Sou independente, e agora?

Na minha modesta opinião existem apenas dois tipos de artista independente. O primeiro é aquele que está independente por falta de oportunidade em uma gravadora e o outro é aquele que realmente quer ter o controle absoluto de sua carreira e todas as responsabilidades de um caminho solo no meio fonográfico. Neste texto irei tentar descrever algumas peculiaridades destes personagens e analisar alguns fatos e dicas importantes deste universo. Vamos lá!

Ultimamente (ou melhor, nos últimos 10, 15 anos) sou abordado por artistas independentes em busca de uma chance em uma gravadora. Em sua grande maioria o discurso é assim:“Eu já vendi 100 mil cópias como independente, mas isso está muito ruim pra mim, é muito cansativo e chato administrar tudo, então estou (desesperadamente) buscando uma gravadora para cuidar de minha carreira!” Dando sequência à conversa costumo perguntar sobre a agenda do artista e a resposta costuma seguir um certo padrão. “Está excelente! Não consigo atender à metade dos convites que eu tenho. Estou viajando nos quatro cantos deste planeta (nunca entendi essa expressão sendo a Terra redonda) … Tá uma loucura!” 

De forma bastante direta e franca, se realmente você é um tipo de artista independente que sobrevive (e bem) com sua agenda e venda de produtos, então não há do que se preocupar e desesperar. Jamais almeje algo que você não poderá atender. Então por que se você já não tem espaço na agenda ainda pretende viajar mais ou se tornar ainda mais famoso? Não é todo artista gospel que necessariamente precisa figurar no cast de uma gravadora de grande porte. O que você deve é organizar sua carreira, adequar-se às demandas do mercado e principalmente planejar sua vida para os próximos anos. Existem muitos artistas que não fazem atualmente ou mesmo nunca fizeram parte do cast de uma gravadora que conseguem ter uma vida intensa, de sucesso financeiro, reconhecimento ministerial e carreira sólida. Posso citar para ilustrar essa afirmação o queridíssimo Asaph Borba. Se formos listar os 10 artistas mais relevantes no jet set gospel, certamente o Asaph não estará nesta lista. Talvez na lista dos 20 também … mas o Asaph é um dos poucos artistas brasileiros do mundo gospel com uma carreira sólida internacionalmente. Suas canções mais recentes não estão no playlist das principais rádios Fms do Brasil, mas ele não passa mais de 2 anos sem lançar um projeto inédito. Ou seja, com uma organização, visão clara do seu chamado ministerial e principalmente, bastante humildade e disposição, Asaph Borba está há mais de 30 anos na estrada, vivendo de música gospel e da pregação da Palavra sem maiores solavancos.

Há uns dois anos atrás recebi uma mensagem desesperada de uma cantora que havia anos tentava ingressar numa gravadora. Ela relatava que aquela seria sua última tentativa junto às gravadoras. Com muita frieza e sinceridade, disse-lhe que havia muitas outras artistas com maiores chances de chamar a atenção de uma gravadora do que ela. Completei ainda afirmando de que tempo de estrada não significa melhoria ou potencialização do talento. O talento é natural e pode ser aprimorado com estudos e experiência, mas antes de tudo, ele era algo inerente à pessoa. Expliquei-lhe que entrar numa gravadora não significaria que ela passaria a um novo patamar artístico. Talvez aquilo fosse até ruim para sua carreira, pois a concorrência interna de uma gravadora é tão grande como fora dela. Sugeri-lhe que reorganizasse sua vida e carreira partindo do princípio de que seguiria numa carreira independente. Durante a Expo Cristã reencontrei essa mesma artista. Semblante leve, bem vestida, muito simpática, a agora animada cantora me disse que estava super feliz com sua vida depois de ter mudado de foco. Hoje ela tem uma pequena estrutura de apoio à carreira, mantém uma intensa agenda de eventos pelo país e que em breve lançaria mais um novo trabalho.

Ela não mudou em nada seu estilo musical, apenas mudou de foco e entendeu que ter uma vida de artista independente também tem seus benefícios. Simples assim!

Agora, digamos que você realmente tem como objetivo investir na sua carreira e num futuro, quem sabe, chamar a atenção de uma gravadora de grande porte. Então você deve trabalhar como se nunca pretendesse justamente ingressar numa gravadora. Não se iluda! Gravadora alguma irá interessar-se por seu trabalho se você já não tiver alguma relevância no mercado! Você precisa fazer a diferença para destacar-se da concorrência e isso se faz apenas trabalhando com qualidade, independente de fazer parte do cast de uma empresa. Então, você precisa investir na sua carreira. Na qualidade da produção do seu CD ou DVD. Precisa manter contato permanente com as mídias. Precisa ter uma agenda intensa de apresentações. Precisa ter muito critério na seleção do repertório e na escolha dos músicos e, principalmente do produtor musical. Precisa investir num clipe e postá-lo na web. Precisa saber utilizar-se das ferramentas tecnológicas, principalmente nas redes sociais. Enfim, você precisa trabalhar! Precisa focar sua carreira! E aí … quem sabe? Até uma gravadora poderá interessar-se por seu trabalho.

 

E imaginemos que você atingiu o Nirvana … ou seja, chamou a atenção do A&R de uma gravadora e foi contratado! Wow! Que maravilha! Acertou na mega-sena! … Nada disso! Tudo o que você já fazia como independente, a partir de agora você terá que se empenhar ainda mais! Não imagine que sua gravadora irá fazer tudo que você fazia antes! Não mesmo! A partir de agora você terá que caminhar ao lado da gravadora apoiando-a nas ações de marketing, promoção e divulgação. Atenção! Eu disse “caminhar ao lado” e não, “ficar sentado enquanto eles trabalham!”. Este é um erro muito comum com artistas que ingressam numa gravadora. Principalmente os novatos!

O que eu quero frisar com este texto é que o trabalho nunca pára! Nunca mesmo! Estou cansado de ver grandes nomes do meio gospel reclamando da gravadora numa cantilena sem fim, mas que sequer atualizam seus próprios sites. Uns (cúmulo dos cúmulos) sequer possuem site oficial ou utilizam-se das redes sociais! Isso é o fim! O tempo do paternalismo (se é que existiu tempos atrás!) simplesmente acabou! Hoje o mote é “arregaçar as mangas e vamos JUNTOS trabalhar!” A realidade do mercado fonográfico é completamente diferente de 5 anos atrás e a tendência é de que nos próximos 2 anos, especialmente no Brasil, seja totalmente diferente do que é hoje! Fiquem atentos a estas palavras! Não digo isso como “puxão de orelhas”, mas como alerta de que os números do passado, principalmente em termos de vendas, jamais voltarão no presente ou no futuro!

Então, já finalizando meu texto, gostaria de incentivá-lo a levar a sério sua carreira, seja ela independente ou vinculada à uma gravadora. Trabalhe sempre com a mentalidade e postura de artista independente. Se você tem uma gravadora ao lado, continue trabalhando como independente e una seus esforços em prol de um bem comum. Jamais transfira suas responsabilidades para sua gravadora! Pense nisso!

P.S. – Para quem ficou curioso em saber o que significava a expressão “JACI” citada no texto sobre a relação entre Fã-Clubes e gravadoras … informo que “JACI” significa “ser que tem o terrível e inconveniente hábito de interferir em assuntos alheios, também conhecido como JACI meteu” … Hummm

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, peladeiro de fins de semana e mais novo torcedor do Figueirense.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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