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Tempo de crise. Tempo de oportunidade.

Todo santo dia e aqueles nem tão santos assim, temos lido, ouvido, assistido os noticiários dando conta da crise pela qual o país vem passando neste momento. Não há um único índice econômico em que o Brasil esteja hoje melhor do que estava há alguns anos atrás. Nesta manhã, logo cedo, ao me preparar para mais um dia de trabalho recebo a notícia de que o índice de desemprego no país é o maior dos últimos 16 anos. Coincidência ou não, nesta mesma fatídica manhã também ouço na rádio que o índice de aprovação da presidente Dilma é de 7%, repetindo o viés de queda já que na última pesquisa este índice era de 11% da população brasileira.

A TAM, empresa aérea nacional, já divulgou o cancelamento de diversas linhas regionais e internacionais, além de uma redução de cerca de 10% de sua estrutura. A Petrobrás reduziu drasticamente seus investimentos previstos para os próximos anos. Taxas de juros seguem tendência de alta, bolsa de valores em sentido oposto, de queda, já o dólar segue em alta passando de R$ 3,20. A taxa de ocupação da rede hoteleira no Rio de Janeiro está abaixo de 50% em plena alta temporada e inverno com 34 graus, ou seja, convidativo ao turismo e ao lazer.

Prestes a completar 46 anos de idade posso garantir que voltar a viver com as preocupações de inflação, recessão e desemprego não me agradam em nada. Vivi o auge da inflação do ‘des-governo’ Sarney com reposição salarial de 76% ao mês e inflação sem controle. Depois sobrevivemos à URV, às conversões diárias de moeda, mudança de nome de nossa moeda e toda a loucura que só quem viveu aquela época pode entender. Mas na verdade, não estou aqui para analisar a atual situação econômica, em encontrar culpados (até porque disso não tenho a menor dúvida!), ou projetar tendências sobre a economia do nosso país ou mundial.

O texto de hoje tem a ver com uma outra questão. Na verdade, se tem um mercado que vem apanhando, sofrendo, muitas vezes descrito como um doente terminal aguardando a extrema unção, esse é o mercado fonográfico. Que apesar de todos os prognósticos negativos e contrários segue se reinventando e reerguendo como a mitológica Íbis em meio ao caos. Este post tem como objetivo incentivar a todos que trabalham no mercado cristão a enfrentar com criatividade, tenacidade e principalmente planejamento e foco, este momento de crise no país. E quero trazer a todos estes profissionais o exemplo que temos do próprio mercado fonográfico, que é pródigo em driblar tendências catastróficas.

Vamos aos fatos. Na década de 80, as grandes companhias fonográficas dominavam o circuito artístico. Grandes nomes nacionais e internacionais vendiam milhões de discos, na época LP. Já na década seguinte uma grande mudança aconteceu com a chegada do CD. O que para muitos parecia ser um grande risco pela transformação, acabou tornando-se num primeiro momento numa oportunidade fantástica! As gravadoras começaram a vender milhões de discos de dezenas de artistas nacionais. Grandes festivais e turnês internacionais começaram a incluir o país no circuito. O dinheiro rolava aos borbotões tanto que as próprias gravadoras incentivavam os artistas de seus casts a montarem escritórios próprios para as questões de shows e agendas, já que esta era uma parte de menor lucratividade para as companhias e onde se concentravam boa parte dos problemas de administração e logística. Depois desse boom aconteceu o que todo mundo sabe, a pirataria se disseminou e com ela a queda nas vendas. Mais uma vez esperou-se pelo pior, pela quebradeira geral das gravadoras e do fim do mercado fonográfico. Passado o susto, eis que surge uma nova onda, o mercado digital e como toda mudança de formato e de hábitos, ninguém tinha certeza do que iria acontecer e mais uma vez, os profetas apocalípticos determinavam o fim do mercado.

