vídeo e que consiga uma boa visualização destes. Se antigamente os A&R procuravam pesquisar a agenda, frequência em rádios e mesmo a quantidade de discos vendidos, hoje em dia o primeiro ato de um diretor artístico é procurar pelos vídeos do artista, analisando seus views e na sequência, seu número de seguidores nas redes sociais. Esta atenção será ainda maior na pesquisa do alcance de vídeos se a intenção do A&R for pelo cast do selo digital.

Outra característica importante do novo formato e das relações entre artista/gravadora/público tem a ver com o tamanho dos projetos e do tempo de lançamento. Se antigamente um artista precisava produzir 12, 14 faixas para lançar um novo álbum, agora esta realidade é completamente outra. Os singles e EPs ganham força e passam a fazer parte com mais frequência das estratégias de artistas e gravadoras. O consumo de música digital passa a ser individual, principalmente nas plataformas de streaming. Com isso cai por terra a necessidade de uma maior produção de faixas, diminuindo também a distância entre os lançamentos. Desta forma, o artista poderá manter-se em constante processo criativo, o que pode melhorar ainda mais a qualidade da produção musical.

Como prova da força do formato single, dias atrás lançamos a nova canção do Leonardo Gonçalves, a faixa “Acredito” que será a trilha do filme “Você Acredita?” que estréia nos cinemas em 03 de setembro. Em sua estréia no iTunes esta faixa alcançou a quarta posição entre os mais vendidos, sendo a melhor colocação de um artista nacional naquele momento e ainda permaneceu por 4 dias consecutivos no topo da categoria vídeo clipe. Só aí já constatamos a mudança no hábito de consumo. Pra completar, o clipe da mesma música superou 200 mil views menos de 48 horas de seu lançamento. Ou seja, uma única canção destacou-se em diferentes plataformas e diferentes formatos e em todos gerou receita para a gravadora.

Como já mencionamos nas linhas acima, o artista adaptado ao novo cenário digital precisa também estar muito atento às estratégias de marketing e saber-se relacionar perfeitamente com as redes sociais. E aí quando afirmamos sobre o relacionamento com as redes sociais é lidar de forma técnica, analítica, planejada e principalmente objetivando maior visibilidade de seu projeto e monetização. Um artista que tem 1 milhão de seguidores e não consegue ter um bom posicionamento de vendas nas plataformas é porque tem algo bem errado na estratégia de marketing. Se bem que ainda temos gravadoras gospel que têm grandes artistas com enorme relevância nas redes sociais e sequer está presente em uma plataforma importante como o Spotify. Uma verdadeira lástima!

Definitivamente não há mais tempo para protelar decisões, mudar o foco ou acreditar na manutenção do status quo no mercado fonográfico. A impressão que tenho é que estamos diante de um enorme dique, cheio de água e muita pressão e a barreira começa a sofrer com várias infiltrações. O tempo que este dique suportará a pressão ninguém pode garantir. O certo é que num determinado momento ele cederá e aí as mudanças acontecerão de forma muito rápida, profunda e irreversível. Pra bom entendedor, meia infiltração basta!

Mauricio Soares, jornalista, publicitário, testemunha ocular da 2a grande transformação do mercado fonográfico que começou pelo LP, passou pelo CD e agora segue no digital.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

3 Comments

  • Junior dos Passos

    18/08/2015 at 15:49

    Olá Sr. Mauricio Soares, seria possível um post sobre quais os estilos musicais têm mais acessos em plataformas A, B e C ? porque até onde pude perceber esses novos estilos musicais interpretados por artistas como Leonardo Gonçalves, Daniela Araújo, Marcela Taís e PC Baruck enfim esses artistas têm se destacados nas plataformas digitais, seja iTunes, Dezzer, Spotify e you tube, na minha opinião o pentecostal tem perdido cada vez mais espaço nessas mídias seria pela falta de inovação, conteúdo, tendência?

    Eu ainda compro bastante CDs no formato físico, mais o que acontece na correia do dia a dia, entre condução do trabalho, casa e faculdade, acaba que fica bem mais fácil você comprar as canções no iTunes, não é pela vontade de consumir CDs físicos é a necessidade que nos obriga isso, tudo fica bem mais fácil em apenas um click.

    Na sua opinião o que dificulta a venda dos CDs físicos hoje, seria o preço? sou de Pernambuco e o custo fica bem alto se você vai na loja o custo mínimo é de R$ 22,00 “exceto lojas americanas”.
    Na internet, preço do CD + Frete fica bem caro já paguei até R$ 35,00 em um único CD, se os CDS fossem vendidos por preços mais acessíveis não iria haver mais vendagens?

    Responder
    • Lex Luthor

      24/08/2015 at 15:58

      Eu percebo, através do meu dia-a-dia.. que parei de consumir cd porque hoje em dia não tenho muito tempo para ouvir um álbum, só é possível no trânsito ou nos raros momentos que estou em casa sem fazer nada… fica mais cômodo consumir música digital pois dentro do banco, dentro do ônibus, metrô, na rua só coloco o fone e vou ouvindo…

      Responder

Deixe uma resposta