Whitney Houston contra o Dragão da Maldade

OBC, Houston copy

Em texto assinado por Jeffrey Zaslow, a edição de hoje do The Wall Street Journal analisa o que o autor chamou de “A Era da Humilhação”: o tempo em que vivemos, quando qualquer um pode sacar um celular e com ele arrasar pra sempre a imagem de um artista, bastando pra isso um ângulo desfavorável, uma barriga indecente, ou uma performance abaixo da crítica.

Num dos trechos, o jornalista cita o caso de Whitney Houston — voz singular que, depois de invadir corações e mentes durante os anos 80, desapareceu da mídia, tendo ressurgido recentemente com novo álbum depois de ver seu nome envolvido em histórias escandalosas.

Houston tenta um retorno glorioso, buscando um lugar de honra pra quem um dia, pela extensão do seu sucesso, foi comparada a ninguém menos do que Michael Jackson.

Se em estúdio o talento da artista permanece intacto, como comprova o último lançamento pela Sony/BMG, ao menos num dos shows da turnê “Nothing But Love” ela teve problemas, praticamente perdendo a voz diante da platéia em Londres.

Embora isso já tenha ocorrido com nomes consagrados, como Maria Callas e Elvis Presley, foi a captura do momento em vídeo que detonou a onda de comentários maliciosos envolvendo o nome da cantora.

Confesso que não sou um ouvinte regular de Whitney Houston, e nem quero discutir a carreira ou o talento da artista: prefiro debruçar-me sobre outros aspectos da notícia, mais propriamente sobre os “vídeos que circulam pela internet”, repletos de momentos trágicos, e que alimentam uma corrente de maldade e podridão que me fazem pensar um pouco sobre aquilo que somos.

Quero tratar do gosto pelo bizarro.
Do prazer pelo ruim, pelo estrago e pelo trágico: um risco a que todos estamos sujeitos.

Longe de serem engraçadas, as imagens de Whitney sem voz são comoventes.

Parecem proféticos alguns trechos da canção de 1977, composta por Linda Creed e Michael Masser: “I decided long ago, never to walk in anyone’s shadows/ If I fail, if I succeed/ At least I live as I believe/ No matter what they take from me/ They can’t take away my dignity”.

Ao mesmo tempo em que me comovia com o quadro, pensei no que leva alguém a espalhar a má notícia. Gravar, ver, rever e, não sem antes ter de fazer inúmeros questionamentos interiores, decidir por distribuír o vídeo, num show de piores momentos que dizem muito mais de quem postou do que de quem pagou o mico. Ainda que o próprio artista tenha perdido o senso de conveniência, a iniciativa de promover a gafe é muito mais relevadora da mediocridade de quem divulgou, do que da possível debilidade do protagonista.

Que fique claro: não sou contra o patético e nem contra o riso pelo ridículo, me permitindo gargalhar diante de quem decide voluntariamente ser alvo do escárnio.

Mas tenho horror ao drama real, preferindo escolher com critério do quê vou rir.

E foi assim que, depois de uns 30 segundos, decidi que não mais ouviria aquilo, e que eu tinha a escolha de ter a imagem de Whitney que eu quisesse.

Lembrei-me da frase, extraída de um anúncio de bebida da década de 60, que adoto como lema de vida: “Enfrentar a mediocridade é uma decisão pessoal”.

Com a decisão de me livrar do lixo mental que consumi por longos 30 segundos, me permiti catar alguma coisa do fundo do baú: fui ouvir a mulher em seus anos de ouro, traindo minha crença da época de que sua voz melosa não seria pro meu bico — nada como o tempo pra fazer você rever as coisas, ou pra simplesmente envelhecer, não é mesmo?

E foi ali, no meio da inacreditável “I Have Nothing” — que rola em looping infinito desde que comecei a cometer este texto — que descobri que Whitney cantará pra sempre do jeito que eu decidir: basta escolher com critério o que ouvir.

Viver é escolher.
E a escolha é sempre nossa.

Num mundo cercado por mediocridade, são suas escolhas que influenciarão o que você vai ouvir, ver, experimentar.

E são essas experiências que vão encher sua cabeça, saindo pelos poros quando tiver que escrever, criar, debater, e até mesmo gastar uns 15 minutos de conversa com alguém especial.
É neste momento crucial que, quer você queira ou não, tudo o que foi ingerido pelos seus sentidos será publicado, exposto perante todos, deixando claro quais são os fundamentos da sua personalidade, que tipo de trabalho você parece capaz de executar e, talvez ainda mais assustador, de que material você é realmente constituído.

Diante dessa inquestionável influência sobre seu destino, fica a pergunta: você seleciona o que entra na sua cabeça?