Ufa! Depois de mais um tsunami, eis que o mercado fonográfico mundial frustrando as tendências pessimistas já aponta para um novo período de grande crescimento e oportunidades. Costumo dizer quando questionado sobre o mercado fonográfico gospel que hoje temos muito mais oportunidades do que tempos atrás. E para reforçar minha linha de raciocínio basta comparar com os canais de distribuição que tínhamos até tempos atrás, algo como 1500 pontos de venda em todo o Brasil, entre lojas, igrejas, distribuidores e até mesmo colportores, que são os atuais revendedores porta a porta. Pois bem, se antes tínhamos esta rede de distribuição, hoje além destes 1500 pontos ainda temos 273 milhões de aparelhos de celular e mais de 120 milhões de brasileiros com acesso à web em seus lares. Ou seja, hoje em dia, as gravadoras têm muito maior potencial de vendas do que a tempos atrás.

A grande questão é como lidamos com as dificuldades, as oportunidades e principalmente com as transformações. Dependendo de nossa reação, os resultados podem ser fantásticos ou deprimentes!

E aí quero incluir no meu foco, os livreiros que trabalham com o mercado gospel no nosso país. Se tem uma pessoa que conhece a realidade e, em especial, livrarias evangélicas em todo o país, esse ‘cara sou eu’, parafraseando Roberto Carlos. Nos últimos 26 anos de minha vida, conheci e venho conhecendo livrarias cristãs em todas as cidades por onde estive. Tenho especial prazer em entrar numa loja e observar a qualidade do atendimento, a disposição dos móveis, a vitrine, a disponibilidade de produtos e lançamentos, entre outros detalhes.

Estamos diante de um momento crucial para o mercado livreiro. Ou enfrentamos essa crise com criatividade, inteligência e muito trabalho ou sucumbimos à derrota total. Dias atrás promovi mais um Encontro de Mídias e Lojistas, desta vez na cidade de São Paulo. Investimos tempo e dinheiro nesta iniciativa e no fim colhemos só bons resultados por esta ação. Mais um exemplo! Ou nos entregamos, ou enfrentamos as adversidades. Ou cruzamos os braços ou arregaçamos as mangas e trabalhamos duro! A verdade é que estamos num momento muito interessante e quero pedir-lhe encarecidamente apenas mais alguns minutos de sua atenção.

Tradicionalmente os momentos de crise econômica ou social acabam levando mais pessoas em busca de algo sobrenatural, ao exercício da fé. Não cabe a mim questionar a motivação, mas que efetivamente nestas horas de crise o povo se apega mais a Deus, isso é um fato! Ou seja, se nas últimas décadas a igreja evangélica já vem crescendo em ritmo intenso, tudo indica que este crescimento será ainda mais vigoroso caso tenhamos (espero que não!) um período mais crítico na economia e na própria sociedade brasileira. Do ponto de vista comercial, quanto mais pessoas passam a frequentar as igrejas cristãs, teoricamente o público consumidor de produtos segmentados cresce em igual proporção.

Há uma pesquisa exaustivamente repetida nos últimos anos de que a cada 10 evangélicos, apenas 3 tem o hábito de ir periodicamente em livrarias cristãs, ou seja, há muita gente nos bancos das igrejas que não frequentam livrarias. Com isso, abre-se uma oportunidade e tanto! O mercado livreiro já pensou e executou estratégias para trazer estas pessoas para suas lojas, ou então, na possibilidade de estas lojas estarem mais perto do público? Cada vez mais lojas on line serão uma excelente opção de compra e distribuição de produtos para este segmento. Ou seja, diante da crise a melhor opção é agir, é trabalhar! Até porque muito provavelmente seu concorrente seguirá o caminho inverso, abrindo cada vez mais espaço para quem quer fazer de forma diferente.

