Voltando ao blog e falando de números…

Não sei nem bem como começar a escrever este texto aqui para o blog. Afinal são tantos e tantos meses sem aparecer por aqui para postar algum texto que eu acho sinceramente que perdi a forma de escrever. Quero, em respeito aos meus queridos 69 leitores (talvez hoje nem mais existam!) justificar minha ausência por aqui. Na verdade, não atualizei o Observatório Cristão por alguns fatores, sendo o principal deles, minha mais absoluta falta de tempo, misturada a uma falta de vontade, criatividade, paixão por escrever algum texto. Sempre deixei claro de que o exercício da escrita para mim deveria funcionar como um prazer, muito mais do que um compromisso ou algo mais comercial. E, desta forma, a vontade de escrever simplesmente não veio, mesmo minha mente sempre em processo de ebulição por temas, insights, novas estratégias e tudo mais. Acho que neste período ‘sabático’ de quase um ano, ao menos soube me respeitar e deixar que as coisas fluíssem mais naturalmente.

Confesso que não sei se esta paixão voltará como antes ou se apenas estou me distraindo num vôo de quase 3 horas com destino a João Pessoa, belíssima capital paraibana. Espero que nos próximos dias ou semanas eu consiga ao menos produzir mais alguns textos para que o hábito volte naturalmente e que a minha mente volte ao ponto de ebulição máxima de ideias e textos. Vamos ver o que vai dar … ao menos eu tenho plena consciência de que preciso me esforçar para recuperar a atenção dos diletos leitores.

E, por falar em leitores, quero também agradecer aos muitos relatos de pessoas pedindo para que eu não abandonasse o Observatório Cristão. Fiquei especialmente impressionado ao conhecer novos amigos reais em Londres e Paris que confessaram serem leitores do blog. Fiquei pasmo! Até diria que um pouco emocionado de saber como o nosso modesto espaço tem servido para estimular e orientar pessoas tão longe de nossa terra natal. Também recebi muitos feedbacks incríveis de pessoas nas muitas palestras que proferi pelo país nesse ano, também durante as feiras, festivais e concursos e, ainda, pelas inúmeras mensagens pelas redes sociais. Realmente me sinto muito acolhido e respeitado por tantas mensagens e testemunhos tão especiais e intensos.

Vamos lá … nem sei por onde começar … podemos falar um pouco sobre o mercado da música no Brasil ou então sobre as novas estratégias … ou ainda, um apanhado de tudo o que rolou do mercado da música gospel no Brasil em 2019 … a verdade é que neste emaranhado de temas, preciso definir uma melhor ordem e propor algo que faça valer estes seus minutos de leitura …

Acho que devemos primeiro atualizar os números do mercado da música no Brasil e no mundo … vamos aos dados:

A América Latina é a região de maior crescimento no mercado da música em todo o planeta, pelo quarto ano consecutivo. E nesta região, o Brasil é o mercado líder em consumo de música, posicionando-se na 10ª posição em todo o mundo.

Ou seja, o mercado brasileiro é uma potência, possui uma capacidade de crescimento para os próximos anos enorme e já se posiciona entre os maiores mercados globalmente. Levando-se em consideração números mais atualizados do mercado com referência a 2018, a receita total do mercado da música no mundo cresceu 9,7% em relação ao ano anterior e crescimento no consumo de streaming em 46,9%. No mesmo período no Brasil, a receita do mercado da música cresceu 15,5% e a receita em consumo de streaming, incríveis 69,5%.

O mercado da música no Brasil irá superar em 2019 a marca histórica de 1 bilhão de reais!

Os dados parciais do mercado da música no Brasil indicam que teremos um crescimento de 16,7% em receitas para 2019. Com crescimento de 23,4% em receita de streaming e com o total de 99% do faturamento do universo da música proveniente do ambiente digital. Ou seja, o mercado da música no Brasil é quase que 100% digital. E aí não adianta dizer que o povo evangélico ainda compra CDs, que no interior ainda se consome produtos físicos, que os fãs precisam ter os produtos pra coleção e bla, bla, bla, bla … acabou! Chega! Já foi! Pode fazer beicinho, oração contrária, criar campanha, jejum … simplesmente não vai rolar … é o caso clássico do ‘aceita que dói menos! Assine um aplicativo de música e divirta-se! #vemprostreaming’.

Seguindo com mais alguns números … a população brasileira é estimada em 210 milhões de pessoas. A população com aparelhos de telefonia móvel no país ultrapassa a marca de 220 milhões e o número de usuários de aplicativos de áudio streaming está bem próximo a 20 milhões de pessoas, sendo que no caso de contas do formato “Família” onde 5 a 6 pessoas estão sob uma única assinatura, entende-se apenas como um único usuário. O número de assinantes vem crescendo muito mês a mês. O acesso à internet vem crescendo no país e cada vez mais se interiorizando. A economia vem dando mostras significativas de crescimento no país e a expectativa é de que 2020 será o grande salto depois de anos e anos de recessão. Ou seja, as perspectivas para o mercado da música para os próximos períodos no Brasil são, sem dúvida, as melhores possíveis!

