SHOPPING CART

Usando a tecnologia com bom senso!

De vez em quando aproveito algum texto que julgo interessante e pertinente para o OBC e acabo publicando-o por aqui. Depois de uma viagem-relâmpago até a capital mineira, encontrei o texto a seguir. Vamos conhecer um pouco da opinião de João Marcelo Boscolli, profissional que tive o prazer de conhecer em uma reunião do comitê do Grammy Latino há alguns anos atrás.
A Máquina que pune o talento
O Auto-Tune é o Photoshop da voz. O cantor está desafinado? Auto-Tune nele. O software corrige a afinação criou, no campo da música, a recompensa sem o devido esforço, algo que a maioria dos humanos incessantemente, levando à falência qualquer método de ensino. Dane-se o mérito. Às favas a vocação. É como se o Ronaldinho Gaúcho usasse uma chuteira que o fizesse sempre acertar o gol. Treinar pra que?
O talento perdeu um pouco de sua importância, outrora vital. O ordinário e o extraordinário tornaram-se equivalentes. E o pior: com sua precisão matemática irreal, resultado de ordenadas e abscissas higienistas, o Auto-Tune transforma características singulares da voz humana em defeitos.
O estabelecimento de um padrão inatingível é a grande preocupação. Foi o que o Photoshop fez com a pele humana. Poros, rugas de expressão, pêlos e outras características passaram a ser classificados como defeitos. Isso gera uma gigantesca carga de frustrações, tristezas, sofrimentos e culpas. A quem interessa isso? A favor de quem é isso?
Seguindo a lógica do Auto-Tune, Nat King Cole, Aretha Franklin, Maria Callas, Elis Regina, Paulinho da Viola, Louis Armstrong e João Gilberto são desafinados. Simples assim. Mais do que a falência da meritocracia, o software pune o talento. Qual é o problema de cantar assim? Tenho uma lista enorme de cantores repletos de ‘imperfeições’ e que, ainda assim, me emocionam.
Se você encontrar Gisele Bündchen ao vivo perceberá que ela tem poros, marcas de expressão e que sua beleza e seu movimento ainda estão lá. Se assistir a Stevie Wonder ao vivo, ouvirá ‘imperfeições’ e igualmente sentirá que sua emoção, sua genialidade e seu carisma existem – sem o software de afinação. Por outro lado, é comum notarmos a decepção da platéia quando ouve ao vivo um cantor que gravou digitalmente dopado, com a voz corrigida pelo computador.
Gosto muito do Auto-Tune quando usado às clara, como efeito na voz, a serviço da música, assim como aprecio a utilização do Photoshop como ferramenta artística, ambos criando imagens e sons inéditos. Em arte, ao contrário da medicina, por exemplo, a liberdade deve ser total.  Mas sem fraude. Uma coisa é usar a tecnologia como extensão do talento de determinado artista; outra é usá-la  para esconder a falta de talento. Este texto e’, antes de tudo, uma defesa do ser humano, parte fundamental e determinante da natureza. Com mérito e liberdade, sem retoques.
João Marcelo Bôscoli é empresário e produtor musical.
Nota do Editor – Existem certos textos que reconheço humildemente de que gostaria de ter escrito. Talvez este texto acima possa entrar nesta categoria. O tema e a abordagem deste post do João Marcelo é absolutamente atual e importante para quem ama a verdadeira música e o talento. Nada substitui o talento. E a maior decepção para o público é deparar que o artista ‘perfeito’ do disco não é o mesmo do palco. Minha última solicitação é para que tanto designers e fotógrafos sejam o mais coerentes no uso do Photoshop como os produtores sejam bastante parcimoniosos no uso do Auto-Tune. Simples assim.

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Deixe uma resposta