Sempre gosto de repetir a experiência que vivi há alguns anos em uma de minhas viagens ao Nordeste. Pela manhã fui visitar o gerente de uma rede de lojas que até então tinha 9 filiais. Sentado numa mesa velha, empoeirada, o gerente transpirando em bicas, me recebeu com uma cara de velório. Num canto da sala, um ventilador de pé meio capenga tentava refrescar o ambiente. Sentei-me para ouvir as notícias e numa cantilena modorrenta o gerente começou a desfiar seu rosário de lamentações como se fosse uma carpideira do sertão. Das 9 lojas, já na próxima semana 2 seriam fechadas. Outras 3 sofreriam redução de tamanho e aquela que seria a sede da rede de lojas seria dividida ao meio dando lugar a alguns boxes numa espécie de mini-shopping popular. Demorei-me naquele lugar por mais 1 hora, não mais do que isso … na verdade, se eu não fosse um otimista por natureza, sairia dali direto para o aeroporto, tamanho baixo astral reinante naquele lugar. A loja tinha uns 3 ou 4 clientes, funcionários mal humorados, muitos com sandálias de dedo, com fardas (no nordeste eles usam essa expressão para uniformes) surradíssimas … ou seja, o clima era de fim de festa!

Saí daquela loja, respirei ar puro na avenida e pus-me a caminhar pelo calçadão do centro da cidade. O burburinho do povo, dos camelôs, do comércio de rua, demonstrava uma realidade bem diferente do que o gerente queria me passar. Mas enfim, segui meu rumo em direção a outro grande amigo e cliente que tinha naquela cidade. Quando cheguei na loja, fui recepcionado por um segurança extremamente simpático que fez questão de abrir a porta para mim e desejar-me uma boa estada na loja. Na livraria com ar condicionado o clima estava muito agradável. Tudo muito bem arrumado. Funcionários devidamente uniformizados, seções bem definidas e sinalizadas. Caminhei por alguns segundos na loja até ser contactado por um vendedor que colocou-se à minha disposição caso precisasse de alguma ajuda. Fiz questão de ficar alguns minutos ali sem me apresentar, justamente para analisar a qualidade do atendimento e tudo mais. No entanto, em poucos minutos o gerente da loja me reconheceu e foi ao meu encontro. Uma festa! Conversamos muito sobre o mercado, sobre as oportunidades, sobre a situação do comércio local … ele fez questão de me mostrar seus planos, suas ideias num entusiasmo empolgante e contagiante. Fiquei por ali pelo menos umas 4 horas e só fui embora porque teria outro compromisso mais tarde.

Aquelas duas visitas numa mesma cidade foram diametralmente opostas. Se um gerente vislumbrava o apocalipse, o outro via oportunidade. Enquanto um remoía suas frustrações, o outro vibrava com suas conquistas. Esta experiência eu vivi há uns 5 anos atrás ou mais um pouco. Neste ano tive a oportunidade de novamente visitar estes dois clientes. O primeiro, encontrei sentado na mesma mesa empoeirada de anos atrás. A diferença é que das 9 lojas, restavam apenas 2, sendo que a maior delas reduzida a 30% da área original. E seguindo sua toada de outrora, o gerente mantinha sua postura inerte e garantia que em mais alguns meses o negócio seria fechado em definitivo. Minha visita não durou mais do que 20 minutos, por educação. Já o segundo gerente, reencontrei-o em meio a um evento que reuniu mais de mil pessoas em sua loja numa sessão de lançamento de um artista de música gospel. A fila dobrava o quarteirão e as pessoas estavam ali desde cedo para um evento que se iniciaria às 16h. Mais uma vez deparei-me com um profissional entusiasmado e visionário, cheio de ideias e planos. Naquele momento ele me falou sobre a abertura de mais uma filial em um importante shopping center na região. Sua meta era manter presença em todas as principais cidades e micro-regiões do Estado. Saí de lá feliz por ver como aquele profissional havia superado as adversidades e tornado-se uma referência.

