Home Tags Notícias com a(s) tag(s) "Oportunidade"

Oportunidade

Estou neste momento retomando o caminho de casa após quase uma semana intensa de muito trabalho em Portugal. O meu objetivo nestes dias foi unicamente conhecer o atual cenário da música cristã e analisar a viabilidade de um projeto nos mesmos moldes do que desenvolvemos no Brasil com grande êxito nos últimos 5 anos. Em curtíssimos 5 dias foram mais de 50 encontros numa maratona estafante e intensa. Conversei com artistas, compositores, produtores musicais, músicos, profissionais do meio fonográfico, líderes, padres, pastores, profissionais de mídias (as pouquíssimas que existem por lá), ou seja, uma raríssima e rica experiência de intercâmbio intercultural.

Coincidentemente este mesmo tipo de viagem fiz a pouco mais de 20 anos atrás, justamente para Portugal. A diferença é que naquela época meu foco era o mercado editorial e não o fonográfico. No entanto, o objetivo era bem parecido, ou seja, entender o mercado cristão português para uma análise sobre a viabilidade de se investir ou não além-mar. Naquela oportunidade minha impressão e conclusão era de que deveríamos focar tão somente o mercado brasileiro, já que em Portugal o mercado evangélico era muito incipiente e sem projeções de crescimento.

Regresso os mais de 7 mil quilômetros entre Lisboa e o Rio de Janeiro neste momento com uma convicção diferente da que tive ainda no século passado. No entanto, engana-se quem imagina que minha decisão deve-se à alguma mudança alvissareira do mercado cristão português. Não, definitivamente não temos um cenário de crescimento por lá. Em alguns aspectos, a impressão que tenho é de que o segmento evangélico português permanece no mesmo patamar de décadas atrás. E isso não é força de linguagem, infelizmente, pelo contrário, é um fato. A diferença motivadora em minha decisão de outrora e atual não tem a ver com a situação daquele país, mas porque hoje sou uma pessoa bem diferente daquele jovem iniciando uma carreira profissional no mercado evangélico. Confesso que sou um cara meio idealista, às vezes um tanto quanto quixotesco lutando contra moinhos em prol do crescimento do mercado cristão. E este espírito é o que me motiva neste momento a seguir com a ideia de se investir na intenção de implantar um label de música gospel na região ibérica.

Nestes dias tive reuniões com artistas espanhóis, moçambicanos, angolanos, brasileiros e até portugueses (rs). Minha intenção era muito mais ouvir do que falar, mas é óbvio que os encontros acabaram virando pequenos debates e muito mais mini-palestras sobre o mercado fonográfico, mundo digital, estratégias de marketing, gerenciamento de carreira e temas a fim. Todas estas conversas serviram para que eu tivesse uma noção e uma visão mais clara da realidade do mercado cristão em Portugal. Ainda no meu penúltimo dia em Lisboa, tive oportunidade de apresentar meu relatório à equipe da gravadora e felizmente o projeto foi aprovado e em breve teremos boas novidades!

No entanto, mais do que qualquer questão econômica, estrutural ou logística, o que mais me chamou a atenção nestes dias foi a situação do cenário artístico cristão. Do ponto de vista da qualidade da música que vem sendo produzida por lá confesso que me surpreendi positivamente por tudo que vi e ouvi. A influência anglo da música se faz bem presente em Portugal, não somente no meio gospel mas também no secular. A música brasileira, especialmente no meio secular, perdeu muito em importância e relevância, coincidentemente seguindo a diminuição da presença das telenovelas da Globo. As TVs portuguesas investiram muito na produção de telenovelas o que consequentemente restringiu-se o espaço para as produções brasileiras e isso acabou diminuindo também a influência da cultura e música tupiniquim.

No meio cristão, a música brasileira ainda tem alguma influência. Inevitavelmente entre os brazucas essa referência é bem maior. Já entre os portugueses a maior referência está em artistas de língua inglesa com predominância para o onipresente Hillsong. Entre os africanos há um misto de música brasileira, worship e influência norte-americana eletrônica e hip hop. Fiquei particularmente feliz em ver que jovens cantores brasileiros como Gabriela Rocha, Daniela Araújo e Anderson Freire são nomes bastante populares por estas praias. Os já consagrados, Aline Barros, Fernandinho, Thalles, Marquinhos Gomes, Damares, Fernanda Brum, também foram constantemente lembrados. Alguns não necessariamente somente por suas virtudes musicais.

Então, na parte musical e de produção, o cenário português cristão está bem representado. Artistas como Ana Mari, Voz de Júbilo, Ministério de louvor da igreja CCC, Carla Alexandra e mais alguns nomes têm talento e qualidade. O mesmo ocorre no meio gospel espanhol. O problema está presente em duas a três questões que me trouxeram certo susto e apreensão. Em primeiro lugar, a igreja evangélica portuguesa está estagnada já faz algumas décadas.

Se no Brasil o segmento evangélico representa cerca de 30% da população, do outro lado do Atlântico não ultrapassa míseros 4%.

