SHOPPING CART

Vigília, Maratona, Gincana ou Pegadinha? Observando os shows de Música Gospel pelo País

Tema recorrente de textos, debates, palestras, discussões acaloradas nas redes sociais, a questão do profissionalismo no meio gospel brasileiro é um alvo perseguido por alguns dos envolvidos neste segmento. Como mais um profissional deste grupo e observador contumaz do mercado em questão, percebo claramente a necessidade de um upgrade nas relações que permeiam esse segmento que só cresce nos últimos anos.

O tema “necessidade de maior profissionalismo no meio evangélico brasileiro” é quase um mantra que vem sendo repetido nos últimos anos. Realmente é bastante premente que as diversas engrenagens e personagens do meio gospel tupiniquim sejam positivamente transformadas por uma maior valorização dos componentes técnicos, profissionais, teóricos visando um crescimento na qualidade das diferentes atividades.

Sou um dos maiores entusiastas desta mudança de pensamento, deixando de lado todo o amadorismo, “jeitinho”, da falta de planejamento e principalmente, da enorme influência  de pseudos-entendidos-de-tudo, muitos dos quais, mega líderes que sonham um dia ser como uma espécie de Señor Abravanel, também conhecido como Silvio Santos, o dono do Baú! Um dos grandes motivadores para a criação do Observatório Cristão foi justamente essa necessidade em cooperar para uma melhoria no mercado gospel em suas mais diversas vertentes.

Pois bem, semanas atrás tive um bom papo com um promotor de evento e no meio da conversa ele me confidenciou a “saia justa” que estava passando por ter que ‘desconvidar’ alguns artistas para um evento que ele estava organizando simplesmente porque a principal atração de seu evento simplesmente exigia que ninguém dividisse o palco com ele. No máximo, as atrações poderiam se apresentar após ele! Mas vamos aos fatos que antecederam a esta novela para que tenhamos uma melhor leitura sobre algumas das motivações. No fim, vocês mesmos poderão avaliar quem está certo ou errado, se é que há alguém nesta condição em meio a todo esse imbróglio.

Personagem Principal: artista que figura entre os mais renomados nomes da constelação da música gospel querendo mostrar todo seu repertório de sucessos em shows pelo país com seu rider de palco sem qualquer interferência alheia e sem maiores traumas e chateações.

Personagem Secundário: promotor de show que no afã de agradar aos artistas locais, líderes, empresários, políticos, patrocinadores e até mesmo ao pipoqueiro tradicional da cidade, opta por fazer um evento com 87 atrações musicais que são sucesso na região, mais 45 orações, 93 avisos, 23 sorteios de leques, bonés, CDs, almoço-cortesia no restaurante Sabor de Minas e coisas do tipo.

Trama principal: Personagem Principal cansado de apresentar-se às 2 horas da madrugada, muitas das vezes para 30% do público que já esteve presente no local assistindo desde às 16h e com todo seu rider completamente desfigurado após sucessivas apresentações de artistas locais, busca uma mudança radical.

Epílogo: realmente cansado de tantas chateações, Personagem Principal radicaliza e coloca uma cláusula inegociável em seu contrato, proibindo a apresentação de outro artista momentos antes do seu show.

Basicamente esta experiência é comum a todos os grandes artistas do jet set musical gospel! Seja nos grandes centros como no longínquo Amapá, evento de música gospel em sua grande e retumbante maioria é uma maratona de artistas locais tentando animar o público que na verdade está ali para assistir à apresentação de um único artista ou no máximo a 2 ou 3 atrações de maior relevância. A ideia do artista “que chama o público” é mais antiga do que andar em pé! E tão antiga como esse ditado é a tática de deixar a aguardada atração como o grand finale do evento. Afinal, se o artista TOP tocar logo no início, quem é que vai ficar para assistir às demais atrações locais? Essa é a justificativa de 10 entre 10 promotores de evento.

Só que esta tática cria uma série de transtornos e chateações. A principal é a falta de respeito com o público que é obrigado a assistir enfadonhas apresentações muitas das quais com os indefectíveis: “Quem tá feliz diz amém!” ou “Quero ouvir um brado de júbilo! Wow”. Realmente é muito chato ficar horas e mais horas em pé aguardando a atração principal. Aí quando o locutor avisa que o artista estará em poucos minutos subindo ao palco, o público ainda tem que aturar mais 30 minutos de ajustes da banda. Resumo da ópera: quando a atração chega ao palco, os gatos pingados extenuados já perderam toda a vitalidade e o show acaba muitas das vezes antes do horário previsto pela mais absoluta falta de entusiasmo público/artista.

