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VAMOS FALAR DE MÚSICA?

Para quem me acompanha em alguma das inúmeras redes sociais em que divido parte de meu dia a dia, deve ter percebido que recentemente participei de uma mega convenção em Miami com alguns dos mais importantes profissionais do mercado artístico e fonográfico. E nos próximos textos que irei postar por aqui, tentarei esmiuçar um pouco mais de tudo o que foi comentado, apresentado, informado naqueles dias tão intensos. O objetivo de nosso blog desde sua criação há quase 10 anos atrás sempre foi de dividir um pouco de nosso conhecimento ajudando na capacitação dos artistas, mídias, profissionais que gravitam em torno do mercado cristão musical.

Os assuntos são vários e irei postá-los sem necessariamente seguir uma ordem de importância. Anotei vários insights, informações, dicas e observações sobre o que está acontecendo e o que provavelmente acontecerá nos próximos anos no exterior e no mercado brasileiro e sobre estas questões é que iremos tratar daqui em diante. Vasculhando meu caderno me deparo com um destes insights e literalmente o que escrevi ali foi “Atenção para a importância do repertório. Ideia de cooperativa ou criação colaborativa, pessoas reunidas especificamente para composição de hits”.

Este assunto surgiu em uma das apresentações dos países que participaram de nossa convenção. O projeto tinha como objetivo juntar alguns dos mais ativos e renomados compositores, arranjadores, produtores e a equipe do A&R da gravadora em sessões de brainstorming em busca de hits. O resultado desta iniciativa que mereceu destaque foi uma fusão de estilos, produção de qualidade e uma grande interação entre os profissionais que atuam num mesmo objetivo, mas que não necessariamente caminhavam juntos. Em poucas semanas de trabalho, algumas canções foram escritas, produzidas e apresentadas aos grandes artistas da companhia que se encontravam em fase de seleção de repertório. Já posso adiantar que alguns dos hits que tocarão exaustivamente nas rádios e playlists do mundo, serão fruto deste trabalho inovador.

Mudando o foco para o nosso dia a dia no mercado da música cristã no Brasil, vejo o quanto necessitamos de atitudes como esta proposta descrita acima. Falando em tom pessoal, vejo como é difícil selecionar repertórios de qualidade para artistas de nosso meio neste momento de certa escassez criativa e autoral. Tenho casos clássicos em que o artista e seu produtor nos apresentaram mais de 200 canções para no fim, serem selecionadas 2 a 3 canções de forma convicta e mais umas 2 ou 3 outras faixas sem tanta empolgação. Basta analisarmos as fichas técnicas dos mais recentes projetos dos grandes nomes do jet set gospel pra percebermos a escassez de novidades entre os nomes dos compositores e, principalmente, de temas, assuntos, propostas artísticas. Somos um meio em que um grande sucesso acaba influenciando por anos e anos os demais artistas, estilos e produções. Vale lembrar que quando Fernandinho estourou com “Faz Chover”, todo mundo gravou em seguida falando de ‘águas’, ‘chuvas’ e por aí vai … o mesmo aconteceu quando o Toque no Altar explodiu com “Restitui” e aí o assunto se tornou assunto recorrente rivalizando com o Leão do Imposto de Renda. Ter uma música de Anderson Freire no repertório de um disco significava um atestado ISO9002 de Sucesso, o que na verdade não se tornava realidade tamanha quantidade de músicas semelhantes sendo gravadas por artistas de norte a sul do país.

Os artistas precisam entender de uma vez por todas é que TODO projeto de sucesso se inicia através de uma boa música! O grande hitmaker Michael Sullivan repete sempre a mesma cantilena de que no fim, tudo se baseia na música! E eu concordo plenamente nisso! Não adianta ter uma estratégia bem elaborada, bons contatos, agenda intensa de shows e nem mesmo muita grana pra se investir e não ter a música! Há o caso recente de um artista que investiu muito dinheiro em rádios, em estrutura de shows, bom networking, produção no exterior, e tudo mais, para no fim não chegar a lugar algum! Especificamente neste caso, além da ausência de um hit, também considero a falta de carisma como o grande responsável pelo não sucesso do projeto, mas isto é tema para outro post.

Ações como esta cooperativa de compositores é uma iniciativa muito bem vinda em nosso meio. Melhor ainda é o conceito de produtores trabalhando lado a lado com estes profissionais. Na verdade, os produtores do meio gospel precisam rever suas respectivas atuações e forma de trabalho, pois em sua imensa maioria o que temos na verdade são arranjadores e não produtores que pensam de forma estratégica e analítica seus projetos. E, de verdade, acho que ultimamente (ou desde sempre) as tendências em nosso meio artístico gospel seguem de uma forma muito natural, ou pra usar a expressão da moda, de forma orgânica. Pouco se pensa. Pouco se analisa. Pouco se observa. Nada ou quase nada se pesquisa e busca por novas referências. E esta inércia acaba afetando diretamente o que se é produzido em nosso segmento. Até pouco tempo atrás, o estilo Cold Play (ops!), Hillsong de misturar louvor congregacional com rifs de guitarras, pop rock londrino e ministrações em meio a momentos de profundo mantra, tornou-se mais comum do que ouvir o depoimento do Senhor Excelentíssimo Ex-Presidente Lula afirmando que não sabia de nada.