E pior, sem registrar crescimento significativo nas últimas décadas. Na verdade, nos últimos anos, com o regresso de muitos brasileiros ao país de origem ou mesmo o êxodo para outros países na Europa, o que se observa é a diminuição da população evangélica, chegando inclusive ao fechamento de muitas igrejas. Não há como comparar um mercado de 60 milhões de consumidores com outro de 400 mil, por isso mesmo a comparação é percentual e não absoluta. De um jeito ou de outro a distância entre uma realidade e outra é bem maior do que os milhares de quilômetros que no separam pelo Atlântico.

Coincidência ou não, a igreja portuguesa é muito restritiva aos artistas e à própria música em seus territórios. Soube inclusive de que uma determinada denominação proíbe – sim, é isso mesmo! Não é metáfora, mas uma lei oficial da igreja imposta pelo pastor-presidente – os artistas da própria igreja de se apresentarem e comercializarem discos em eventos ou pós-cultos. Com esta “lei-anti-artista-gospel” o que se observa é um desestímulo reinante entre os músicos daquela denominação. Muitos acabaram migrando para o mercado secular para que sua arte tivesse algum espaço ou reconhecimento. E isto é mais comum do que se possa imaginar por lá. Atualmente um dos mais proeminentes e populares jovens artistas do cenário português é um jovem, filho de pastor, que se viu obrigado a seguir numa carreira secular com sua banda após anos e anos sem qualquer apoio por parte da igreja evangélica. Ele inclusive me confidenciou já ter viajado mais de 300 Km para participar de um evento em que sequer o pastor ofertou-lhe o dinheiro da gasolina.

Diferentemente do Brasil, as igrejas evangélicas são poucas em Portugal. Estima-se que exista uma população de 400 mil evangélicos num universo de 10 milhões de habitantes. O perfil médio das igrejas por lá é de comunidades que reúnam entre 50 a 100 pessoas. Uma igreja com 500 pessoas é considerada enorme no meio evangélico lusitano. E muito desta timidez de números e estagnação do segmento deve-se à cultura européia racional, à tradição católica enraizada no país, aos escândalos e problemas proporcionados por alguns líderes evangélicos em décadas anteriores, à pequena quantidade de mídias de massa do segmento no país, entre outros aspectos. Pra exemplificar a questão das mídias, há apenas uma única emissora FM 100% evangélica ou mesmo católica em toda a Portugal com programação ao vivo. Não há um único canal de TV para o segmento, raros são os programas em canais de menor expressão e alcance limitado. E, pasmem!, não há um único site especializado em música cristã portuguesa. Ou seja, a música cristã praticamente sobrevive em termos de divulgação ao milenar boca a boca. Algo assustadoramente anacrônico em tempos digitais.

Confesso que se pudesse eu escreveria uma espécie de CARTA ABERTA aos evangélicos de Portugal, principalmente aos artistas e líderes, pedindo, na verdade clamando, por uma maior atenção e uma mudança de postura com a música cristã naquele país. Infelizmente uma esmagadora parcela da liderança evangélica portuguesa não entendeu que a música tem um poder enorme de transformação e que pode ser a grande ferramenta que esteja faltando ser utilizada para atingir mentes e corações da sociedade lusitana.

A música cristã pode levar a mensagem das Boas Novas para muitas pessoas que recusam-se a ouvir uma pregação, ou mesmo a entrar numa igreja.

Em minha curta passagem por lá tive oportunidade de ouvir dois portugueses confessarem que se converteram ao ouvir determinadas músicas evangélicas. A música tem essa força! Por outro lado, ouvi também testemunhos emocionados de alguns artistas falando a respeito da dificuldade que se é ter um ministério musical naquele país pela mais absoluta falta de apoio por parte das igrejas. Alguns destes testemunhos eram recheados de relatos vergonhosos da mais incrível falta de respeito ao músico cristão. Inclusive há casos de artistas que praticamente já haviam ‘entregue os pontos’ dedicando-se a outros projetos, até mesmo por questões de sobrevivência.

Em determinado momento me vi como uma espécie de psicólogo tentando reverter essa maré de pessimismo e desânimo. Será coincidência o fato de que a igreja evangélica vive anos de estagnação e o tipo de relação que esta tem com a música cristã? Ou mesmo a questão do pouco número de mídias segmentadas com a pouca influência da igreja na sociedade? Não tenho a menor dúvida de que se os líderes começarem a incentivar seus músicos, abrindo mais espaço para o intercâmbio para a classe artística, realizando mais eventos em suas igrejas, de que este ‘investimento’ será revertido no crescimento da própria igreja! Isso sem falar na expansão das mídias evangélicas. Está tudo relacionado entre si, há uma simbiose entre estes diferentes cenários e certamente quando um se desenvolve todo o resto cresce junto. Parece óbvia esta constatação e de fato é … e talvez de tão simples a solução, as pessoas imaginem não ser a mais correta nestes casos.