No entanto, esta atitude decidida pelo Personagem Principal como praxe em suas apresentações – ser a única atração do palco – acabou tornando-se um erro estratégico e neste momento vem inclusive criando uma imagem negativa para o artista. Mesmo estando com a agenda lotada até o próximo ano e contando em sua maioria com uma enorme plateia nos shows e, ainda, conseguindo cada vez mais cachês vultosos. O que percebo e ouço neste momento pelo país é uma reclamação constante sobre tal atitude. Reclamações, frise-se, oriundas de promotores de eventos e também de artistas, muitos dos quais, nomes tão fortes e importantes como do Personagem Principal e que a partir de agora devem ser “autorizados” pelo artista principal a participarem de seus shows. Ressalte-se aí, que o Personagem Principal tem sido irredutível na grande maioria das solicitações como se fosse um César no Coliseu apontando seu polegar para cima e para baixo decidindo quem vive ou quem vira fast food de leões.

Aí, creio, cabe muito mais um pequeno ajuste do que uma volta às origens. Imagino que mais do que a limitação de apresentações, o determinante seja a fixação de um horário limite para a subida do artista ao palco. Até penso que esta cláusula estivesse presente no modelo anterior de contrato e por diferentes motivos não foi devidamente respeitada em eventos. No entanto, não é porque a “lei não pegou” que ela mereça ser adaptada! A “lei” deve ser, antes de qualquer coisa, respeitada e praticada! Esta é uma prática usual entre os artistas gospel internacionais. Vale lembrar que recentemente no show do Michael W. Smith em São Paulo, este argumento do horário de início da apresentação do artista foi utilizado pela produção do cantor baseado em cláusula do contrato e que no fim, por amadorismo da produção do evento, acabou criando um grande constrangimento.

Um dos argumentos que soube sobre essa prática do “o palco é só pra mim” é justamente a necessidade de proteger o artista pela falta de respeito, organização e noção de grande parte dos promotores de eventos. Confesso que, na minha modesta opinião, esse tipo de argumento é completamente vazio, até porque como podemos aplicar essa prática em festivais como o Rock in Rio ou o SWU? Esta forma de trabalho está atacando uma prática errada com uma solução totalmente equivocada, pois além de criar uma imagem negativa para o artista, irá isolá-lo completamente no circuito dos grandes eventos de música gospel pelo país.

Quando falo de profissionalismo penso imediatamente em planejamento, em ações estratégicas, em análise de resultados e em foco de objetivos e metas. Neste caso, imagino que a decisão tenha sido tomada motivada por algum contratempo em que o artista, já cansado de tantas chateações, simplesmente determinou de que daquele show em diante, o palco deveria ser sempre só dele!

Este caso específico é só um olhar descompromissado sobre um erro estratégico sob a aura do “profissionalismo” que pode ser corrigido num simples momento de lucidez dos envolvidos. Outros erros estão sendo cometidos diuturnamente em nosso meio na busca do famoso upgrade que venho comentando cotidianamente. Para todos estes casos, a dica é a mesma: não tome decisões sem antes avaliar o resultado final. Procure sempre analisar todos os desmembramentos de uma decisão. Observar suas atitudes é um sinal maduro de quem pretende fazer diferença no mercado. Lembrando também que errar é natural e corrigir-se é sinônimo de maturidade e inteligência.

Sem querer colocar os holofotes no Personagem Principal, este texto deve servir principalmente como alerta aos Personagens Secundários, os promotores de eventos! Valorizem o público que participa de seus eventos! Não os tratem como boiada! Respeitem o público como consumidores! Uma dica na montagem do roteiro do evento é começar o cronograma das atividades de trás para a frente. Ou seja, estabeleça o horário máximo em que deve acabar o evento. Em seguida, em acordo com a produção do artista principal, informe-se sobre o tempo médio de show. Assim, você vai poder estabelecer o horário máximo em que o artista deverá subir ao palco e programar as atrações anteriores. Não exagere nas atrações locais, nos sorteios, nos avisos! É tão simples não? Mas infelizmente grande parte dos promotores de eventos erram justamente nas questões mais elementares!

Mauricio Soares, publicitário, blogueiro, jornalista, alguém com experiência de muitas horas e horas de shows gospel em todo o país e que assim como qualquer pessoa que gosta de assistir eventos, não dispensa conforto, respeito e qualidade. 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

Deixe uma resposta