Tudo Junto e Misturado

Em mais um voo pelo país folheio o jornal e me deparo com a notícia de que a Alpargatas ampliou sua participação na divisão societária da rede de lojas Osklen. Com esta novidade, a pretensão da majoritária Alpargatas é aumentar o número de lojas pelo Brasil e exterior e promover uma melhor otimização dos processos de folha de pagamento e investimentos. Em suma, uma empresa gigante assume o controle de uma marca de sucesso, em outra área de negócios e promove uma reestruturação nos processos visando melhorar a rentabilidade do investimento.

No mercado fonográfico mundial, recentemente a Universal Music incorporou a tradicional EMI, assumindo todo o catálogo, contratos artísticos, cast da companhia. Por decisão do órgão que regulamenta estas grandes negociações e fusões, para não configurar o risco de monopólio, a área de edição de músicas, o Publisher, ficou sob os cuidados da Sony Music. Sem dúvida, uma mega operação que promoveu alterações consideráveis em termos de market share e outras consequências no mercado fonográfico mundial.

Já faz um bom tempo que venho falando sobre a tendência de adesões entre gravadoras e selos no meio gospel nacional. Lembro-me que quando ainda era diretor da Line Records, lá pelos idos dos anos 2000, eu já imaginava e pregava que esta seria uma tendência irrefutável onde as grandes corporações assumiriam diversas etapas do processo acoplando pequenas e médias gravadoras. Na época cheguei inclusive a iniciar negociação com um selo de uma artista muito importante naquele tempo. Para situar bem os meus distintos 66 leitores, nesta época era muito comum artistas independentes começarem a crescer em interesse do grande público e consequentemente criarem para si estruturas que se assemelhavam à gravadoras para divulgar e distribuir seus próprios produtos.

Foi nesta época que surgiram os ‘ministérios’ que nada mais eram do que uma forma de tornar mais ‘espiritual’ algo que deveria ser tratado como artístico ou mesmo negócio. Não pegava bem, imaginavam os ‘levitas’, criar uma marca diretamente vinculado ao próprio nome, daí a ideia de se criar nomes pomposos para os ministérios. Inclusive já escrevi a respeito desta tendência aqui mesmo no blog. Sugiro que quem se interessar no assunto, faça uma pesquisa junto aos textos publicados.

O que antigamente surgia como uma tendência, hoje é fato e segue com cada vez mais força no mercado, especialmente o fonográfico. Para citar apenas a empresa na qual estou envolvido atualmente, temos em nosso negócio 6 labels sendo distribuídos. E há, neste momento, outros 3 selos em franco processo de negociação para juntarem-se a este seleto grupo. Nos EUA, junto à Provident, nosso braço gospel na terra do Tio Sam, há cerca de 20 labels debaixo da gestão da empresa de Nashville.

Se tempos atrás poderíamos elencar 40 ou mais gravadoras atuando no meio gospel nacional, atualmente este número reduz-se para 10 ou menos empresas. Não falo da existência, mas efetivamente de atuação, ou seja, manter-se ativamente trabalhando no mercado, produzindo, investindo e divulgando. O que temos hoje é uma turma de gravadoras no melhor estilo The Walking Dead vagando pelo mercado insistindo em sobreviver. Poucas são as empresas que realmente estão trabalhando de forma intensa, já contextualizados com o novo perfil e demandas do mercado.

E esta tendência de concentração seguirá forte pelos próximos anos. Isto é uma condição inequívoca! Pessoalmente imagino que nos próximos 3 anos teremos mudanças bem sensíveis no mercado fonográfico gospel no país onde restarão não mais do que 4 ou 5 empresas trabalhando em nível nacional. Outra característica do mercado, imagino eu, será o fortalecimento das majors ou gravadoras populares que já dominam o cenário secular, também controlando o meio gospel. Atualmente das 4 gravadoras mais importantes do país que atuam no meio secular, 3 destas já trabalham de alguma forma no mercado gospel.

Seguindo este modelo para os próximos anos teremos algumas mudanças que inevitavelmente afetarão várias etapas e atores do mainstream gospel. Do ponto de vista dos artistas, a estratégia de ficar trocando de gravadora a cada 2 ou 3 anos será cada vez mais difícil, afinal tendo poucas opções de empresas as chances de um artista com esta característica encontrar espaço no cast torna-se cada vez mais difícil. Também pelo fato de que muitos destes artistas costumam seguir a tática da terra arrasada quando de suas saídas ‘fechando portas’, rompendo relacionamentos e coisas do tipo tornando a chance de retornar cada vez mais complicada.

Outra questão neste ponto é que a concorrência interna irá se acirrar absurdamente, pois as gravadoras contarão com casts artísticos bem grandes, com muitos nomes, muitos dos quais em estilos musicais similares. Ou seja, já nos dias atuais percebemos essa tendência de concentração de artistas numa mesma gravadora e tudo indica que isto irá se ampliar daqui em diante.

Do ponto de vista do mercado, a concentração de gravadoras irá aumentar a força junto aos canais distribuidores. Se antigamente, um determinado lojista poderia se dar ao luxo de escolher essa ou aquela gravadora, ou mesmo forçar uma queda de braço por melhores condições de compra, com a concentração de fornecedores, a força deles aumenta substancialmente. E assim como as lojas, as mídias também sentirão bastante esta propalada concentração, pois o fornecimento de conteúdo estará restrito a poucos players.