Nesta semana o Kemuel entrou no seleto grupo de artistas com mais de 1 milhão de ouvintes mensais no Spotify. O quinteto de roupas coloridas, música de qualidade e muita atitude, soma-se agora a nomes como Gabriela Rocha, Aline Barros, Fernandinho, Preto no Branco. Para quem não está bem familiarizado com os dados do mercado, pode achar que ter 1 milhão de ouvintes é algo incrível do tipo: “É pra aplaudir de pé igreja!” e de fato, são números grandes e que merecem ser comemorados. No entanto, se olharmos para o que ocorre neste momento entre os artistas seculares brazucas, a distância nestes números é quase que vexatória … enfim, ainda estamos muito atrás do mercado secular, algo bem diferente do que acontecia antigamente nos tempos do CD.

É notório que a barreira da grande mídia, que por anos e anos ignorou o mercado da música gospel no Brasil, especialmente de uns 5 anos para cá, praticamente não existe mais. Artistas como Fernandinho, Aline Barros, Ludmila Ferber, Damares, Priscilla Alcântara, Kemuel, Gabriela Rocha, Fernanda Brum, Régis Danese, Irmão Lázaro, Preto no Branco, são presença constante nos programas de TV das diferentes emissoras pelo país. As gravadoras seculares que também por décadas mantinham-se a largo do mercado gospel, estão há quase uma década trabalhando junto a este mercado. E aqui quero fazer um pequeno registro. Em janeiro de 2020 completarei minha primeira década à frente do projeto mais desafiador e incrível que tive em 30 anos de carreira, dirigir a área de música cristã da Sony Music, hoje a empresa líder de mercado do segmento no país. Nem nos meus melhores sonhos e planos imaginava que teria tanto sucesso e crescimento como o que tenho vivido nestes 10 anos. Sou muito grato a Deus por me usar desta forma! Enfim, o que eu quero destacar neste momento é que o segmento gospel no Brasil é um mercado de cerca de 60 milhões de brasileiros e que, somados aos tantos e tantos milhões de católicos, podemos estimar que temos um mercado cristão no país de algo em torno de 100 a 120 milhões de pessoas, ou seja, o segundo maior do gênero no planeta.

E aí fica minha dúvida: então como que um mercado deste tamanho ainda tem números tão tímidos em se tratando de resultados de streaming?

A resposta é simples (eu acho) … ainda precisamos promover uma verdadeira revolução de costumes no segmento cristão e isso implica em mudança de postura dos artistas, gravadoras, formadores de opinião e por fim, do público consumidor.

Sou chamado por muitos amigos como o psicopata digital porque sempre que posso, trago o tema da música e das plataformas digitais para os papos e conversas. Longe de me achar uma pessoa normal, o que tenho pra me justificar é que causa em mim uma profunda agonia, muitas das vezes acompanhada de frustração e mesmo vergonha, ver como o mercado gospel no Brasil ainda segue distante do mercado secular. Isso é revoltante muitas das vezes! Como trabalho numa corporação global, tenho acesso a dados e números do mercado da música e de artistas em todos os lugares do planeta. Enquanto falamos de milhares ou até milhões, o mercado trata de bilhões, ou seja, é como se estivéssemos no jardim de infância e eles no doutorado! A distância de realidades é assustadora!

Do ponto de vista do todo, temos bons números! Algumas playlists de conteúdo gospel das plataformas no país encontram-se entre as Top10 que mais movimentam streams. O segmento, especialmente na Deezer, tem muita relevância em comparação com outros estilos musicais. Hoje, as 2 principais plataformas do país, Spotify e Deezer, possuem profissionais específicos para o mercado gospel. Outras plataformas como YouTube Music, Apple Music e Amazon Music também entendem a importância do segmento, enfim, no atacado até que não passamos vergonha, mas no varejo, os números e resultados são bastante tímidos, infelizmente!

Ainda falando de números e seguindo mostrando a incoerência de algumas questões de nosso meio, quero agora ater-me à relevância de nossos artistas nas redes sociais e comparar com os resultados em streaming. Por exemplo, Aline Barros é um ícone da música cristã no Brasil em todos os tempos. Acho que até hoje, Aline Barros é a artista de música gospel que de fato rompeu a barreira do segmento e conquistou o que chamamos de crossover, ou seja, ultrapassou o reconhecimento de seu próprio mercado e tornou-se referência fora das quatro linhas do meio gospel. Isso é incontestável. Nas redes sociais, Aline Barros soma mais de 25 milhões de seguidores nas diferentes plataformas e ambientes. Quando esta artista chegou na Sony Music, o número de seguidores mensais do Spotify não passava de 230 mil … aí pouco mais de 1 ano e meio depois, ela ultrapassou a marca de 1 milhão. Aparentemente um feito e tanto, não é mesmo? Imagino que, por um lado sim, pois para crescer tanto em tão pouco tempo foi necessário que mudanças de postura e estratégias fossem estabelecidas. Agora, do ponto de vista do seu tamanho nas redes sociais, do alcance de suas postagens e relevância, parece-se que essa marca de 1 milhão, talvez esteja aquém de sua capacidade e possibilidades. Na verdade, peguei um único exemplo, porque podemos adaptar e colocar qualquer outro artista do segmento e teremos exatamente a mesma percepção.