Neste momento de crise é que conhecemos os profissionais valorosos. Administrar em tempos de fartura é mais tranquilo, mas é no tempo das vacas magras onde surgem os grandes profissionais. Estamos diante de um momento muito especial em nosso país e a mensagem que eu gostaria de deixar aos meus 66 leitores é de incentivo e para que possam, cada qual em sua área de atividades, desempenhar da melhor forma o seu ofício buscando sempre a excelência.

Finalizo este texto perplexo por receber no dia de hoje um flyer de divulgação de uma determinada gravadora que acaba de fechar um contrato com uma das plataformas streaming disponíveis no país e afirmando que com isso estava conquistando algo muito especial. Faltou dizer que essa plataforma já existe por aqui faz mais de 3 anos, portanto, não tem nada de grandioso e fantástico nisso! Especialmente as gravadoras de nosso segmento precisam urgentemente agir para não terem o mesmo triste fim do nosso gerente e sua mesa empoeirada.

Bom trabalho!

Mauricio Soares, casado, pai de 3 meninos muito acima da média, talvez um jornalista-abaixo-da-média, um profissional-de-marketing-na-média (ou não!!!!), um publicitário-abaixo-da-média e, ainda, um consultor-de-marketing-abaixo-da-média. Só o tempo dirá …

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  • Junior dos Passos

    Muito obrigado pelo seu texto, na verdade eu sou um profissional de marketing muito abaixo da média, estou apenas terminando minha graduação, enfim foi muito bem colocado no seu texto em relação as suas lojas, sei bem de quem se trata, enfim estou preste a lançar um CD pra alguém a qual presto serviço, e estava bem preocupado, mais de qualquer forma tinha montado uma estratégia pra continuar vendendo o Cds, mesmo que seja em quantidade menor, mais que porém mantenha a receita ativa, em relação ao dólar assim como eu fiz eu recomendaria que as gravadores pudessem diponibilizar os seus álbuns em plataformas digitais num preço mais acessível.
    Enfim Sr. Mauricio Soares só tenho que agradecer a Deus pela sua existência, e por não nos dar o peixe pronto, mais tem nos ensinao a pescar, cada post seu rendem anotações e anotações em minha humilde agenda, o senhor não sabe mais é o meu coach.

    • Mauricio Soares

      Opa! Muito bom ler seu comentário. Aproveite então esta oportunidade! Abraços!

  • Juliana Machado

    Exatamente isso, Mauricio! Esses dias um pastor pregou na Igreja dizendo que a crise não o tem afetado. Ele saiu de uma empresa em que faturava muito bem (ele é publicitário) e foi para uma outra que estava na crise. Não passou nem um mês e a situação reverteu. Agora eles tem faturado muito mais do que a empresa que ele saiu… Oportunidade. Fazer planos não é errado… Significa que você está traçando um objetivo e espera colher bons resultados. Obrigada por compartilhar conosco seus textos!

  • Lucas

    Não especificamente neste “tempo de crise”, eu estava analisando sobre as oportunidades que algumas gravadoras perdem. A um tempo atrás, a gravadora x tinha as duas das principais cantoras de certo seguimento, sendo que uma por sua história, pioneirismo e sucesso e a outra também por sua história, porém mais pelo seu alto índice de vendagem e sucesso no meio secular. Ao invés da gravadora unir as duas e apostar em um projeto, eu sou totalmente leigo neste ramo, mas com toda certeza, posso te dizer que faria muito sucesso, só precisaria de um trabalho bem planejado, mas, ao invés disso, eles simplesmente deixaram de investir em uma das cantoras para focar somente na outra, foi uma perda muito grande, e posso te dizer que o lançamento da cantora que eles optaram por investir foi bem frustrante e desagradou boa parte do público. Sei que ninguém pode prever o futuro, mas há coisas que parecem ser tão óbvias, posso estar falando uma enorme bobagem, pois como já disse, apenas acompanho o ramo, não sou nem de longe um especialista no assunto, contudo, não parece que algumas gravadoras perdem grandes oportunidades por simplesmente não apostarem no novo?