Ouvir qualquer coisa, ver qualquer coisa, falar qualquer coisa é um risco alto demais pra quem precisa produzir com excelência.

Além de tudo, é um risco desnecessário. Num mundo repleto de feiras de livros, bibliotecas, milhões de canais de tv, revistas e jornais, a última desculpa pra se encher de porcaria acabou depois do boom da internet — pra quem sabe escolher, ela é um poço de cultura e informação a seu dispor, 24 horas por dia e, na maioria das vezes, de forma gratuita.

Em breve trataremos das coisas que realmente importam, de tudo aquilo que alguém precisa pra gastar sua breve vida nesse planeta, passando por aqui com qualidade.

Mas, antes de começar a tratar do que é bom, é necessário se desfazer de todo este lixo.

Quero propor um exercício de eficácia comprovada: tire um tempo pra faxinar sua cabeça, livrando-se do lixo mental e liberando espaço para as coisa boas que vão entrar.

Suspenda aquele programa policial com o apresentador hipertenso, corte os “bichality shows”, e esqueça a máscara de iogurte persa que a atriz popozuda está usando. Pare de contar os mortos na chacina desta semana, e elimine do seu playlist aquele hit nojento do último carnaval. Apague do seu domingo aquele ex-gordo com camisa por dentro da calça e pule o caderno de esportes, livrando-se das aventuras do esportista que preferiu a favela ás calçadas de Milão.

Pode parecer pouco, mas depois de uma semana você vai sentir a diferença.

Vale a pena tentar.

Eu garanto.

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Carlos André Gomes é designer gráfico e prefere rever tudo de Stanley Kubrick a ver “qualquer coisa” em 3D.

11 Comments

  • Marcos Almeida

    18/06/2010 at 14:34

    Maurício, alegria sempre!

    Bom te ler e ver esse despudor "da idade" escancarando seu pensamento e coração,fazendo a escolha de ampliar as coisas ao invés de reduzi-las.
    A nossa conversa já pode se tornar pública, o que você já sabe mas nem todos sabem é que acredito na necessidade de se ampliar o discurso evangélico para que ele consiga traduzir melhor a realidade. Ou melhor, acredito que temos na nossa tradição cristã recursos para entender o mundo de forma mais abrangente do que se tem colocado aí – acontece que esquecemos deles e é tempo de relembrar .
    A nossa música será cada vez mais bonita, mais bem conduzida e mais abençoadora quando for ao mesmo tempo mais REAL também.
    Esse lugar de relevância no meio fonográfico nacional não pode ser medido apenas pelos números, mas por quão brasileira, viva, inteira e enriquecedora [para todo o nosso povo] se torna a música feita por um cristão. Talvez o que você está identificando nesses 20 anos de experiência seja os limites que o próprio Gospel colocou pra si; limites temáticos e até estéticos – o que tem íntima relação com a visão de mundo religiosa e fragmentada de muitos, que como eu disse abandonou aqueles recursos tão preciosos que os nossos pais tinham para enchergar o mundo integralmente.
    Essa sua provocação pode , em tempo muito oportuno, fazer a gente pensar e ver que não podemos acatar de olhos fechados o que status quo nos vaticina!
    Seu texto é rico e um excelente diagnóstico a respeito da saúde do artística cristão brasileiro. Agora é tempo de continuar tendo essa habilidade para identificar os males, e também apontar a cura. Digo: não existe nada melhor para curar esse "mal-estar" do que o REALISMO TOTAL que nos ensina o Evangelho – onde não existe espaço para fragmentações, auto-promoção, falsa-humildade, testemunhos inflados, dialeto gospel e medo de ser e aparecer no meio do mundo.
    Acho que posso terminar essa carta, rsrs, com uma citação do Giannetti: "Se é verdade que o sonho desligado da realidade é vazio, é preciso ter em mente que a realidade desprovida do poder transformador do sonho é deserta. O futuro responde à força e à ousadia do nosso querer". Que a gente deseje o querer Dele que sempre foi exageradamente inteiro e completo! Que a gente possa encarar esse status quo como uma realidade a ser transformada pelo poder de um sonho mais amplo, mais vivo e mais bonito.

    Deus te abençoe nessa caminhada. Força e avante!

    Abraço demorado.

    Marcos Almeida.

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  • Rebeca

    16/08/2011 at 16:38

    pois é… aos que flagraram o momento afônico da Whitney, aos que fomentam o vídeo e aos que riem dela, eu lanço o desafio de cantarem 20% do que a cantora consegue. Ou melhor, tentem postar um video deles mesmos cantando, e veremos quem paga mais mico. Somos humanos. Erros todos cometem, agora, uma voz como a dela poucos alcançam…

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