A pergunta então é: será que o público gospel curte mais saber notícias do artista do que de fato ouvir suas músicas?

Sem dúvida, há uma incoerência de números em nosso meio! Se os artistas seguem com suas agendas lotadas, muitos dos quais se apresentando para dezenas de milhares de pessoas pelo país, contam com legiões de seguidores em suas redes sociais, o público consumidor do segmento soma mais de uma centena de milhões no país (sem contar o consumo de pessoas fora do país, vale lembrar que as plataformas hoje são globais!) e a qualidade da música e a variedade de estilos vem crescendo a cada dia, porque os números em streams são ainda tão tímidos se comparados ao que vemos no mercado secular tupiniquim?

Recentemente promovi mais uma edição do Treinamento Digital para artistas do cast Sony Music e alguns convidados. Foram mais de 8 horas de palestras com profissionais das plataformas – Deezer, Spotify, Apple Music, Amazon Music, Tik Tok, Instagram, YouTube Music, Facebook, além das equipes de Sales, Marketing, Royalties e Planejamento de Mídia Sony Music. Ou seja, uma verdadeira imersão no universo da música e do mercado digital. Passados alguns dias desta experiência é nítido como alguns dos artistas participantes mudaram completamente suas atitudes no dia a dia e como consequência desta mudança, os seus respectivos cresceram exponencialmente. Simples assim!

O artista que fala de música, incentiva o seu público a consumir música nas plataformas, se engaja, se utiliza de campanhas e ações de marketing, vai seguramente colher resultados melhores. Não há mágica! Quem trabalha focado e de forma correta, vai ter crescimento nos números!

Para não me alongar muito neste texto (parece que a vontade de escrever está voltando, eita!) vou partir agora para a fase final tentando resumir tudo o que falamos até aqui …

Em resumo, o Brasil é um mercado incrível e muito intenso para a música. Vivemos num país que tradicionalmente é simpático a novas tecnologias, onde a música faz parte de nossa identidade cultural e onde há uma variedade absurda de estilos musicais, artistas e possibilidades. Somos vistos como um grande mercado e por isso mesmo, ainda nos anos de 2020 e 2021 novas plataformas de entretenimento estarão desembarcando no país. Recentemente a Amazon Music chegou entre nós e tudo indica que no próximo ano fará ações bastante agressivas de captação de assinantes, inclusive junto ao público cristão. O Tik Tok, febre entre crianças e jovens, estará lançando uma nova plataforma de áudio e vídeo streaming por aqui e promete revolucionar o mercado ainda mais. Seguiremos crescendo em receita pelos próximos anos (expectativa é de pelo menos mais 5 anos pela frente com crescimento na casa de dois dígitos) e o número de assinantes das plataformas tende a mais do que dobrar nos próximos dois anos.

E aí, para literalmente o gospel não pode ficar à margem desta fase pródiga da música no país, é fundamental que as posturas mudem imediatamente! A mudança começa pelos artistas e sempre gosto de reforçar essa questão porque são eles os grandes ‘atores’ deste cenário, muito mais ainda do que as gravadoras! E nesta mudança de postura não implico apenas uma mudança de discurso do tipo: ‘em todas as plataformas digitais’, mas principalmente em termos de estrutura e suporte! Os artistas precisam entender a importância de contarem com equipes de marketing trabalhando especificamente seus projetos. Acabou em definitivo a era do orgânico – que na verdade é apenas a forma cool ou chique de se dizer que não fez nada, que tudo aconteceu naturalmente – e vivemos agora a era do analytics, do business intelligence, das planilhas, dos impulsionamentos, da produção constante de conteúdos, da estratégia de comunicação, enfim, do trabalho árduo e pesado.

Fica aí o recado! Espero que todos tenham entendido que vivemos um momento mágico, mas que só irão usufruir desta fase aqueles que mudarem a forma de pensar e agir. E aí, vai encarar o desafio?

Novas demandas, novas atitudes, resultados diferentes!

 

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, palestrante, psicopata digital, alguém que tenta contribuir para que o mercado da música gospel cresça no país porque assim, consequentemente a Palavra, a boa mensagem cantada alcançará mais e mais pessoas!

Mauricio Soares, publicitário, jornalista, observador, caixeiro-viajante que morre de saudades de casa, atuando no mercado gospel há alguns anos e confiante de que em algum dia as coisas ficarão mais fáceis para todos nós que militam nestesegmento.

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