Neste universo vislumbro que o mercado fonográfico, em especial, terá apenas 2 tipos de perfis de players. As mega gravadoras com catálogo de produtos amplo e enorme opção de artistas e em outro lado, artistas independentes utilizando-se cada vez mais das ferramentas de distribuição e marketing digital. Sem dúvida, pequenas e médias empresas neste cenário, estarão bem mais propensas a desaparecer ou serem absorvidas.

Nesta relação de parceria entre os selos e as grandes gravadoras o ideal é que cada um desempenhe sua função dentro de uma série de atividades e expectativas. Inclusive em outra oportunidade já falei a respeito sobre isso, mas não tem nada demais repetir. Os selos devem se manter ativos do ponto de vista artístico, ou seja, a produção de discos, a busca por novos talentos, a pesquisa por tendências, tudo isso deve ser mantido e focado pelos selos. Engana-se quem imagina que esta tendência visa eliminar os selos! Pelo contrário! O que as grandes gravadoras querem é que estes selos continuem ativos, trabalhando com foco na música! Somente assim, as gravadoras poderão direcionar seus olhos para as questões relacionadas ao marketing e distribuição.

Como mencionei acima, a Provident, gravadora gospel norte americana, possui mais de 20 labels em seu portifólio. E quem observar bem, verá que cada um destes labels possuem características bem definidas. Há um selo específico de Reggae Gospel, outro voltado à música instrumental, já uma terceira empresa dedica-se à música urbana com seus rappers cheios de marra e postura! Enfim, há uma infinidade de estilos e propostas e todas estas têm espaço no portifólio de uma grande gravadora.

No Brasil, ainda não observamos muito esta característica dos selos segmentados. Boa parte das gravadoras conta ou contou com um grande leque de estilos musicais em seu cast. A segmentação está mais presente em selos dedicados à distribuição de produtos relacionados a artistas. A AB Records, por exemplo, surgiu como opção para distribuição dos produtos da cantora Aline Barros. O mesmo se deu no selo Diante do Trono, Paixão, Fogo e Glória (David Quinlan), Apocalipse 16 do pregador Luo, só para citar alguns. Em alguns casos temos selos voltados a determinado estilo como a Celebrai, pequena empresa do Rio de Janeiro especializada no sub-gênero pentecostal conhecido como ‘fogo no pé’ – agora pensem na minha dificuldade em ter que explicar que estilo de música é esse para um executivo do mercado secular! Oh, Lord!

Creio que muito em breve teremos selos específicos no segmento gospel que serão encontrados somente no ambiente digital. Esta tendência já acontece no meio secular, principalmente em se tratando de selos de música eletrônica internacional. Esta é uma mudança comportamental em função das alterações culturais e principalmente tecnológicas.

Nos meus últimos textos tenho enfocado bastante sobre temas que abordem as mudanças do mercado fonográfico. Esta não é só uma preocupação pessoal em alertar a todos sobre as transformações, mas principalmente um exercício pessoal de análise e avaliação sobre tudo o que me cerca profissionalmente. O simples fato de dedicar alguns minutos para escrever estes textos contribuem bastante para que eu possa refletir mais a respeito do ambiente em que vivo e sobrevivo profissionalmente. Antes de beneficiar aos meus 66 leitores, este é um exercício e investimento pessoal.

Vou terminando por aqui, até porque estou na poltrona do meio de um voo da Gol Apertos Aéreos com destino a Curitiba. Meu pescoço está doendo absurdamente por ter que posicionar-me meio assim, meio de lado, já saindo, indo embora … (quem cantou RPM na juventude vai entender a piada). A minha vizinha de poltrona resolveu promover uma luta ranhida pelo braço da cadeira no meu lado esquerdo, então estou neste momento escrevendo e fazendo contorcionismo no melhor estilo daqueles chinezinhos que se apresentam no Cirque du Soleil.

Tudo dói …

Este texto é dedicado a uma jovem que conheci há pouco menos de um ano talvez. Mesmo com pouca idade, sua visão empresarial, empreendedora, talento artístico e simpatia extrema me chamaram a atenção. Coincidentemente escrevo esse texto sobre a mudança do mercado com a parceria entre selos e grandes gravadoras e justamente ela é um exemplo desta tendência, pois recentemente a Melody Gospel e a Sony Music firmaram parceria de distribuição. Este post é dedicado à querida Suellen Lima que nesta quarta-feira (15/Out) muda de estado civil, inicia uma nova vida a dois. Neste momento sigo neste voo (apertado) para participar deste momento tão especial dessa jovem e especial amiga. Que Deus possa abençoar ricamente esta união!

Continuo com torcicolo …

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, contorcionista, palestrante e consultor de marketing

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

One Comment

  • Felipe Moreno

    24/10/2014 at 15:27

    Muito obrigado por compartilhar sua visão de mercado, Maurício. Sua opinião ajuda quem tá aqui em baixo a entender por que é tão difícil e trabalhoso colher os frutos e investimentos feitos nesse cenário. É preciso trabalhar duro, mas vamos em frente!

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