Em minha CARTA ABERTA certamente eu diria aos pastores e líderes sobre a responsabilidade que eles têm pelo não-crescimento da população evangélica naquele país. E não venham me falar em crise, em dificuldades … nada disso justifica a inércia. E, no caso da crise, pelo contrário isso não é justificativa, mas oportunidade pois já é sabido de que sociedades em crise costumam ser mais sensíveis às questões relacionadas à fé. Também focaria meu texto aos artistas que pretendem levar à sério este chamado, seus ministérios. Pelo que vi e ouvi nestes dias há um absoluto desconhecimento sobre as questões de marketing, universo digital, organização, planejamento, promoção e afins. A artista gospel com maio número de seguidores numa fanpage possui pouco mais de 30 mil fãs, algo ínfimo, mesmo em se tratando do universo português. Outro dado que me assustou é de que poucos são aqueles que possuem outras redes sociais além do próprio Facebook e, mesmo assim, com utilização completamente equivocada desta ferramenta. Atualizem-se urgentemente!

Alguns importantes artistas do segmento cristão com menos de 5 mil seguidores no Facebook disseram claramente “não mexer com essas coisas” ou “não ter tempo”, como se isto fosse possível, algo como sendo um simples passatempo e não uma ferramenta crucial hoje em dia. Entre estes ‘perdidos no tempo e no espaço’ há gente que lidera centenas de pessoas em suas comunidades. E a minha pergunta era sempre a mesma: não há um único miúdo ou adolescente em sua igreja que curta estas questões de internet e que possa ajudá-lo e cuidar de suas redes sociais?

Ressalte-se que até agora não falei de dinheiro e nem de investimento, estou falando somente de estratégia, atitude, vontade de mudar, entendimento, disposição, bom senso … questões muito mais pessoais do que estruturais.

Sempre gosto de receber o feedback das pessoas com quem converso. E nestes dias procurei saber posteriormente o resultado de minhas conversas, às vezes verdadeiras palestras, em alguns casos clássicos ‘puxões de orelhas’. E em todas o retorno foi bastante positivo. Recebi em meu último dia de trabalho o email de um importante artista do cenário cristão português agradecendo-me por ter dedicado meu tempo a eles. Neste email ele inclusive já me contava sobre algumas atitudes que havia tomado após conversar conosco e que aquilo já trazia uma motivação diferente ao seu dia a dia. Em outro destes feedbacks um jovem pastor também ligado à música contou-me que pretende investir mais na realização de encontros e que já havia marcado para gravar alguns vídeo-clipes usando a capital lusitana como cenário. Estas informações e impressões são o que de verdade me motivam a deixar minha família, meus afazeres no escritório e dedicar-me por alguns dias a pessoas que até então nem conhecia. E sinceramente espero que minha passagem por Portugal tenha contribuído de alguma forma para dar uma sacudida nas mentes daquelas pessoas para que em seguida possam levar a Palavra com mais empenho e somente assim transformação aquela sociedade.

Aos pastores e artistas brasileiros minha oração é de que olhem para Portugal com outros olhos. Temos que apoiá-los com o sentimento missionário e cristão, investindo tempo e dinheiro para que aquele povo possa conhecer a mensagem libertadora da cruz. Especialmente aos artistas brasileiros gostaria de incentivá-los a facilitar ao máximo as condições quando receberem convites para se apresentarem por lá. De verdade, espero mesmo até que alguns que já tão bem sucedidos economicamente que dediquem alguns dias de suas agendas intensas para irem até Portugal abençoar a igreja evangélica por lá.

Quando um português decide seguir a Cristo, a professar publicamente como seu único e suficiente Salvador, ingressando numa igreja evangélica, esta é uma decisão consciente e permanente. Não se brinca de crente!

Não se esqueçam que neste momento a Europa passa por uma crise de imigrantes saindo da África e Oriente Médio, com uma imensa maioria muçulmana. Se formos a Londres ou mesmo Paris temos a impressão de estarmos na Arábia Saudita, Dubai ou qualquer outro país da região tamanha a quantidade de muçulmanos presentes. Ouvi de uma pessoa de que esta imigração é uma espécie de Cavalo de Tróia onde de forma não explícita a fé muçulmana vai tomando espaço na sociedade européia.  Muita atenção a estes fatos! E por fim, creio como a Bíblia nos ensina de que quando todos tiverem acesso à mensagem de Cristo este será o tempo para que ele venha e resgate sua igreja. Se verdadeiramente queremos viver este tempo, então precisamos agir, mudar nossas atitudes e conceitos para que sua Palavra seja difundida. Um dia a menos evangelizando é um dia a mais de espera por este momento.

Força!

P.S. – Quero aproveitar e agradecer ao imenso carinho e comprometimento de toda equipe Sony Music em Portugal. Vocês são uma malta muito fixe! E em especial ao novo grande amigo, super produtor, pastor, compositor, arranjador, cantor, David Neutel, uma espécie de catalisador do cenário cristão em Portugal e Espanha. Sem sua ajuda, gajo, nada disso seria possível! Tu és boa onda!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, idealista, mais novo torcedor do Sporting (por influência do meu chefe português!)e alguém que torce pela mudança de certas culturas que ainda emperram o crescimento do Evangelho no mundo.