Voltando antes que os 69 leitores desapareçam de vez!

Se não me engano, desde o fim de 2017 não publico algo novo por aqui no blog … e de uma forma muito humilde quero justificar-me que o ofício de escrever, de publicar meus textos, seja aqui mesmo ou em outros veículos de comunicação, sempre foi encarado por mim muito mais como um lazer, um hobby ou principalmente, um prazer pessoal, do que algo mais oficial ou uma obrigação. Há momentos em que minha produção de textos é intensa … já em outras oportunidades, por falta de tempo e mesmo de inspiração, vivenciei períodos de estiagens intensas. No entanto, uma pausa tão longa como a que tivemos nestes últimos 90 dias, creio que seja algo inédito nos 11 anos de existência do Observatório Cristão e minha grande justificativa, até por respeito aos nossos diletos 69 leitores, é única, a saber: absoluta falta de vontade de escrever algo relevante mesmo tendo muitos insights e temas pensados ao longo deste período.

Dias atrás entreguei um texto para uma revista digital que será lançada em breve. O editor desta revista havia feito o convite a mim desde o fim do ano passado e pelas mesmas justificativas citadas acima, protelei ao máximo a entrega do texto inédito, até que por insistência do editor, me impus parar tudo e atender ao pedido. No texto dei um rápido resumo sobre o que vivemos no mercado da música em 2017 com a efetiva transição do consumo físico para digital. A experiência de sentar-me à frente da tela do computador, talvez tenha sido o estopim para que neste momento, a bordo de um voo entre o Rio de Janeiro, em plena intervenção federal, e a capital mineira, eu esteja teclando este texto … que na verdade, confesso, ainda não sei qual tema irei discorrer nas próximas linhas. O importante é que de alguma forma, parece-me que a vontade de romper com o ócio criativo está sendo combatido neste momento. É pra aplaudir de pé igreja!

Ainda sobre este tempo de escassez de textos, me surpreendi (continuo achando que minha relevância e audiência no blog são bem abaixo do que a realidade insiste em demonstrar) com a enorme quantidade de mensagens de amigos, alguns conhecidos e até mesmo gente que só conheço virtualmente, me perguntando sobre a ausência de novos textos ou ainda, relatando a necessidade de atualizações do blog. Confesso que este interesse me deixou bastante feliz e até mesmo lisonjeado. Desde quando começamos a publicar nossos textos há mais de uma década, a intenção do blog sempre foi de contribuir de alguma forma para um melhor entendimento do mercado e temas relacionados ao marketing, comunicação, vendas e estratégias. Nos últimos 3 anos, tive a grata oportunidade de contribuir com 9 projetos de TCC e já em 2018, recebi o pedido de mais 2 formandos. Ou seja, creio que o Observatório Cristão de forma direta ou indireta vem contribuindo para um melhor entendimento, especialmente sobre o mercado da música como um todo.

Então, aproveitando o texto que escrevi ontem, gostaria de seguir este novo post – com uma enorme introdução, me desculpem! – abordando alguns aspectos que me chamaram a atenção no último ano. Em primeiro lugar, creio que daqui 10 anos, quando olharmos os livros de história ou textos jornalísticos, o ano de 2017 poderá ser considerado como o marco oficial da transição do consumo de música. Efetivamente foi neste ano em que houve o grande salto do consumo da música pelos aplicativos de áudio streaming revertendo de uma vez por todas o modelo de consumo por parte do público. Estima-se que no mercado brasileiro, cerca de 97% do faturamento entre as majors – principais gravadoras – será proveniente de operações digitais em contraste às vendas físicas de CDs e DVDs. Falando de meu dia a dia, no ano de 2017 tivemos a oportunidade de lançar apenas 2 produtos físicos e 238 projetos exclusivamente digitais, ou seja, a disparidade entre os formatos é absoluta e irrevogável.

Então, o que era apenas futuro, tornou-se presente! A música agora é oficialmente digital!

Com esta nova cultura, podemos observar mudanças profundas no meio fonográfico e porque não dizer, no ambiente artístico como um todo. Gostaria de aproveitar para destacar alguns destes novos aspectos. Em primeiro lugar, a forma de apresentação dos conteúdos para o mercado e público sofreram várias mudanças. Sai o álbum com 12, 14 faixas para dar lugar a singles e EPs … tudo sempre acompanhado da versão em vídeo, seja através de clipes, Lyric Videos, Live Sessions ou mesmo Pseudo Vídeos (quando é só a capa estática do produto). Com isso o ritmo de produção e mesmo o intervalo entre os lançamentos é alterado sistematicamente, pois se antes uma produção demorava em média 6 meses e outros 18 meses de trabalho, neste atual cenário, o tempo de produção pode chegar a dias, em caso de um single e o tempo de divulgação demanda não mais do que 90 dias, em raríssimas exceções. Agora o artista não pode se dar ao luxo de grandes espaços sem novidades … a necessidade de constantemente lançar conteúdos torna o trabalho muito mais intenso (um dos meus últimos textos aqui publicados trata bem deste assunto, vale a leitura!).

Eis que tudo se fez novo … de novo! Atualize-se urgentemente para não correr o risco de ficar para a história ou mesmo no mais puro ostracismo e esquecimento!

