Vermeer e a Permanência do Sublime

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No último sábado, como de hábito, estive numa livraria pra tomar um café e torrar meu cartão de crédito com papel, livros, essas coisas que não dão status entende?

Quando já tinha me encantado com aquele clima, afinal caio sempre nos mesmos golpes da indústria cultural, dei de cara com um Moleskine que trazia a reprodução de uma obra do pintor holandês Vermeer — Johannes Vermeer (1632-1675).

Claro, levei o caderno e fui comparar a impressão da capa com a do livro que tenho sobre ele, de 1967, 68, sei lá.

Em casa, enquanto examinava as imagens, resolvi tirar umas fotos que ilustrariam este post.
O tema já estava escolhido: Vermeer e a permanência do sublime.

Mas depois, sabe como é… Deixei pra lá: não tenho tempo pra escrever, por causa dos trabalhos que me tomam dias e noites.

Entretanto, ao ver minha mãe comentando sobre a beleza do livro, e sobre a obra de Vermeer, novidade pra ela, me animei: agora vai! Se a nega gostou, ela que não é fanática por pintura, então vou publicar.

Foi? Que nada: não, ainda não era o suficiente.
“Depois eu vejo isso.”

Bom, aqui estou eu: final de sábado, na verdade já início de domingo…

Cheguei da mesma livraria, e ao descer da Brasserie, encontro um livro sobre o cara, o mesmo que tenho, só que em edição monumental, recente, trazendo as imagens grandes, enormes, coloridas e cheias de detalhes.

Ao redor do livro, diversas pessoas literalmente se amontoando, esperando pra folheá-lo.
Adivinha se eu fui uma delas? E se eu fui perguntar o preço?
Sim, baratíssimo, mas estava todo cheio de dedos — não comprei (ainda).

Mas depois desta 3a aparição de Vermeer nesta semana, resolvi desistir.
Chega, já entendi: vou falar de você, Vermeer…

Johannes Vermeer precisou de apenas quarenta e três anos de vida pra ser aquilo que eu considero como um dos maiores artistas de todos os tempos. Eu não: muita gente.
Victor Hugo, se minha memória não me trai, considerava o quadro Vista de Delft como o mais belo de todos os tempos.

Suas obras apresentam virtude rara hoje em dia: você não precisa ser professor de História da Arte, entender de pintura, de nada; é só olhar, a genialidade é clara, evidente.
A monumental produção do pintor holandês é tão repleta de significado que ainda hoje inspira outros artistas.

Do filme “Moça com Brinco de Pérolas”, de Peter Webber, de 2004 ao Moleskine da semana passada, as referências ao mestre podem ser encontradas com facilidade, mesmo depois de passados trezentos e trinta e cinco anos desde sua morte.

Pois é: 335 anos.

Que tal, hein? Uma obra que sobrevive à morte de seu criador e continua influenciando artistas depois de tanto tempo?
Como dizia minha amiga Maggie, da Graça Music, citando o meu amigo e genial locutor JC: “Queria ser ele?”

Olha, eu queria.

Por causa de caras como ele, briguei e brigo ainda pra me manter coerente com minhas convicções, muitas vezes tornando meu trabalho mais cansativo e me desgastando com alguns clientes que preferem cópias de material de alguém a serem originais — novamente honras ao Resgate, Leonardo Gonçalves, Heloísa Rosa e Banda & Voz, por jamais me terem pedido isso.

E quero dizer mais.

Deixar uma palavra de incentivo a você que fica se perguntando se vale a pena insistir nessa carreira, diante de tanta incompreensão dos que te cercam.

A você, designer da ESDI; cantor sem espaço na sua própria igreja; fotógrafo criticado pelo uso do preto e branco; pregador que não gira, sapateia ou fala em mistério; crítico literário; artista de teatro; estudante de francês; churrasqueiro vegetariano; cantor de soul music na terra do rebolation; restaurador de incunábulos; tradutor de javanês; professor de história; caçador de andróides; cineasta independente…

Eu quero incentivar você, artista radical, a continuar a ser o mesmo, dando um sonoro não a todos os que te convidam a mudar pra ser aceito por todo mundo.
Morra seco, duro e feliz, mas não perca a sua essência.

Se o mundo não te aceita agora, pior pra ele: você tem toda a eternidade pra ser admirado — não é Van Gogh?

Quer saber? Cante ópera. Forme-se em filosofia. Toque oboé.

Não permita jamais que sua arte, seu dom, seja entregue de qualquer forma, apenas pra agradar a um mercado que te convida a fazer de qualquer jeito.
Faça sucesso sim! Venda e muito! Mas não se despersonalize.

Se tiver que escolher entre ser mais um pra agradar a todo mundo por pouco tempo ou ser você e agradar a poucos pelo resto da vida, prefira a segunda opção.

Seja você.
Seja um Vermeer.
E dure pra sempre.

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Carlos André Gomes é designer e já nasceu com 40 anos.

Obras de Vermeer na Wikipedia

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