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Sem Cheiro e Sem Fumaça

MarcFerrezSwissJuly1915
Se você tem o desprazer de me seguir no twitter, já deve ter ouvido falar sobre minhas recorrentes idas ao #CCBB, Centro Cultural Banco do Brasil, espécie de enclave europeu no Centro do Rio, onde se encontram as melhores exposições e as pessoas mais estranhamente adoráveis da #CidadeMaravilhosa.

Foi numa dessas idas, em 2008, que revisitei o trabalho da Família Ferrez, numa exposição montada com cerca de 400 fotos, todas elas extraídas de um acervo de 8 mil negativos — acervo que foi doado pela família ao #ArquivoNacional, que tem sua sede no #RiodeJaneiro.

As fotos, boa parte delas do final do século XIX, são de uma beleza indescritível.

Em certos momentos, como nas imagens internas de casas no bairro das Laranjeiras, a impressão que temos é que estamos invadindo outro tempo, outro espaço; tamanha a qualidade das ampliações e os detalhes de luz e sombra.

Mesmo com a exuberância de todas as fotos, uma, em especial, me deixou perplexo por alguns segundos. Nela, o já #megavelho #MarcFerrez (1843-1923), então um cruzamento de Che Guevara com Papai Noel, contemplava seu próprio fim, de pé, apoiado numa bengala, e olhando para o nada à beira de um lago na Suíça — a foto que ilustra este texto é de Ferrez na Suíça, e na mesma época (1915), mas não é a que me inspirou a escrever.

Quando vi a espetacular imagem, ampliada para mais de 2 metros de altura, de imediato me veio a mente a pergunta de #UmAlguémDessesTempos, espécie de inimigo invisível que nos persegue nos teatros, cinemas e exposições, sempre pronto a nos importunar com suas tolices: “Ok, mas quantos megapixels tinha a câmera do Ferrez?” Dizia ele, na minha mente, pouco antes de esmagar na testa o sorvetão de duas bolas.

#Megapixels, #Photoshop, #JPG, essas coisas, sabem?

Gente, eu ouço isso toda hora…

Pessoas que não entendem nada, ou não querem entender nada, sobre a dureza de se fazer um trabalho pautado pela correção estética, pela construção da composição, pela aplicação daquilo que chamamos de vocabulário básico de qualquer Arte, incluindo aí a #Música, #Teatro, #Cinema, e, sim senhor!, #Design, que é uma “Arte aplicada”.

Pessoas que acreditam que, por estarmos conectados nessas redes de relacionamentos,  vivemos a aurora da humanidade: com seus JPGs comprimidos, com seus #Auto-Tunes, com seus #Samples e #Templates baixados daqui e dali, modificados nas cores e nos formatos, e servidos ao mundo como se fossem originais.

Não são originais. São cópias.

— Mas são bonitas.
— Mas são cópias.

Na maioria das vezes, cópias sem significado algum, porque não há nada embarcado nelas, nenhuma idéia, nenhum conceito: nada.

E em alguns casos, cópias com significado até, mas construídas por outros, e portanto, ainda mais descaradas, mais safardanas, mais abjetas, mais… convenientes!!!

Sim, convenientes: porque são rápidas para nascer, e não necessitam da figura incômoda do artista, do criador, do insuportável ser humano que, em suas crises de abstinência, entre um trago e outro, entre um absurdo e outro ou, nos casos do gospel, entre uma oração e outra, perpetram o sublime em seus projetos, mas não sem antes darem um #Piti, estrebucharem ou exigirem 300 toalhas brancas — quer moleza? Contrata um normal!

São cópias convenientes porque, ao contrário dos originais, paridos entre dores, elas parecem saídas dos comerciais do #óleo #Lisa, “não tem cheiro e nem fumaça”.

Não se engane: não há Design sem designers, como não há Música sem músico e nem Fotografia sem fotógrafo.

O que faz a distinção entre uma obra e as demais é a sua capacidade de se relacionar com a audiência e a carga simbólica que cada um dos originais absorveu.

Não é a ferramenta quem faz a obra e, no caso da foto dos Ferrez, ela seria ainda espetacular se tivesse sido apenas um desenho, ou uma imagem de Polaroid.

Não interessa para a história da humanidade quantos megapixels tem sua câmera, quantos canais tem seu estúdio ou em que plataforma de computador você criou a capa do CD.

O que o mundo quer saber é a resposta à pergunta que não quer calar.

Ficou bom?

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Carlos André Spider Gomes da Silva é Designer e pau de dar em doido.

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