Uma mudança neste novo cenário e que merece destaque neste momento tem a ver com a democratização em nomes, geografia e estilos. Tentando resumir esta afirmação, acho melhor dissecá-la, então explicando, até alguns anos atrás vivíamos uma escassez de novos talentos, basicamente em função dos altos custos para transformar uma promessa em sucesso, pela própria característica reativa e pouco audaciosa de boa parte das gravadoras do segmento gospel no país e, ainda pela falta de disposição de emissoras de rádio em abrir espaço para novos nomes e novas propostas musicais. Ou seja, vivíamos um círculo vicioso sempre com os mesmos artistas no topo, os mesmos estilos musicais repetidos à exaustão, mesmos produtores musicais, mesmos compositores e assim seguia a mesma toada numa falta de novidades irritante. Basta lembrar que o último artista que surgiu nos últimos anos, com nova proposta musical, foi o cantor Thalles Roberto no longínquo ano de 2008/09. Em comparação com os dois ou três últimos anos, tivemos uma profusão de novidades de estilos e de nomes, de propostas musicais e sonoridades. Isto deve-se basicamente ao novo formato de consumo através dos aplicativos de vídeo e áudio streaming.

Hoje é muito mais fácil tornar-se conhecido e relevante. As tecnologias aproximam as pessoas, encurtam os caminhos e têm capacidade de transformar uma carreira. No entanto, talento, qualidade e conhecimento técnico são indispensáveis, sempre, estejam atentos a isto!

A democratização não se limitou ao estilo ou mesmo aos artistas, mas também alargou substancialmente as fronteiras, ou melhor, o digital eliminou por completo as barreiras, tornando o consumo global e de igual forma, as chances de artistas de regiões fora do eixo Rio-São Paulo tornaram-se reais, algo inconcebível tempos atrás. Para ilustrar esta afirmação neste momento tenho trabalhado com artistas do sul do país, assim bem como artistas do Centro Oeste, inclusive residindo em Palmas, Tocantins. Trabalho ainda com artistas do interior da Bahia, de Aracaju, interior de São Paulo e até mesmo em Seattle, EUA, caso de Arthur Calazans, front man do Ministério CFC. Enfim, não há mais dificuldades na distância porque as distâncias simplesmente inexistem neste momento. E isso é fantástico!

Não há mais distância ou grandes entraves! O que impede um artista atingir seu público é qualidade de conteúdo e investimento da forma correta!

Outra questão que observamos em 2017 e que merece atenção é o encolhimento de alguns artistas. É notório que alguns medalhões do meio gospel estão vivenciando tempos estranhos com o advento do mercado digital. A grande maioria destes artistas que viveram o ápice na carreira atrelada à venda de discos carece da vontade em se readequar a um novo cenário, aliada a uma falta de profissionais capacitados à volta e mesmo um estímulo extra, por parte de suas respectivas gravadoras. Outro dia parei para analisar números de vários artistas no tocante a streams e o susto foi grande. Artistas com 3 anos de carreira superando outros com 20 anos de estrada … e o mais impressionante é que este fenômeno já passa a ser percebido também no line up dos grandes shows de música gospel pelo país, ou nas programações das emissoras de rádio. Enfim, quem imaginava que teria uma carreira longeva e tranquila no melhor ‘céu de brigadeiro’ após ter alcançado o sucesso anos atrás, é bom mudar este conceito, arregaçar as mangas, tirar o ‘escorpião do bolso’ – em bom português, investir mesmo! – e se atualizar sobre ferramentas e estratégias. Ou seja, trabalhar com foco, simples assim.

Vamos trabalhar! Chega de ficar no sofá da sala achando que as coisas acontecerão normalmente!

Ou seja, o mercado da música está talvez num dos seus melhores momentos das últimas décadas. Como profissional do segmento há alguns anos, vivo hoje uma experiência incrível de mesmo após tanto tempo de mercado, ainda aprender e sentir-me estimulado a crescer e a trabalhar mais e mais. Vejo claramente que há artistas que estão vibrando com este cenário, que estão trabalhando muito e, consequentemente estão colhendo resultados incríveis. Já outros estão literalmente ‘correndo atrás’ … não do prejuízo, até porque não sei quem cunhou esta expressão tão louca … afinal, devemos correr atrás é do lucro, porque do prejuízo corre-se dele e não para ele, mas enfim … há artistas que estão buscando adaptar-se às novas demandas e outros que simplesmente resolveram aposentar as chuteiras e deixarem-se se levar pela correnteza ladeira abaixo … o recado está dado! Vamos trabalhar e colocar a música gospel de fato no local em que deveria estar no mundo digital nos últimos tempos.

Finalizo este texto com uma boa notícia e uma mensagem de parabéns. O excelente trabalho que Lincoln Baena, editor de música cristã da Deezer Brasil vem realizando nos últimos anos chamou a atenção do board da companhia no mundo e desde o início de 2018, o editor brazuca assumiu o posto de editor da Deezer na América Latina para o mercado cristão. Agora, Baena coordena 20 países dentro da plataforma. Parabéns!

Enjoy!

Mauricio Soares, diretor artístico da Sony Music, publicitário, jornalista e palestrante. Agora, voltando com tudo para o blog!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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