Sobre os rankings de rádios no meio gospel …

Cada vez tenho aparecido menos pelo reino (muitas das vezes chato!) da tuitolândia. Esse é um ambiente muitas das vezes bastante hostil, uma espécie de savana africana com muitos predadores à espreita esperando o momento certo para te dar um bote! É impressionante a disposição de pessoas querendo arrumar confusão neste tipo de espaço “democrático”. Então para manter-me são e salvo, minhas aparições por essa selva têm sido bastante pontuais. Mas dias atrás comecei a observar com mais critério os rankings divulgados por várias emissoras de rádio espalhadas pelo país.

Para não ser um retrato instantâneo de apenas um único dia, dei-me o trabalho de recuperar os rankings de 10 dias destas mesmas rádios e o resultado foi absolutamente espantoso do ponto de vista da coerência, da racionalidade. Pude constatar que estes rankings oscilam mais do que a Bolsa de Buenos Aires ou o valor do metro quadrado do Leblon. Simplesmente é impossível acompanhar o crescimento de uma ou outra música ao longo da semana porque não há a mínima lógica neste processo. Ou seja, uma música que hoje está na liderança entre as mais pedidas, no dia seguinte sequer aparece no ranking.Além disso, os estilos musicais neste mesmo ranking praticamente não se repetem. É uma “democracia” impressionante onde o público parece gostar do pentecostal do reteté com a mesma intensidade com que curte o som do Oficina G3.

Outra análise interessante sobre esses rankings é que, ainda falando de estilos, num determinado dia há uma profusão de músicas pop rock, no outro dia as músicas pentecostais são mais frequentes. Temos ainda um fenômeno estranho, quase alienígena, que é a presença maciça de artistas de uma determinada gravadora, mesmo que outros artistas sejam sucesso absoluto em todas as demais emissoras da mesma cidade ou região. Há ainda o caso de jovens artistas que despontam como um foguete desgovernado alcançando os primeiros lugares da rádio em poucos dias. É o que chamamos de sucesso meteórico! E põe meteórico nisso! O mais interessante é que esse meteoro costuma atingir somente uma emissora em todo o país. Podemos definir esse aí como “meteoro direcionado” ou “meteoro com GPS”.

Almoçando nestes dias com dois grandes amigos, falamos sobre essas distorções que encontramos constantemente em nosso meio. Uma das conclusões que pudemos chegar é que infelizmente ainda estamos muito distantes de sermos considerados um ‘mercado’ na propriedade que este termo designa, até porque ‘mercado’ determina a ideia de uma série de regras, ética, lógica … Em suma, o conceito de ‘mercado’ pressupõe-se algo relativamente racional, enquadrado, tabulado e dentro do possível, estável. O que vemos ainda no meio gospel em nosso país é uma cultura totalmente alheia ao racional. Temos umaenorme influência do bom humor dos mega-líderes que controlam boa parte dasmídias do segmento no país. Também podemos destacar que os canais de distribuição deste ‘mercado’ ainda carecem de uma maior capacitação e profissionalismo. De igual modo, as empresas que atuam nesse  ‘mercado’ também precisam ter práticas mais profissionais, éticas e valorizar a capacitação de sua mão de obra.

 

O caso da relação das rádios do segmento gospel com o seu público, com os artistas e consequentemente com as gravadoras, é apenasmais um retrato simples de como diz o poeta Caetano Veloso: “alguma coisa está fora da ordem, fora da ordem mundial …”

 

Mas voltando à questão dos rankings, sem maior ironia ou esbanjando da mesma, o que podemos constatar ao analisar essa oscilação esquizofrênica da vontade popular diariamente é de que o público destas emissoras muda por completo a cada dia da semana. Por exemplo, às segunda-feiras, a turma da bléia ouve a emissora e liga freneticamente por suas canções. Já às terça-feiras, a turma do pop rock adoração larga a internet e põe-se a ligar alucinadamente para pedir por seu artista predileto e por aí vai … é o que podemos, em tempos de pré-Olimpíadas no Brasil, definir como o ‘revezamento de audiência 4x100m”. Interessantíssimo!

 

Há outra possibilidade também que não se pode deixar de avaliar. É possível que os rankings destas emissoras sejam determinados pelo rapazinho que atende os telefones e que, sofrendo de bipolaridade, mude diariamente de humor e de gosto musical. Imaginando que ele não seja mais um bipolar, também é possível que este mesmo rapaz seja apenas uma pessoa do bem que quer ajudar a todos os artistas dividindo as primeiras posições como numa ação entre amigos onde todos são  presenteados. Tudo isso é possível.

Agora, com a chegada da Crowley aferindo diversas emissoras no meio gospel em várias cidades, fica bem claro o perfil e desenvolvimento da programação das emissoras de música cristã. Analisando semanalmente estes relatórios, confesso que muitas das vezes esses rankings não chegam a coincidir com essas mesmas listas. Mas isso é explicável porque osrankings determinam os pedidos dos ouvintes e em contrapartida, a Crowley afere o número de execuções semanais. De qualquer forma, é mais um aspecto para tentarmos desvendar o gosto popular e a mentalidade/perfil das emissoras.

E sigo em minha campanha mesopotâmica para que as coisas sejam mais racionais nesse nosso meio. O público precisa ser mais respeitado e observado em suas vontades e opiniões, de verdade. Efetivamente precisamos de um choque de maturidade em nossas diversas instituições porque do jeito em que as coisas estão, perderemos mais alguns anos tentando alcançar os objetivos.

 

Mauricio Soares, blogueiro, publicitário, jornalista, tetracampeão brasileiro em 2012, pai do Fernando, Leonardo e Benjamim, casado com Renata e alguém que espera um 2013 bastante interessante.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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