Nestes dias de convenção, tive acesso a artistas do Leste Europeu, da Inglaterra, Alemanha, Áustria, dos Estados Unidos, Espanha, Portugal, Itália e, claro de nossos hermanos latinos do México, Colômbia, Uruguai, Chile, Argentina, Porto Rico, República Dominicana e tantos outros países, culturas e influências. À medida que tinha contato com seus trabalhos, anotava atentamente quais artistas de nosso cast gospel no Brasil tinham alguma sinergia com aquele artista internacional. Em alguns casos, mandava os links no próprio momento dos seus pocket shows ou apresentações. Esta troca de experiências, referências, sonoridades, é o que faz com que o artista cresça e torne-se relevante em meio ao marasmo criativo ululante da cena cultural.

Já postei aqui pelo blog alguns textos falando a respeito da importância da produção, do cuidado na escolha do repertório. Uma das minhas dicas sempre é investir no conhecimento, na cultura geral, e em nosso caso específico, no conhecimento da Palavra. Compositor que não tem o hábito da leitura é como guarda vidas que não sabe nadar, as coisas não se encaixam perfeitamente. Meu incentivo com este post é para que valorizemos a criatividade, a qualidade, novos sons, novas propostas musicais e artistas. Que a palavra seja valorizada em detrimento aos refrões de fácil assimilação. Que a poesia esteja presente e faça as pessoas pensarem e, principalmente, se emocionarem. Que os profissionais deste segmento valorizem encontros em busca de algo melhor, mais bem acabado e que atenda às demandas do público, do mercado, do segmento como um todo.

Fica a dica!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista e atualmente curtindo os sons de James Arthur, Os Arrais (novo projeto que já estou tendo o prazer de ouvir de forma exclusiva), Monsieur Periné e o novo single do DJ PV ft. Mauro Henrique.

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  • ANDERSONN CLAYTON

    ótimo texto, como sempre! Dicas e instruções valiosas para artistas, produtores, compositores e músicos. Vemos muito esse “gancho” de repetições nas músicas de estilo Pentecostal.
    Lembro-me bem que em 1994 quando a Shirley Carvalhaes inovou com “Faraó ou Deus” no álbum Primeiro Amor, todos passaram a gravar sobre abertura de mar, Moisés e etc…Cassiane com o seu CD Com Muito Louvor, levou seguidores do “Estilo Cassiane”, até cantores passaram a gravar com produção do esposo Jairinho para ver se decolavam com a “unção”…enfim…é o estilo que mais se copia. Culpa dos próprios cantores, que não exigem algo novo dos compositores.
    Recentemente Eliã Oliveira do nordeste do Brasil, apresentou músicas com temáticas Bíblicas e recitações de textos e teve êxito tal “inovação”…espalhou pra os cantores pentecostais rapidinho. E assim vai….

    • Mauricio Soares

      é …. isso denota falta de referências … todos bebendo das mesmas fontes …

      • Lucas

        Na verdade, isso se dá tanto no secular, principalmente no brasileiro, quanto no chamado “gospel”. Todos seguem receitas prontas, até que ela se esgota e surja uma nova. Quando alguém ousa romper esse ciclo de copia e cola, muitas vezes, dá certo, principalmente nos dias de hoje, que o youtube se tornou um grande meio de divulgação. O que falta é ousadia, criatividade e inspiração, pra não cair no erro de gravar um monte de música rasa e sem conteúdo, principalmente em um meio em que o conteúdo seria o principal.

  • Alex Junior

    É exatamente isso. E por saber disso me sinto mal, porque tenho canções tão criativas, mas me falta contato e verba pra grava-las ou divulga-las. Porém desistir jamais e podem escrever, um dia milhões de pessoas vão ser salvas através das musicas do cantor e compositor Allex Araujo. Eu até cheguei a mandar uma demo de qualidade bem ruim de um rap gospel no imbox do seu face há alguns anos atrás Mauricio, mas eu percebi que rap não é pra mim e hoje em dia eu me encontrei em canções melódicas e poéticas aonde realmente traz uma mensagem musical, espiritual e emocionante ao coração de quem ouve. Aguardo ansiosamente o dia em que iremos nos encontrar para que eu possa te mostra-las pessoalmente, sou um jovem de 21 anos, ex traficante de drogas que um dia teve um encontro de verdade com Jesus Cristo, obrigado por essas perolas que você compartilha conosco. Deus continue abençoando.

  • Allex Araujo

    É exatamente isso. E por saber disso me sinto mal, porque tenho canções tão criativas, mas me falta contato e verba pra grava-las ou divulga-las. Porém desistir jamais e podem escrever, um dia milhões de pessoas vão ser salvas através das musicas do cantor e compositor Allex Araujo. Eu até cheguei a mandar uma demo de qualidade bem ruim de um rap gospel no imbox do seu face há alguns anos atrás Mauricio, mas eu percebi que rap não é pra mim e hoje em dia eu me encontrei em canções melódicas e poéticas aonde realmente traz uma mensagem musical, espiritual e emocionante ao coração de quem ouve. Aguardo ansiosamente o dia em que iremos nos encontrar para que eu possa te mostra-las pessoalmente, sou um jovem de 21 anos, ex traficante de drogas que um dia teve um encontro de verdade com Jesus Cristo, obrigado por essas perolas que você compartilha conosco. Deus continue abençoando.

  • Fábio Nunes

    Aprendendo…